Crítica | A Rebelião

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Tanto o terror como a ficção científica são gêneros de cinema que cuidam de destrinçar os paradigmas psicológicos e sociais da vida humana. Assim como o melodrama do autor de cinema Douglas Sirk questionava a imagem do ‘american way of life’, no traduzido, jeito americano de vida. Fica a pergunta: o quê o melodrama quase que inteiramente na primeira parte do século passado do alemão Sirk tem a ver com a ficção científica de um filme como A Rebelião de Rupert Wyatt, por exemplo?

Em ambientação? Nada. Porém, no tratamento de caracterização das personagens. Tudo!

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Todavia, enquanto o cinema de Douglas Sirk estimula um desenredar mais rico e profundo emocionalmente, Rupert Wyatt, responsável por Planeta dos Macacos: A Origem, filme mais fraco da trilogia recente, empobrece o material com escolhas que não favorecem, seja pelo entretenimento, ou pinçando nervos de forma superficial, afastando do ideal de incitar maiores questionamentos em um texto que aborda problemas sociopolíticos.

A Rebelião retrata um mundo que foi dominado por seres alienígenas. Em Chicago, quase dez anos depois do início da invasão, acompanhamos a vida dos habitantes da cidade que vivem sob lei marcial, submetidos ao governo autoritário liderado pelos aliens, que são chamados de Legisladores. Mas, uma revolução silenciosa de dissidentes busca recuperar o que lhes pertence: sua liberdade.

É inegável que o texto de Erica Beeney, além do próprio cineasta responsável pela produção A Rebelião merece um dez no quesito arrojamento, contudo falha comumente ao não incandescer a própria trama, e deixar muito afrouxado a transmissão destas ideias na apresentação destas personagens. Ainda mais se colocarmos em consideração que este longa é um thriller, assim, exige-se o mínimo de mistério no envolvimento com o público. Algo que acontece muito raramente na obra dirigida por Wyatt.

A sensação durante é a de um grande desperdício, principalmente de elenco. John Goodman, por exemplo, tenta tirar leite de pedra neste roteiro de relações mornas, e sempre exageradamente expositivas. E, mesmo ele falha em conseguir trazer alguma energia a mais nesta história de tema já muito familiar para o cinema. Vera Farmiga é outra ainda mais deslocada nesta obra, relegada à categoria de participação especial, apenas.

Infelizmente, exposição em um filme que trabalha com suspense é como um vírus impedindo o organismo de trabalhar no melhor do seu funcionamento. E, o roteiro de Beeney/Wyatt dá pistas demais durante a trama, não especificamente com informações sigilosas ou coisas do tipo. Mas, se entrega mais nas relações nada misteriosas destas personagens. Especialmente, entre o comandante de polícia interpretado por John Goodman, com os personagens de Farmiga e Ashton Sanders, conhecido por seu trabalho no filme vencedor do Oscar de 2017, Moonlight: Sob a Luz do Luar.

Outra deficiência em A Rebelião vem pelo fato de este ser um filme que, pelo ritmo ou dinâmica, não empolga, fracassa em pegar no tranco mesmo pela atmosfera hostil do ambiente que se passa a história. Além desta caracterização fraca, atrapalha também uma montagem que mais afasta o espectador da suposta urgência que existe em temática, mas quase nula em prática; e emocionalmente entre os elementos humanos do enredo.

Tudo é tão insosso que mesmo a presença dos aliens em tela, só se mostra algo realmente ameaçador na sua primeira aparição. Daí em diante, suas figuras fisicamente assustadoras não serão capazes de atiçar qualquer sensação naqueles sentados nas poltronas. Algo que deveria ser essencial em uma obra que visa comentar regimes políticos autocratas.

Não é nenhuma novidade vermos obras de cinema, ainda mais em um futuro distópico, que abordam governos absolutistas, tirânicos. Mesmo assim, é sempre prazeroso testemunhar a inquietude humana em abaixar a cabeça quando sente-se oprimida por algo ou alguém. Esta sensação vibrante e enérgica não terá sua vez em A Rebelião. Muito pelo contrário, raramente sentirá empatia por tais personagens e sua luta por liberdade. Mal pode-se dizer que haja qualquer clima de rebelião rondando pela narrativa, ao notar alguns destes personagens da parte dissidente.

A Rebelião de Rupert Wyatt não instiga, não incomoda, não inspira, ou cumpre qualquer outra função necessária para que fique marcado como algo especial, ou até como um mero entretenimento banal. Na realidade, passa longe disso. Tudo o que sobrará é você sentado tentando ligar os pontos desta confusão narrativa para chegar em um lugar onde já esteve, porém, com uma jornada mais memorável que esta.

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