Mostra SP | Crítica: Trem das Vidas Ou A Viagem de Angélique

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Na 41ª Mostra Internacional de Cinema, ano passado, foi entregue o Prêmio Leon Cakoff ao autor francês Paul Vecchiali, cineasta renomado de carreira consolidada desde a década de 60. Além do prêmio, o festival fez um panorama com alguns de seus principais filmes, como O Estrangulador e Mulheres, Mulheres. Agora, na atual Mostra SP, mais uma obra do diretor, o mais recente Trem das Vidas Ou A Viagem de Angélique.

O longa de Vecchiali narra a trajetória de vida de Angélique, ex-cantora que parece não envelhecer, em específicos momentos no tempo, e em cada um destes, seus encontros significativos em viagens de trem ao redor do mundo.

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Como um cineasta que construiu a carreira com obras de baixo orçamento, produzindo filmes íntimos, não seria diferente hoje na filmografia do diretor octogenário. Trem das Vidas Ou A Viagem de Angélique tem praticamente um tipo de cenário em todo o filme, duas poltronas em um vagão de algum trem, seja na França, ou Japão. Uma câmera, de mínimos movimentos, que geralmente varia entre dois planos: primeiro plano, pegando da região peitoral para cima; mas especialmente, meio primeiro plano, que captura a performance dos atores da cintura para cima. E, no quadro, sempre dois atores, sendo em quase todas as cenas, a protagonista interpretada por Astrid Adverbe.

Curiosa a escolha de Paul Vecchiali para o nome da personagem Angélique, que não se sente nada angelical. Pode-se estabelecer uma leve semelhança entre a obra, e o longa Elle de Paul Verhoeven no quesito assunto, que trata a sexualidade feminina sem amarras moralistas. Além do fato das atrizes principais serem, ambas, ruivas. Porém, enquanto o holandês Verhoeven não abre mão de seu deboche voraz para com a humanidade, Vecchiali é mais sutil e comedido em sua acidez tipicamente europeia. Um provoca, e o outro convoca reflexão.

O lado suavemente provocador do cineasta francês pode ser visto no filme, no primeiro encontro entre Angélique e sua amiga Clarisse, papel de Marianne Basler, onde conversam abertamente sobre suas vidas sexuais, dando uma cutucada reflexiva para as feministas. Assim, como a carta aberta capitaneada por Catherine Deneuve e Catherine Millet, lançada no começo do ano após a manifestação das atrizes hollywoodianas na cerimônia do Globo de Ouro em apoio aos movimentos #MeToo e Time’s Up.

Todavia, se o assunto é a sexualidade libidinosa da mulher, a temática vai mais fundo, como pode se imaginar de um autor como Paul Vecchiali, que já adaptou Dostoiévski para o cinema em Noites Brancas no Píer, e parece que continua com o filósofo russo na cabeça. Pois, Trem das Vidas Ou A Viagem de Angélique caminha no niilismo do romancista e pensador sondando os sofrimentos de nossas tragédias pessoais, e o livre-arbítrio que pode desembocar no sentimento de culpa. Estranha o fato de Angélique não parecer envelhecer, assim como outros personagens, durante a trama, mas está de acordo com esta proposta niilista do cineasta, porque nada pior à um niilista saber que nada realmente muda.

Com um tema assim, é necessário que a atriz mostre que pode encapsular em seu corpo as fases da tragédia, e dentro da premissa shakespeariana de que se há dor, é porque houve alegria, a atriz Astrid Adverbe cumpre com sobras a tarefa. São eletrizantes algumas cenas de interlocução entre atriz e outros atores do elenco, principalmente quando vemos o perfil de seu rosto enquanto olha fulminantemente alguém. E o fato de a câmera estar parada em um mesmo plano contínuo, passa uma sensação de voyeurismo, como se o espectador ficasse de butuca, observando e atento ao que as personagens conversam.

Em algumas destas várias interlocuções, o diretor Paul Vecchiali sai de trás da câmera, e vai atuar, em suave tom cômico, por vezes, debochado.

Mas, é como articulador da narrativa que Vecchiali dispõe com clareza, e sem máscaras a dureza do material que fala sobre liberdade e segurança. Como dizia, o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman – ‘Segurança sem liberdade é escravidão, e liberdade sem segurança é um completo caos’. Em cima disso, o cineasta francês faz da lente um raio-X que examina a condição humana em sua tragédia pessoal, que pena para encontrar o equilíbrio perfeito entre ambas. Angélique, assim como todos nós, tem dificuldade para fazer isso, e seguir em frente.

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