Crítica | Calmaria

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Vez ou outra, surge uma loucura interessante e autoimportante vinda de um roteirista antes muito articulado, com trabalhos aclamados no currículo. São filmes como A Passagem, de Marc Forster, O Sacrifício, de Neil LaBute, e agora o novo longa do aclamado Steven Knight, Calmaria. Knight, que roteirizou dramas humanos e delicados como Coisas Belas e Sujas e fez um grande trabalho na direção com o show de um homem só Locke, parece ter chegado à etapa de sua carreira onde se sente à vontade para fazer “algo completamente diferente”, como dizia John Cleese em cada episódio de Monty Python’s Flying Circus.

Calmaria é a história de Baker Dill (Matthew McConaughey), pescador obstinado em capturar um peixão que apelidou de Justiça. Ele vive sozinho em sua cabana na ilha de Plymouth, que possui algumas dezenas de habitantes, e remói um passado aparentemente conturbado marcado pela perda do filho – para o divórcio. O menino agora vive com sua mãe (Anne Hathaway) e o padrasto agressivo (Jason Clarke), que possui conexões poderosas e representa uma grande ameaça à vida do garoto. Um dia, Baker tem sua tranquilidade abalada assim que sua ex vai atrás dele para pedir que assassine seu novo marido, com a promessa de pagá-lo 10 milhões de dólares. Nada cheira bem.

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Este filme se inicia como drama de pesca e sugere um estudo de personagem, estabelecendo a obsessão de Baker e o que os habitantes da região acham dele. Depois, assume-se como um neonoir com ares bem fortes de Supercine. Mas, para acrescentar, ao longo dessa transição, o longa insere elementos que sugerem um lado metafísico, que se reflete tanto em movimentos de câmera artificiais, objetos de cena que reluzem de forma exagerada e uma trilha sonora sempre elevada, dramática, com algumas instrumentações oníricas. Se algo já não estava certo antes, com estes elementos essa incerteza cresce e por consequência o envolvimento também.

Não é fácil adivinhar o que está acontecendo nos primeiros minutos, e a verdade não é nada do que se espera ao entrar na sala, mas isso não é necessariamente bom, ficando como subversão apenas pela subversão. Ao menos, o diretor e roteirista Steven Knight se dá ao trabalho de incorporar elementos narrativos e visuais que conduzem a essa revelação sem que soe tão gratuita. Explica-se de forma comicamente sucinta o porque de todo mundo na ilha saber de tudo, todos falarem a Baker sobre o “peixe que está em sua cabeça”, o executivo que o persegue sempre perder a hora por exatos 20 segundos e sua obsessão com a pesca. Porém, o momento desta revelação, que em tese deveria chocar, é executado sem cerimônia.

Ainda assim, a bobagem é tamanha que exige grande suspensão de descrença do espectador, que aceitando o longa pelo que ele se torna, deve ao menos estar entretido. Certamente é um filme que cativa e instiga a atenção, com uma atuação descontrolada de McConaughey, que passa metade do longa confuso, ou bêbado, ou os dois ao mesmo tempo. Há um valor de entretenimento em assisti-lo vagar pela ilha de Plymouth sendo o único a saber da cabulosa verdade por trás do local e seus habitantes, assim como era divertido acompanhar Nicolas Cage fantasiado de urso no embaraçoso O Sacrifício – Calmaria parece igualmente feito para render alguns bons memes e gifs.

Mesmo assim, há elementos diversos que de forma alguma funcionam, como o personagem de Jason Clarke e a abordagem da violência doméstica, ora feitos com mão pesada ora simplesmente errando feio o tom. Embora a decisão de tornar o antagonista de Clarke em um sujeito absolutamente desprezível trabalhe a serviço de nosso desgosto por ele, sua caracterização exagerada torna a relutância de Baker em matá-lo incrédula e irritante – especialmente depois das grandes revelações. Já a decisão de levar a personagem de Hatthaway para um caminho psico-erótico a reduz bastante, soando como um tratamento antiquado e gratuito de uma figura potencialmente complexa – em outras palavras, Steven Knight não escreve mulheres misteriosas como Hitchcock ou DePalma.

A segunda metade de Calmaria, quando tudo já está revelado, também tropeça em diversos aspectos característicos de um roteirista que quer mexer com um formato específico mas não possui o entendimento necessário para brincar com tal. Sem entregar qual este formato seria, pode-se dizer que a falta de entendimento de suas regras e funcionamento torna o longa um bocado anacrônico, inclusive quando há obras com mais de uma década de idade que executaram as mesmas ideias com mais coerência e inventividade. Se o filme não se levasse a sério tão frequentemente – em alguns trechos, nem Baker leva -, seria mais fácil aceitar suas incoerências científicas e embarcar na aleatória viagem que se segue.

Porém, muito estranhamente, a falta de noção demonstrada em diversos aspectos de Calmaria também é o que torna o filme tão marcante. Talvez mais ruim que bom, ainda assim é sempre divertido testemunhar um longa que quer quebrar as regras do que pode ser feito dentro de seu gênero e, seja por pretensão ou ignorância de suas capacidades, tenta dar passos muito maiores do suas pernas permitem. Em seu longa mais enlouquecido de longe, a audácia de Steven Knight fica exatamente entre entreter e ofender seu público com uma trama que ora acredita piamente ser genial, ora não se dá nem ao trabalho de defender suas ideias da chacota do público. A transgressão, pelo menos, entretém.

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