Crítica | Minha Fama de Mau

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Após uma série de obras ora inexpressivas, ora bastante inconsistentes, o molde das cinebiografias brasileiras felizmente começa a rachar com Minha Fama de Mau. Embora não seja um completo respiro de ar fresco para o popular subgênero, o filme dirigido por Lui Farias distingue-se ao abraçar a personalidade do biografado e imprimi-la sobre a tela.

Com base na famosa autobiografia homônima de Erasmo Carlos, Minha Fama de Mau também traz um retrato narrado pelo próprio Erasmo (Chay Suede), que nos apresenta às fases de sua vida entre a adolescência flertando com o rock ‘n’ roll até o fim da Jovem Guarda. Para isso, o protagonista muitas vezes quebra a quarta parede e fala com o público, criando uma dinâmica distinta para esse tipo de obra, especialmente nessa safra nacional.

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Como dito antes, o maior acerto está em refletir, pelo menos por uma boa parte do longa, a personalidade do biografado na maneira como tudo nos é contado ou apresentado, sendo uma forma de enriquecê-lo como personagem cinematográfica e trazer um despojo que permite uma interação mais engajada do espectador com a obra. Isso, aliás, deve deixar o trabalho mais convidativo ao público adolescente, acostumado a um cinema de autorreferência.

O roteiro assinado por Farias, L.G. Bayão e Letícia Mey consegue empregar esse formato dinâmico e por vezes totalmente hiperativo com sucesso, inclusive sem sacrificar uma estrutura narrativa coerente – algo que Chacrinha: O Velho Guerreiro, de Andrucha Waddington, penou para manter em seu corte cinematográfico ao tentar encapsular a totalidade da vida de seu protagonista, que pouco é aprofundado.

Além dos recursos mais tradicionais de quebra da quarta parede, como voz over e monólogos para a câmera, há um trabalho gráfico requintado que por vezes insere ilustrações em caneta ou permite que artistas em pôsteres ganhem vida própria e pulem do papel, truques que acrescentam um bem-vindo charme juvenil. A montagem, inspirada, ainda costura diferentes formatos e materiais seja para retratar a cultura do período ou o processo criativo de Erasmo.

Algum conhecimento de parte da obra de Roberto Farias, pai do diretor Lui e mencionado em determinado momento do longa, deve fortalecer a experiência nesse sentido, já que os antigos filmes dirigidos por Farias e estrelados por Roberto Carlos tomavam essas liberdades cinematográficas – por sinal, de forma até mais extrema. Aqui, o maior floreio vem por conta de um pesadelo de Erasmo, enquanto lá haviam conspirações globais e vilões caricatos.

Além disso, a produção da canção tema para Em Ritmo de Aventura (“Eu Sou Terrível”) é praticamente o último tópico de Minha Fama de Mau, que assim acaba servindo como uma prequela aos filmes do pai e portanto fechando uma espécie de ciclo. Neste caso, o filme de Lui vale também por apresentar esse episódio do cinema brasileiro para um novo público.

Porém, mesmo que preste essa homenagem final, Minha Fama de Mau começa mais forte do que termina. Todo o dinamismo empregado para retratar a juventude de Erasmo e seu decolar para a fama é largado quando o músico atinge um breve período de crise. A não ser pelas pontas de Bianca Comparato, o ato final é muito convencional para um filme que, antes disso, quebra regras a bel-prazer.

O longa ainda sofre com problemas de ritmo por conta dessa passagem a um registro mais “sério”, já que não estabelece um ritmo interno coerente entre os primeiros atos e o último. As apresentações em palco, com algumas canções na íntegra, antes são bem distribuídas e integradas com o drama, mas passam a ser enfileiradas com poucos respiros nessa fase derradeira, tornando-se maçantes.

Além disso, fica aparente a maior fraqueza da cinebiografia: o desenvolvimento raso das relações entre Erasmo e seus companheiros da Jovem Guarda, Roberto Carlos (Gabriel Leone) e Wanderléa (Malu Rodrigues). O primeiro torna-se seu melhor amigo, mas não sabemos exatamente como o afeto cresceu tanto. A segunda ganha o coração de Erasmo, mas, novamente, não sabemos o porquê – ela, inclusive, ganha pouquíssimos diálogos.

Portanto, quando surgem as desavenças que separam o grupo, sente-se que tudo é um pouco pragmático. Só através de vinhetas estreladas por Paula Toller como uma fofoqueira de plantão na rádio, que visam preencher lacunas dramáticas, é que sabemos dos conflitos mais sérios entre Erasmo, Roberto e Wanderléa. A escolha é coerente com a ideia de telefone sem fio que põe fim a muitas relações profissionais ou pessoais, mas um pouco acomodada enquanto linguagem.

Ainda assim, por mais que falte recheio, os intérpretes defendem tudo muito bem. Suede, que brilhou no recente Rasga Coração, comprova o potencial como protagonista, fazendo boa parte do humor funcionar com seu carisma canastrão. Já Leone surpreende como o jovem Roberto Carlos, inclusive emulando sua voz quase que à perfeição durante as canções. Rodrigues, por sua vez, merecia mais cenas, mas tem entrega sólida especialmente no palco por ser um nome habituado aos musicais.

No fim das contas, Minha Fama de Mau não se trata de uma completa revolução para as cinebiografias nacionais contemporâneas, ainda ficando atrás do ótimo Legalize Já, que adotou a mesma proposta de emular a personalidade dos biografados e um recorte focado em início de carreira. Pode-se dizer, ao menos, que é um passo em uma nova direção, mostrando que há espaço para experimentar mesmo quando se tratam de fatos.

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