Certos filmes são capazes de suscitar dúvidas específicas. Após assistir a O Colar de Coralina, fiquei me perguntando: por quê este filme foi feito, e para quem? Lançado na surdina dois anos após sua realização, é pouco provável que o longa de Reginaldo Gontijo alcance seu suposto público-alvo, crianças, ou sequer algum espectador. Apesar de suas intenções, é o tipo de obra que parece feita apenas para seu realizador, que tinha algum esboço de uma boa ideia mas falhou em deixá-la concreta para outros – caso do recente Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer.

Baseado no poema O Prato Azul Pombinho, de Cora Coralina, este filme procura retratar a infância da aclamada escritora de maneira lúdica. Educada por suas empregadas para ser uma mulher “da casa”, que cozinha e cuida do lar, Aninha (Rebeca Vasconcellos) tem seu amor pela escrita repreendido diariamente. Assim como sua mãe Jacintha (Letícia Sabatella), sente-se limitada pelos rótulos e castigos a ela impostos por não se adequar às expectativas que a sociedade tem dela. Portanto, através do contato com o lúdico, é capaz de superar esses estigmas todos.

Tudo isso descrito acima é apenas mencionado pontualmente ao longo de O Colar de Coralina, e nunca transmitido de outra forma a não ser por diálogos. Isso não seria uma problema tão grande caso o texto assinado por Geraldo Lima não fosse tão fraco e superficial, caindo na mesma armadilha de que entretenimento infantil deve ser sempre o mais mastigado possível. Tentando dar conta de temas potencialmente profundos, nunca vai além da superfície e nem chega ao âmago de sua pequena protagonista, o que suponho ser o objetivo da obra.


Porém, sem uma estrutura narrativa que se note, o roteiro de Lima parece buscar um conflito onde não há, construído sem uma base sólida. Não li o romance original de Coralina, mas, com o desenvolvimento que ganha aqui, a trama que envolve o prato azul nunca diz realmente a que veio, além de levar a uma conclusão óbvia que remonta ao título do filme. Embora parta de um romance, o material poderia ter funcionado melhor em um curta-metragem, parecendo mais a adaptação de um daqueles resumos de obras que buscamos na internet durante o ensino médio.

Como se a falta de rumo do texto não bastasse, a direção das cenas aparenta sempre perdida. Desde a entrega dura dos diálogos ao mau posicionamento dos atores em cena, com enquadramentos que cortam cabeças e ângulos que ocultam rostos dos atores, nada parece realmente planejado como deveria. Assim, fica visível o desconforto do elenco, tanto mirim quanto adulto, diante das câmeras. Isso tudo realça uma sensação de que nada ali é verdadeiro – até mesmo uma obra lúdica deve ter sua parcela de verdade para funcionar, seja no texto ou nos intérpretes.

Essa falsidade fica ainda mais aparente em diversos outros aspectos. A passagem do tempo é no mínimo estranha, já que em uma cena as empregadas, ainda escravas, discutem sobre a assinatura da lei áurea e o que isso acarretaria para elas, e logo em uma das cenas seguintes uma delas já não diz ser mais escrava. Nessa mesma cena, nota-se outro aspecto: a falta de figurantes. Enquanto Aninha brinca de amarelinha na rua, sua empregada a repreende dizendo que “todo mundo está olhando”, mas não há uma única alma viva além delas em cena, o que torna o momento risível.

Essas falhas provavelmente se devem a uma falta de um maior orçamento, resultando em menos diárias de gravação e elenco reduzido. Porém outras podem ser diretamente atribuídas à condução de Gontijo. O diretor não faz o melhor uso dos recursos a seu dispor, entre eles a fotografia de Dizo dal Moro e a música de Carine Corrêa, que fazem o que podem para acrescentar alguma atmosfera. A última, especialmente, cria belas composições, mas que são usadas de forma tão repetitiva que chegam a testar a paciência, com faixas aparentemente tocando em loop ao longo de cenas inteiras.

As decisões mais desconcertantes surgem quando Gontijo tenta colocar os dois pés no lúdico, talvez numa tentativa de construir imagens “poéticas”. São trechos que envolvem Aninha tocando um xilofone de luz, o encontro da garota com diversas figuras folclóricas e uma cena na qual um morador de rua passa, sem motivo algum, a caminhar ao contrário, provocando risos involuntários. Porém o mais constrangedor é a visita de uma vizinha excêntrica à casa da protagonista, que culmina em um pesadelo bizarro no qual ela e Aninha brigam por um prato com restos de bolo.

Por acaso, depois de assistir a O Colar de Coralina, dei uma conferida em seu único trailer. O material de divulgação, que dura cerca de três minutos, já foi capaz por si só de sintetizar todos os pontos narrativos essenciais do projeto, mesmo assim penando para manter o interesse até o fim. Ou seja, tudo que este filme de 77 minutos tem a contar não é capaz de sustentar nem mesmo um curta-metragem por inteiro, portanto é difícil compreender o potencial que Gontijo e Lima viram numa adaptação deste material aos cinemas.