Crítica | Gloria Bell

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A princípio, não damos muita coisa para Gloria Bell (Julianne Moore), uma mulher que passa sua meia-idade dançando em discotecas, que trabalha atrás de uma mesa de escritório, que não ganha mais tanta atenção dos filhos agora adultos. Ela também não parece se dar muita coisa, mas ainda assim continua serena, cantando junto aos antigos hits que tocam no rádio de seu carro. Mal sabe ela e mal sabemos nós o brilho que testemunharemos emanar dessa mulher – e do filme que carrega seu nome.

Disfarçando-se como um filme sobre a procura do amor romântico na meia idade, Gloria Bell coloca ênfase na auto-suficiência de sua protagonista. Remake do chileno Gloria – e novamente dirigido por Sebastián Lelio -, o longa faz muito mais do que confiar no talento de Julianne Moore para construir seu olhar sobre a vida da personagem. É o tipo de filme de intenções simples, despojadas, mas que se diferencia pelo esmero da execução, que só fortalecem e dão mais organicidade à história sendo contada em seu centro.

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Adaptando o roteiro seu e de Gonzalo Maza ao lado de Alice Johnson Boher – e sem fazer grandes alterações -, Lelio demonstra uma sensibilidade rara para capturar os momentos da vida de Gloria Bell e, com eles, montar um retrato fiel a quem ela é. Fica em relevo sua relação com a idade mais avançada e as pré-concepções de como uma mulher em seu estágio da vida deveria ser. Ela lamenta a chegada da escura noite quando está ainda em seu entardecer – coincidentemente, a fotografia de Natasha Braier valoriza muito a hora mágica.

O roteiro de Lelio quase sempre coloca sua protagonista diante dessa questão, de uma deterioração física inevitável e de um fim iminente, mas não raro com ótimo humor. Um gato sphynx, descrito como “o gato de uma múmia”, invade sua casa diariamente e parece querer uma residência lá. Em outro momento, Gloria, que ama dançar, se enxerga no boneco de um esqueleto dançante na rua, imagem que a leva a tomar uma decisão equivocada para suprimir esse sentimento de expiração. Para ela, ao menos por um tempo, a chave desse problema parece ser o amor.

Sua relação com Arnold (John Turturro), homem que conhece em uma de suas noites de dança, dá a ela a falsa esperança de um novo grande amor e só reforça, por sua vez, uma maior fragilidade masculina para lidar com as mesmas questões de idade e solidão. Mas por mais que Gloria saia de seu caminho algumas vezes para atender seu dependente parceiro, sabemos desde sempre que ela não é boba, por assim dizer: no primeiro sinal de infantilidade do homem, ela não pensa duas vezes e o deixa comendo poeira.

Gloria apenas volta a tentar a relação com o homem porque duvida de si mesma, acreditando ter sido dura demais com o sujeito. Mas se um homem a engana uma vez, a vergonha é dele. Se o homem a engana outra vez, fugindo e deixando-a sozinha durante sua viagem de reconciliação, a vergonha não é dela. “Homem gosta de brincar de guerra”, diz Arnold em certo ponto, e ela certamente parte para essa guerra e a vence, numa catártica cena que coloca Gloria em pleno controle dessa fantasia bélica masculina, ao som de Total Eclipse of the Heart.

Por falar nisso, a música, tanto os hits de época – que incluem Giorgio Moroder e Air Supply – quanto a trilha original de Matthew Herbert, cumprem um papel essencial na consolidação dessa mulher mais velha que se adapta e se aprofunda. Herbert, em especial, cria melodias de sintetizador com um ar retrô forte, mas traz nelas lampejos de sons mais contemporâneos e abstratos, flertando com o chillwave. Sua música é constante e praticamente atravessa as cenas com raccords na excelente montagem de Soledad Salfate, mantendo a sensação de que Gloria Bell, o filme, é também um organismo vivo e, além disso, vivaz.

Vivaz, aliás, não faz jus a Julianne Moore no papel titular. Apesar de ter sido impecavelmente encarnada por Paulina García, outra grande atriz, no original, Gloria é um papel que parece dedicado a um leque muito específico e exclusivo de atrizes, dentro do qual encontra-se Moore – aliás, se um remake francês for cogitado, Isabelle Huppert seria a escolha. Em seus cinquenta e nove anos, Moore se exibe como realmente é, ostentando as marcas da idade como algo a ser respeitado, reconhecido, mas ainda assim dançando de forma jovial, despudorada, sem perder o brilho.

Curioso notar que, pela ocasião da refilmagem, o filme de Lelio agora se encerra com uma voz feminina, e não mais masculina. Antes fechando ao som de Gloria, de Umberto Tozzi, agora fecha com a versão de Laura Brannigan, uma voz bastante icônica da década de 80. Pode ser apenas um detalhe que situe a nova versão nos EUA, já que a canção alcançou seu status por lá. Porém ver Julianne Moore rodopiando, com Brannigan cantando indiretamente sobre ela, tem um impacto especial que, por si só, justificaria a refilmagem. Ainda bem que recebemos muito mais que isso.

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