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Mostra SP | Crítica: A Rota Selvagem

Publicado por Aléxis Perri

19/10/2018 01:09

Em 2015, o jovem cineasta inglês Andrew Haigh deixou boa impressão. O sucesso de crítica do filme 45 Anos, que levou alguns prêmios festivais afora, além de ter conseguido uma indicação ao Oscar do ano seguinte para a atriz Charlotte Rampling, realmente estupenda no papel de uma esposa que descobre que seu marido nunca esqueceu seu antigo amor as vésperas de celebrarem 45 anos de casados, elevou o nome do diretor ao nível de atenção geral, inclusive dentro da indústria hollywoodiana.

Agora, chega à Mostra SP seu mais recente projeto de 2017, o drama A Rota Selvagem que conta a história de Charley Thompson, um garoto de 15 anos de idade que sonha ter uma vida estável ao lado do pai, já que vivem se mudando de uma cidade a outra com frequência. Quando se estabelecem em Portland, no estado de Oregon, Charley para ajudar o pai, arranja um emprego de ajudante de um treinador de cavalos. No trabalho, o garoto vai se aproximar de um cavalo de mais idade, chamado Lean-on-Pete. E, ao descobrir que seu dono pensa em vendê-lo, ou até enviá-lo para o México, onde serão sacrificados, Charley resolve salvar seu novo amigo, fugindo com ele em direção ao estado de Wyoming, onde mora sua tia.

Pena, que Andrew Haigh não se manteve no mesmo patamar com A Rota Selvagem, comparado ao filme de três anos atrás. Claro, que seu cinema aqui é cheio de boas intenções, mas para isso é preciso vibrar mais, algo que falta na obra atual. Nas extensas duas horas de duração, dá para se aproveitar bem a primeira parte, certamente a melhor do longa. Porém, já na parte do meio, onde vemos Charley ao lado do cavalo, a dinâmica cai um pouco, terminando em uma resolução previsível e afrouxada.

A Rota Selvagem é sobre amadurecimento e perseverar diante as adversidades da vida. Charley, realmente um adolescente de bom coração, já teve sua dose de tristezas e abandonos em sua curta vivência, portanto tem ótima relação de parceiragem com seu pai, interpretado por Travis Fimmel, um homem displicente como figura paterna, ao mesmo que cativante como confidente. Dá mesma maneira, se dá a ligação entre o jovem e o cavalo Lean-on-Pete. Há uma identificação instantânea entre o garoto e o animal, quando seu dono, papel de Steve Buscemi, diz que Pete é um bicho dócil, manso.

O problema é que quando o filme fica, apenas o adolescente e Pete, falta energia. É, até complicado criar empatia com a situação dramática de Charley, não porque sua história não mereça atenção ou compaixão, mas por causa da atuação de Charlie Plummer, corretamente vulnerável, só que parecendo música de uma nota só. Se pelo roteiro, existe sim, tratamento desenvolvido do protagonista da trama. Na prática, não se pode dizer o mesmo, pois Haigh não conseguiu aproveitar das nuances do texto, e aplicá-las sobre o jovem ator, que em sua performance, termina igual começou. Até tiques como a maneira que Charley fecha sua expressão facial se repetem ao longo do enredo.

A partir disso, sua conexão emocional com o cavalo Pete pode até ser questionada, mesmo porque em dado momento, Charley se encontrará no seu pior momento nessa jornada em busca de redenção, e ainda assim, seguirá em frente, como já havia feito durante todo o filme. Mesmo quando foi preciso usar de violência, o ator supervisionado pelo cineasta Andrew Haigh entregou os mesmos resultados.

Em resumo, se for possível indicar apenas uma palavra para A Rota Selvagem, sendo exibido na Mostra SP, esta seria: morno.

Geralmente, filmes que retratam jornadas vividas por adolescentes, podem ser contadas de variadas maneiras, e diferentes tons, mas algo essencial a estas é a sensação de emparelhamento emocional entre personagens e espectadores. Sem isso, estão fadados a ficarem no limbo, cair no esquecimento. Algo que já pode ser afirmado, pois A Rota Selvagem, que é do ano passado, não fez bonito na bilheteria ao redor do mundo.

Em filmes de relação ser humano e animal, pode-se evitar cair no sentimentalismo manipulador, como em Sempre Ao Seu Lado, com Richard Gere. Todavia, não é aconselhado manter-se tão distante de emoções mais básicas, incluindo a de choque diante da perda do que tanto buscamos preservar ao nosso lado.

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