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Crítica | Pets: A Vida Secreta dos Bichos 2

É fácil dizer que Pets: A Vida Secreta dos Bichos 2, assim como seu antecessor, é constituído de tramas bobinhas miradas em um público mirim ainda muito jovem. Porém se a despretensão extrema pode ser vista como uma deficiência em outros projetos de animação recentes, em que o fiapo de trama é indiferente ao caos colorido que se segue, como em alguns exemplares da Illumination Studios, essa atitude é praticamente inerente e bem justificada na premissa dos dois filmes dirigidos por Chris Renaud: manter-se fiel à perspectiva dos bichos e transformar seu dia a dia em tramas de longa-metragem.

Se o primeiro filme preocupava-se em apresentar o cachorrinho Max (Danton Mello) e sua experiência ao lidar com a chegada de um novo canino, Duke (Tiago Abravanel), na casa de sua dona Katie, agora na sequência o animal, passados alguns anos, vê a garota chegando à vida adulta e conhecendo seu marido, e num piscar de olhos, logo tornando-se mãe de um pequeno garoto, Liam. Max sente-se ansioso com a chegada do bebê, e não sabe o porquê. O cão sente em iguais medidas estar ofuscado pela presença do garoto e um instinto protetor por ele, em especial quando a família viaja para uma fazenda.

Esta confusão de Max casa bem com o ritmo frenético proposto por uma animação da Illumination, como se o próprio filme sofresse de um déficit de atenção. A afirmação anterior poderia ser tomada como crítica em qualquer outro projeto que não fosse esse, já que o roteirista Bryan Lynch é capaz de trabalhar com sucesso o humor comportamental em torno dos bichos, que incluem os já apresentados Bola de Neve (Luís Miranda), Gigi e Chloe (Mônica Rossi), além dos “estreantes” Galo e Daisy (Dani Calabresa), que possuem suas próprias tramas paralelas.

Pode-se dizer que Pets 2 – para não ter que repetir o longo título – é uma sequência episódica da melhor espécie, ao menos durante a maior parte do tempo. Aqui, a oferta é a de passar mais tempo casual com as personagens em seu dia-a-dia, sem grandes eventos transformadores – nem mesmo a chegada do menino é tratada com tanto peso – e estruturada como um capítulo de sitcom, colocando seu elenco em situações que podem ser facilmente resumidas: Gigi deve cuidar do brinquedo favorito de Max enquanto viaja, e Bola de Neve tornou-se um vigilante, devendo salvar um tigre raro de um circo itinerante.

Novamente, a graça do longa não está em si no enredo, no que de fato ocorre, mas em como os eventos todos se dão, inclusive encontrando soluções simples e eficazes no momento de cruzar as tramas todas em uma só. Enquanto as linhas não culminam em uma sequência de ação final – uma perseguição a um trem -, tudo transcorre com leveza enquanto Max aprende sobre a vida na fazenda com Galo, Gigi deve invadir um covil de gatos e se aprender a se comportar como um para resgatar o brinquedo que perdeu e Bola de Neve, ao lado de Daisy, deve encontrar um lar para o tigre deslocado na cidade grande.

A leveza no tom é almejada até mesmo quando os bichos correm perigos possivelmente fatais, e isto leva a um dos aspectos mais irregulares, se não problemáticos, de Pets 2. Desde o início, o longa de Renaud compromete-se com a premissa de encontrar humor no cotidiano dos animais, mantendo uma certa verossimilhança dentro do que o conceito propõe. Porém justamente na trama de Bola de Neve, como no longa anterior, sente-se que a abordagem é completamente outra, com ideias exageradas que mais parecem pertencer a um filme da franquia Madagascar, com animais que conduzem carros e que agora são capazes de realizar outras ações humanas ou até super-heróicas.

A trama com o tigre também se mostra pouquíssimo inspirada e até desfalcada para uma animação contemporânea, principalmente na concepção do vilão, um artista circense cigano que se veste como um mago e cujo comparsa é um macaquinho atirador de facas. Apesar da caricatura, é ele quem também introduz elementos perigosos à adequação do filme ao público mais jovem, chegando a ameaçar os animais com armas de fogo, sem mais nem menos. Não digo isso para delimitar o que é aceitável ou não em um longa como esse, mas para apontar o quão inconsistente o projeto se torna com a própria proposta inicial.

No entanto, falhando apenas no pouso, Pets: A Vida Secreta dos Bichos 2 é uma continuação digna, quase tão agradável quanto a estreia da franquia. Não é necessário ter um bicho em casa para entender o porquê dos dois longas ressoarem tanto com o público, já que seu conceito consegue ser abrangente – incluindo um leque variado de animais – e específico – reproduzindo comportamentos característicos de cada um deles – ao mesmo tempo, constantemente fazendo rir e até em algumas ocasiões se encantar. É um filme de conforto que se compromete com esta definição.

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