Crítica | Operação Final

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O Cinema já nos trouxe algumas ótimas representações envolvendo as atrocidades cometidas pelos nazistas em meados do século XX. Das mais populares, como A Lista de Schindler, ou O Menino do Pijama Listrado, até outras obras não tão conhecidas, mas tão impactantes quanto, como O Médico Alemão, todas nos deixam com aquele peso na alma, praticamente incrédulos de que tamanha barbaridade pode ter ocorrido e há tão pouco tempo. Naturalmente que esse é um dos motivos pelos quais precisamos de filmes como esses – para sempre nos lembrar dessa mancha no passado da humanidade, como um grande aviso que implora para não cometermos o mesmo erro. Operação Final, portanto, dificilmente pode ser enxergado como um filme desnecessário, ou qualquer adjetivo similar – independente de seus deslizes.

O longa-metragem, distribuído fora dos EUA pela Netflix, baseado em fatos, gira em torno da busca e apreensão de Adolph Eichmann (Ben Kingsley), um dos principais arquitetos do Holocausto – a chamada “solução final” dos nazistas. Conseguindo escapar das forças aliadas, Eichmann fugiu para a Argentina e o filme mostra justamente a missão de agentes da Mossad para tirá-lo de lá – em segredo – e levá-lo até Israel, para responder pelos seus crimes.

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Com isso, a própria natureza de Operação Final o coloca ao lado de Argo, de Ben Affleck, em termos de similaridade narrativa. Embora completamente diferentes em temáticas, temos estruturas parecidas, que giram em torno da extração de um ou mais personagens de um país. Dito isso, o mais recente sai na vantagem, obviamente por dialogar mais diretamente com nossa memória coletiva, imediatamente nos fazendo torcer pelo sucesso da missão.

Aliás, é preciso notar como o roteiro do estreante Matthew Orton já amplifica o bom e velho sentimento anti-nazista ao mostrar uma reunião de nazis gritando ‘sieg heil’ em plena Argentina. Dessa forma, o texto estabelece logo cedo a ameaça do grupo, que ainda luta para sobreviver após o fim da Segunda Guerra, seguida por Nuremberg. Chega a ser estranho e até nauseante ver tal forma de manifestação no período pós-Guerra, mas esse é o propósito do filme, que poderia ter alcançado um resultado melhor com a utilização de outros idiomas além do inglês – trazendo, assim, maior veracidade à história, que se passa, predominantemente, no país da América do Sul.

Chegamos a ouvir outras línguas, mas muito raramente e não de forma expressiva o suficiente para contornar esse defeito do longa-metragem, que lida com pessoas de diferentes países. Outros filmes, como o próprio A Lista de Schindler, já fizeram uso do inglês para retratar essa parcela da História, mas há todo um processo para construir a necessária atmosfera a fim de que não nos importemos muito com isso – algo que não há aqui em Operação Final.

Felizmente, não se trata de um problema grande o suficiente para prejudicar nossa imersão drasticamente. Por sinal, os trabalhos de Oscar Isaac (como Peter Malkin, da Mossad) e de Ben Kingsley mais do que dão conta do recado em nos manter atentos ao longa.

Isaac encarna o agente dedicado, mas não muito querido pelos seus colegas. Ele claramente é mais independente do que gostariam, tem suas próprias ideias e quer colocá-las em prática. O ator não passa dúvida ou hesitação nessa sua atuação – somente quando o filme assim o pede, claro. Ele é decidido, enfático e rouba a atenção em cena, sem precisar de muito. Não por acaso, nosso olhar sempre volta a ele em planos com a equipe em conjunto – o filme define muito bem seu protagonista e, claro, nos mostra o suficiente de sua história para que nos importemos com ele.

Kingsley, por sua vez, pinta um retrato verdadeiramente aterrorizante, não por viver Eichmann como um completo monstro (embora ele o seja) e sim como um ser humano, alguém que captura nossa curiosidade de tal forma que chegamos a nos sentir culpados, a tal ponto que, se fosse um pouco mais adiante, poderia categorizar o filme todo como uma obra perigosa, capaz de fazer alguém realmente simpatizar com o sujeito. Mas, nos minutos finais, vem o soco no estômago – potente e inesperado – revelando toda a malícia do homem. É realmente assustador, mas de forma diferente e mais íntima que o já citado O Médico Alemão, por exemplo.

São os diálogos entre essas duas pessoas que tornam o meio do filme tão engajante, a tal ponto que ansiamos por ver mais disso e menos da operação em si – afinal, sabemos o catártico resultado dela. É quando a ficção e a realidade se misturam, de forma tão discreta, que o brilho de Operação Final realmente aparece. Infelizmente, faltou aquela experiência por trás do roteiro de Orton, que faria ele confiar mais em seus diálogos, deixando a ação e o suspense como segundo plano, a favor de um ótimo drama.

A própria direção de Chris Weitz soaria menos falha fosse alterado o foco do longa. Weitz claramente mostra mais do que deveria, muitas vezes matando o suspense quando ele está prestes a ser sedimentado, isso quando não tira qualquer sensação de urgência de suas sequências. Bom exemplo disso é o clímax do filme, que não entrarei em muitos detalhes para evitar spoilers (mesmo esse sendo um filme histórico), mas a sensação passada por ele é que o perigo nunca chega, algo que seria facilmente resolvido por uma decupagem mais cuidadosa, ou até um trabalho de montagem mais lógico.

Ainda no desfecho da obra, ela claramente se estende por mais tempo que deveria e acaba quebrando o nervosismo envolvendo o suposto sacrifício de um personagem. Teríamos um fim muito mais impactante se o filme tivesse pulado do fim do clímax para seu epílogo, com gravações reais desse momento histórico. Por sinal, os minutos iniciais do longa também trazem um problema similar, se estendendo em trechos que, na realidade, não acrescentam em nada para a trama como um todo.

São falhas como essas que impedem Operação Finale de alcançar o mesmo patamar que as obras citadas anteriormente sobre tais barbaridades cometidas pelo homem. Mesmo sendo falho, no entanto, o filme se mantém como uma obra necessária, nos trazendo um olhar – ainda que não totalmente fiel – sobre a captura de Eichmann, além de servir como o velho lembrete para não nos arriscar em cometer o mesmo erro, sendo essa uma assustadora e, infelizmente, sempre presente possibilidade.

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