Estrelado por Octavia Spencer, o thriller Ma parte de preceitos interessantes, levando em consideração os papéis anteriores da atriz e a imagem – ou estereótipo – que lhe passou a ser atribuída em Hollywood: a figura da mulher negra de meia idade que é acolhedora e de espírito nobre. Se o episódio de Community intitulado Horror Fiction in Seven Spooky Steps já havia experimentado ligeiramente com uma inversão deste estereótipo, em um trecho na qual a personagem Shirley confinava seus colegas menos corretos em uma cabana, o filme dirigido por Tate Taylor se arrisca ao explorá-lo em longa metragem e com o selo da Blumhouse.

Ma pode desapontar o espectador que esperar por uma espécie de terror mais direto e repleto de sustos viscerais por investir, ao menos durante seus dois primeiros atos, em um desenvolvimento lento da trama. Para todo o resto, isso pode ser considerado como um dos pontos mais fortes da obra, tornando-a ainda mais misteriosa e fundamentando seu conceito em uma realidade verossímil. Quando somos introduzidos à adolescente Maggie (Diana Silvers) e sua mãe Erica (Juliette Lewis), que se mudam para uma pequena cidade do sul dos EUA, não há pressa em estabelecer o deslocamento das duas no local, inclusive retratando o cotidiano de cada uma na montagem paralela.

A decisão inicial de também acompanhar o ponto de vista da mãe, e não só da adolescente, como é comum nas obras do gênero, expõe o interesse do roteirista Scotty Landes em explorar um elemento de diferença geracional. Assim que Maggie e seus novos amigos se deparam com a gentil Sue Ann (Spencer) e a abordam para conseguir comprar bebidas no mercadinho, a montagem de Lucy Donaldson e Jin Lee não só inclui planos na perspectiva dela, revelando um detalhe importante que notou no furgão dos jovens, como passa a acompanhá-la em paralelo pelo restante da narrativa. Se isto parece ameaçar o fator de suspense do filme por detalhar as ações da provável vilã, na realidade apenas acrescenta a ele.


Através da eventual amizade criada entre os jovens e Sue Ann, que após ceder o porão de sua casa às festas deles passa a se denominar Ma, o filme procura trabalhar seu suspense, ou melhor, um incômodo pela via do constrangimento. Este constrangimento, no caso, diz mais sobre os preconceitos do público – e das personagens adolescentes – do que o próprio longa: ver o estereótipo da mulher de meia-idade festejando como uma jovem e com outros jovens. Isso, por si só, garante a Ma uma acidez e uma ironia capazes de provocar mais reflexão do que o esperado, muito como Corra! explorou um incômodo cotidiano do homem negro para dar abertura ao terror e cutucar o público. Estaríamos errados em estranhar Ma?

No entanto, enquanto o comentário social é pertinente e bem-orquestrado durante os primeiros atos – e o bom desempenho do elenco nos mantém engajados, com destaque para Spencer surtada e McKaley Miller no alívio cômico -, quase tudo vai abaixo quando Ma inevitavelmente assume contornos mais genéricos de thriller de vingança. Ao longo do desenvolvimento, flashbacks pontuais detalham um acontecimento passado na vida de Sue Ann que explicam sua obsessão pelo grupo de jovens estudantes e as festas que sedia a eles. Não só tais flashbacks tornam sua motivação secreta óbvia por não encontrar uma economia de detalhes, como expõem um maniqueísmo que mina toda a ambiguidade sugerida pela primeira hora. Ma torna-se uma típica vilã obsessiva com requintes de crueldade.

Com a curva fechada para um território próximo do slasher, o restante dos aspectos de Ma parecem igualmente desencontrados. A encenação de Taylor passa a perder a coerência quanto ao uso do espaço – algo crucial para qualquer terror -, a montagem não encontra relação de causa e efeito entre uma cena e outra – um atropelamento à luz do dia não gera alarde algum -, a narrativa se afunda em clichês bastante preguiçosos – como o policial que bate à porta do assassino na hora H e é eliminado com facilidade – e até mesmo a música de Gregory Tripi soa cafona ao tentar imitar os sintetizadores de John Carpenter sem imagens que sustentem a aura. A maior decepção, contudo, está no desperdício do potencial provocador.

“Vocês acham que sou a Madea?”, diz Ma em uma cena na qual provoca um dos jovens com um revólver, apenas para caçoá-lo. Embora a personagem de Octavia Spencer não remeta diretamente à senhora louca criada e interpretada por Tyler Perry, o nome de seu realizador vinha à mente durante o desastroso ato final, típico de um thriller produzido por Perry – como, por exemplo, Acrimônia. Seus filmes, no entanto, se assumem desde o primeiro minuto como trash, sem prometer nada a mais do que entregam. Ma, por outro lado, é uma obra que se mostra muito mais promissora – de fato, tão promissora que sua derrocada torna-se constrangedora, e desta vez, não para o bem do filme.