Crítica | Ponto Cego

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Em um determinado momento de Ponto Cego, dirigido pelo mexicano Carlos López Estrada, é mencionado o Vaso de Rubin, ilustração em preto e branco que mostra tanto um vaso quanto dois rostos se encarando – pode-se ver uma ou outra coisa, mas nunca as duas ao mesmo tempo. Essa impossibilidade de ver a imagem completa, com todos seus significados, conversa com a perspicaz forma com que o filme comenta o racismo sistêmico presente em nossa sociedade, na qual homens negros são pré-julgados, muitas vezes fatalmente. Esta é uma obra valente que convida seu público a ver além das superfícies.

No enredo, acompanhamos os últimos três dias de Collin (Daveed Diggs), negro, na condicional. Nativo de Oakland, trabalha ao lado do melhor amigo Miles (Rafael Casal), branco, dirigindo um caminhão de mudanças. Na primeira noite de condicional, Collin leva o veículo sozinho de volta à garagem, mas é parado por um farol vermelho. Nesse instante, acaba testemunhando um terrível acontecimento: um jovem negro, desarmado e em fuga, é baleado quatro vezes por um policial e morre imediatamente no asfalto. Essa ocorrência de apenas alguns segundos deixa Collin profunda e permanentemente abalado.

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A morte do rapaz ecoa poderosamente ao longo do filme por guardar paralelos incômodos com a história de diversos jovens negros vitimados pela truculência policial, como Trayvon Martin e Oscar Grant, cujo último dia de vida foi adaptado no drama Fruitvale Station: A Última Estação. Porém, ao contrário deste último, Ponto Cego é um filme de ficção e, por mais duro que seja em alguns momentos, não tem interesse em encerrar essa trágica história com um sentimento de impotência – o caos interior de Collin diante do ocorrido impulsiona uma jornada reveladora e muito valiosa às discussões que suscita.

Para essa jornada, não poderia haver cenário mais rico que Oakland, cidade multicultural que passa por um processo de gentrificação – saem negros e latinos, entram hipsters brancos das grandes metrópoles. A própria história do local é bem incorporada à trama: seu nome vem dos carvalhos que ali cresciam, firmes e fortes, mas que perderam seu espaço devido à intervenção humana. Essa uma das fortes alegoria imbuídas no roteiro dos próprios atores Diggs e Casal, já que Collin também se sente cada vez mais deslocado em sua cidade gentrificada. Além disso, como os próprios carvalhos, Collin cresceu por anos e criou camadas, tudo capaz de ser jogado fora num piscar de olhos, como havia testemunhado.

Ponto Cego impressiona justamente pela riqueza – e dureza – de observações como essas, e a consecutiva reavaliação que seu protagonista faz de sua própria vida, desimportante aos olhos dessa nova sociedade e do estado, é contundente. Remetendo a outras obras calorosas como Faça a Coisa Certa, essa dor leva o personagem a reafirmar sua identidade, e sua transformação interna é interpretada com grande intensidade dramática por Diggs, até então mais conhecido por seus papéis cômicos na televisão. É uma interpretação notável, que indica um futuro promissor para o jovem ator e roteirista.

As mudanças interiores de Collin também afetam sua duradoura amizade com Miles, e o protagonista passa a vê-lo com olhos radicalmente diferentes. Encarnado de forma marcante e nuançada pelo igualmente promissor Rafael Casal, Miles é um sujeito carismático, fiel mas que tem um pavio curto que não raro cria problemas para seu amigo. Acima de tudo, cria uma imagem incômoda: é um homem branco, loiro que reproduz uma série de estereótipos negativos atribuídos ao homem negro da periferia, e ainda demonstra um certo orgulho desta apropriação. Talvez por crescer no gueto, faça isso para se encaixar, mas não reconhece que perpetua uma visão nociva.

Miles anda com uma arma em mãos, dentes dourados e correntes, mas a cor de sua pele garante que saia ileso de certas situações nas quais Collin não possui a mesma sorte. Conforme o protagonista encara o amigo como parte do problema geral, sua atitude se torna menos permissiva, e, após uma cena chave, Collin grita uma frase fascinante ao outro: “Você é o negro que eles procuram”. Assim, o longa não só fala para negros como para brancos, reconhecendo a apropriação de Miles como uma questão de responsabilidade. No entanto, o personagem nunca é vilanizado, ganhando mais camadas ao longo da projeção.

Ponto Cego é, sem dúvidas, uma experiência cinematográfica densa, mas Casal e Diggs injetam essa história com um humor afiado que traz uma leveza bem-vinda em meio aos acontecimentos dramáticos. Entre os elementos mais engraçados, há a lábia infalível de Miles, que vende todo objeto em desuso que encontra pela frente – desde escovas progressivas até um barco a vela. Outros personagens menores também rendem momentos memoráveis, como o gângster que nas horas vagas é motorista de Uber e tem uma quantidade cômica de armas escondidas em seu carro. A cereja do bolo, no entanto, são as interações de Collin e Miles, especialmente quando improvisam rimas juntos.

Em seu longa de estreia, Carlos López Estrada demonstra versatilidade. Desde as cenas de abertura, Estrada consegue evocar o multiculturalismo de Oakland com imagens vibrantes e um ótimo uso de música. Também é hábil na construção da tensão, transitando do humor para o drama naturalmente – a festa hipster que acaba em confusão – e evidenciando grande atenção aos detalhes – o alarme que apita durante todo o embate final, que, diga-se de passagem, é plenamente satisfatório. Só que o diretor vai além e entrega sequências oníricas impressionantes, nos pesadelos e alucinações que Collin passa a ter depois daquele traumático farol vermelho.

Com uma força artística multicultural à frente e atrás das câmeras, Ponto Cego mais do que justifica o barulho que fez este ano no Festival de Sundance. De fato, deve dar início a muitas conversas necessárias caso alcance o circuito que merece, aliando proeza técnica a fortes comentários sociais. Com uma densidade surpreendente para apenas 95 minutos de duração, o filme é capaz de transfixar o espectador como o próprio Vaso de Rubin – no entanto, diferente dessa ilusão de ótica, pode ser plenamente compreendido e apreciado.

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