Crítica | Querido Menino

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Existe uma categoria bem particular de longas-metragens que visam retratar de variadas formas como é o universo das drogas e seus usuários. Estes podem e são apresentados em diferentes tons, conceitos e percepções. Alguns levam para o lado mais recreativo delas, como O Lobo de Wall Street, Anjos da Lei, Segurando as Pontas; outros preferem mergulhar o espectador no mundo do tráfico, como Scarface, Dia de Treinamento; e também há os que preferem expor o grau destrutivo destas, como Réquiem Para Um Sonho, Aos Treze, Diário de um Adolescente, e agora, Querido Menino estrelando Steve Carell e Timothée Chalamet.

Dirigido pelo belga Felix van Groeningen, o filme conta a história de David Sheff, respeitado jornalista e escritor em seu segundo casamento e pai de três, sendo um destes Nic Sheff, seu primogênito da primeira união. Apesar do garoto ser um jovem muito inteligente, amável e gentil com todos, não conseguiu fugir do vício nas drogas, principalmente após experimentar metanfetaminas. Esta compulsão de Nic abala as estruturas familiares, especialmente seu pai David, que busca a todo custo entender a dependência de seu filho.

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Esta é a primeira grande empreitada de Felix van Groeningen em Hollywood. Antes, apenas havia gravado filmes em seu país de origem. Naturalmente, se continuasse a mostrar bons trabalhos chamaria a atenção de maneira mais abrangente, que foi o caso de Alabama Monroe de 2012, longa representante da Bélgica na cerimônia do Oscar 2014.

Não é possível dizer que seu debute hollywoodiano tem o mesmo impacto emocional que houve quando foi lançado o ótimo Alabama Monroe. Mas, vale denotar que o filme belga de sete anos atrás tinha um ás na manga que lançava a obra até maiores alturas: uma trilha sonora impecável composta por Bjorn Eriksson feita à base de puro bluegrass, uma forma de música de raiz americana que só usa instrumentos de cordas, sem percussão. Este fator musical aumentou de maneira lacerante o material do drama belga.

O que torna mais curioso o resultado de van Groeningen com o drama biográfico Querido Menino, pois seu mais recente projeto apresenta na narrativa uma maior sobriedade em relação a sua obra de maior sucesso, que casa harmoniosamente com o tipo de material abordado. É fácil notar que este assunto, ou é algo familiar ao cineasta, ou mostra que o mesmo buscou compreender como funcionam os estágios de um uso de drogas mais pesadas como a metanfetamina e outros opioides, que tem devastado várias cidades americanas fazendo a overdose ser a causa de morte número um entre os jovens.

Desta maneira, o cineasta assume uma narrativa um pouco mais didática em Querido Menino, mas, esta maneira mais instrutiva consegue jogar a favor, neste caso. Já que, ainda mais com uma mente e emocional menos calejados como o de Nic, estes estágios entre a consciência e a obsessão parecem mais encurtados, muito pela fragilidade de alguém que ainda está em fases de desenvolvimento e autoconhecimento. Um exemplo disto no filme está no fator deste revelar os dois lados de Nic, nos seus bons e maus momentos, nos breves períodos onde testemunhamos a lucidez retornar para daqui a pouco escorregar de novo para o medo e isolamento.

Também é de muita delicadeza como van Groeningen trata o emocional do jovem que cresceu, e viu de ainda muito pequeno seus pais se separarem. Sem exposições de texto, e apoiado em tocantes performances de seus protagonistas, o diretor belga deixa uma lacuna, inexplicável e incontornável, sobre o porquê do belo garoto ter caído tão fundo em um poço que aparenta não ter salvação. Em uma mera cena no aeroporto, o cineasta resume todas as aflições de Nic que vive indo de ponto A até ponto B, sozinho.

Com uma trilha sonora que algumas vezes força demais a barra na tentativa de estabelecer uma atmosfera mais soturna, ou comover pelo melodrama mesmo sem criar cenas catárticas, Felix van Groeningen sabe o que têm em mãos: dois atores dispostos ao que for, principalmente Chalamet que revela cada vez mais uma maturidade assombrosa em momentos cirúrgicos em seus filmes. Ele consegue ir de 10 a 100 em milésimos de segundo, não apenas com o olhar mas com todo o corpo, fazendo lembrar River Phoenix, outro jovem ator também morto por overdose. Existe um leve traço de selvageria que as vezes se dissemina na atuação de Chalamet que pega o público desprevenido. Já tinha feito antes em Me Chame Pelo Seu Nome, e repete aqui em Querido Menino.

É, neste clima mais comedido que Felix van Groeningen apresenta seu cartão de entrada na grande indústria de cinema, apontando com crueza os males das drogas e, como na cena em que Karen, segunda esposa de David, persegue de carro, Nic e sua namorada demonstra: as vezes é muito complicado alcançar alguém que parece frenético na tentativa de fugir de si mesmo.

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