Divisivo para a crítica e o público, Michael Bay pode deixar a impressão de quem menos entende seu apelo é ele mesmo. Não por acaso seus admiradores, como Edgar Wright e a dupla Phil Lord e Chris Miller, têm sucesso em resgatar os aspectos mais marcantes do cineasta e aplicá-los em roteiros superiores, fazendo-os realmente cantar. O mesmo pode ser dito da dupla de diretores belgas Adil El Arbi e Billal Fallah, que assumem a condução de Bad Boys Para Sempre.

É possível notar e admirar o ressurgimento de um cinema popular bastante sofisticado, comprometido com os gostos do público mas também meticuloso em sua execução. As Golpistas, Entre Facas e Segredos e Ford vs Ferrari são lembrados inclusive nesta temporada de prêmios, e mesmo que Bad Boys Para Sempre nunca atinja o mesmo grau de reconhecimento, é um projeto que acena para esse comprometimento retomado por estúdios e produtores.

Em um tempo no qual o cinema possui uma carga política mais imediata e tornam-se mais inevitáveis as relações feitas entre arte e realidade, o equilíbrio atingido pela nova aventura protagonizada por Mike Lowrey (Will Smith) e Marcus Burnett (Martin Lawrence) impressiona. O humor politicamente incorreto da dupla se mantém intacto e incorrigível, na mesma medida que as duas personagens são aprofundadas de forma que se mostrem muito mais empáticas e reais, com seus próprios panos de fundo e perspectivas.


Pode-se dizer que Bad Boys Para Sempre é, de fato, o filme que se espera da franquia em um cenário pós-Chumbo Grosso e Anjos da Lei, comédias que desconstruíram o gênero ação para um público mais amplo enquanto também reforçavam sua paixão pelos clichês das fitas de John Woo, Simon West e, é claro, Michael Bay. Arbi e Fallah são obviamente fruto da cinefilia de ação da década de 90, e aplicam sua paixão pelo gênero para celebrá-lo e atualizá-lo junto do redondo roteiro assinado por Chris Bremner, Joe Carnahan e Peter Craig.

Assim como Wright e a dupla Lord e Miller, Arbi e Fallah fazem um filme de ação que se reconhece como filme de ação, sem que isso se torne uma muleta para exclusivamente reproduzir clichês preguiçosos. Os diálogos dos parceiros policiais e o uso de recursos como o “foreshadowing”, apresentando pistas para acontecimentos posteriores na trama, remetem ao livro de regras do filme policial americano, mas sempre surgem com uma personalidade embutida. Mesmo o chefe de polícia irritado de Joe Pantoliano – bom vê-lo de volta – faz reflexões surpreendentemente profundas.

É de se impressionar, então, que Bad Boys Para Sempre ainda faça isso durante o calor da ação. Há acontecimentos o bastante para preencher uma telenovela aqui – como o próprio Marcus diz -, e Arbi e Fallah encontram o tempo necessário para amarrar tudo o que querem em apenas duas horas de filme – quase meia-hora a menos que o arrastado Bad Boys II. Além das eficientes lutas, tiroteios e perseguições distribuídas pelo tempo de rodagem, não se pode dizer que o filme para, já que há movimento em todo enquadramento, diálogo e transição.

Existe uma verdadeira fluidez em tudo, mesmo entre diferentes gêneros cinematográficos dentro de uma simples cena. O bombástico clímax em uma mansão em chamas transita da comédia para o drama, do drama para o terror – sim! -, e depois do terror para a novela mexicana, sem sequer perder sua coerência interna. Outros momentos do longa também se beneficiam desta flexibilidade de tons, como a extensa sequência que começa em uma festa e termina em uma ponte em chamas.

Enquanto a maioria das produções de hoje se encontram engessadas em um só gênero ou assumem um tom genérico neutro – o filme “multigênero” da Marvel Studios -, este remete a um tempo em que mesmo um filme do Homem-Aranha era pontuado por um trecho chocante de terror gore ou, me batam, uma montagem cômica com a personagem desfilando logo após um instante sombrio de violência. É possível levar um filme a sério sem que este abra a mão desta liberdade no tom – Parasita e O Farol são exemplos magistrais disso.

Para melhorar, Bad Boys Para Sempre faz tudo isso em cores vivas e saturadas ao máximo, como se os letreiros “Miami, Flórida” não bastassem para que entendêssemos onde estamos. Nem mesmo as estampas de jaquetas e camisetas passam batidas. Como dois cinquentões que surpreendentemente têm sucesso em se misturar com os jovens descolados, Mike Lowrey e Marcus Burnett voltam com um arsenal de elementos atrativos ao fã do cinema de ação, de hoje e de outrora, todos temperados com uma atitude livre e identidade inabalável.