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Mostra SP | Crítica: Utoya – 22 de Julho

Publicado por Aléxis Perri

24/10/2018 01:25

Poucas semanas após a Netflix liberar o filme 22 de Julho do cineasta Paul Greengrass, chega também à Mostra SP, a versão norueguesa do diretor do mesmo país, Utoya22 de Julho de Erik Poppe. Competindo pelo Urso de Ouro na competição principal no Festival de Berlim deste ano, a obra de Poppe saiu de mãos abanando, nenhum prêmio. Algo que, após visto o longa, não é de se estranhar, pois é realmente um projeto de baixíssimo nível. Certamente, um dos piores filmes em exibição na atual 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Utoya22 de Julho rememora, de maneira sádica, o dia fatídico do ataque planejado por um homem do lado político de extrema direita, anti-multiculturalista, e contra o Partido dos Trabalhadores da Noruega, que terminou na morte de 77 pessoas, contando o atentado à bomba em Oslo, capital da país. Na ilha, acompanhamos a todo tempo, Kaja, monitora e uma das adolescentes que luta para tentar sobreviver a esse massacre sanguinolento, ao mesmo tempo, que busca encontrar Emilie, sua irmã mais nova.

É fácil definir o que tem de melhor, e o que há de pior na obra do diretor norueguês Erik Poppe. De melhor, é a performance vigorosa e corajosa da jovem atriz Andrea Berntzen; e de pior, todo o resto.

Não há muito o que elogiar mesmo em Utoya22 de Julho a não ser a dedicação e vibração da atriz em retratar o terror que passaram na ilha, tantas crianças e jovens, onde muitos terminaram alvejados pelo assassino Anders Behring Breivik, que aqui no longa de Poppe é apenas uma sombra no topo de uma colina, prestes a tirar a vida de pessoas inocentes.

Em um filme dinâmico e curto, apenas uma hora e meia de duração, ainda bem! O cineasta Poppe tem apenas uma bala no cartucho, ao contrário de Breivik que parecia ter munição de sobra para acabar com meia Noruega, que é documentar ficcionalmente por 72 minutos, que é o tempo exato que durou o tiroteio em Utoya, o pânico na ilha com gritos, tiros e muito choro por parte dos jovens aterrorizados. Então, ele usa 72 minutos dos 90 minutos disponíveis para criar um ambiente isolado, usando de uma câmera, que age como nos jogos de vídeo-game em primeira pessoa, como o clássico jogo de tiro Doom, acompanhando a protagonista Kaja, do primeiro minuto, até os momentos finais.

A ideia em si é perigosa, pois pode ser interpretada como uma forma desrespeitosa à tragédia que abalou o país nórdico. Claro, que quem quer mexer com expressões artísticas, de toda forma, deve estar disposto a aceitar críticas e olhos virados, quando se busca transgredir um pouco mais do que o esperado, e temos vários autores de cinema que se dão muito bem, em suas transgressões, como Lars von Trier, que está exibindo na Mostra SP, A Casa que Jack Construiu, seu mais novo filme estrelado por Matt Dillon, ou até o cineasta holandês Paul Verhoeven.

Todavia, aqui o problema passa do exagero do conceito de filmar a risca o massacre em Utoya. Usar apenas de um artifício durante praticamente toda a narrativa, não apenas denota certa pobreza de vocabulário visual, mas principalmente, a imaturidade artística ao não cogitar que esta ideia tem prazo curto, porque após, no máximo, dez minutos sob este viés narrativo, você cansará o espectador, além de saturar o próprio material.

Desta maneira, o que era algo similar a um jogo de tiro em primeira pessoa, acaba virando uma sessão voyeur sádica, com crianças e adolescentes mortos, acompanhada de sons de horror, e nada mais.

Tudo o que Erik Poppe conseguiu em Utoya- 22 de Julho foi apresentar mais uma forma apelativa para cinema. Óbvio, que recriar tal acontecido não é algo fácil de se representar, vide o filme da Netflix de Paul Greengrass, que assim como este filme norueguês de Poppe, não conseguiu ser minimamente marcante como obra. Mas, ao menos Greengrass conseguiu montar, com bom ritmo e uma câmera ativa, cenas capazes de comover a quem assiste a cenas tão horripilantes. Já, Poppe não conseguiu nada, a não ser cansar quem esta na poltrona do cinema, sem esquecer o fato, de ter elaborado uma das cenas mais horrorosas, no sentido de má qualidade, no ano: um karaokê à beira da morte.

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