Certas cinebiografias se distanciam da fórmula Wikipédia de sempre ao optarem por um recorte específico da história do biografado. Mas e quando isto não é o bastante? Judy: Muito Além do Arco-Íris retrata os anos finais da vida de Judy Garland, um período certamente específico, no entanto deixa de ser uma grande obra por exatamente outro problema de que tantas biopics sofrem: uma perspectiva indecisa.

Se existe uma unidade temática bem resolvida em Judy, girando em torno de vícios, isolamento e decadência, o diretor Rupert Goold deixa de investir em uma abordagem que evoque o peso de todos estes temas com grande sucesso, sem se decidir como emoldurar o período em que Judy Garland se apresentava no clube de Londres Talk of the Town, em 1968, através de suas escolhas de encenação e ponto de vista – nesse sentido, é um trabalho sem personalidade.

Claramente um produto do teatro adaptado para as telas, o filme de Goold se baseia na peça Fim do Arco-Íris, de Peter Quilter, que deve servir de um melhor meio para passar os sentimentos propostos pelo enredo – isolamento, confinamento, ansiedade – já que resolve todas as ações em um palco único. Aqui, no entanto, sente-se que há uma insistência fútil em preencher toda lacuna com flashbacks didáticos, cortes para outras locações e personagens etc. – irônico, já que Goold fez seu nome justamente nos palcos.


Nesse jogo entre uma narrativa em primeira pessoa e uma convencional, com quebras na perspectiva, Judy acaba ficando como um meio-termo entre a abordagem proposta pelo filme Steve Jobs e outras demais cinebiografias. Embora Judy, como o Jobs de Fassbender, fique em um itinerário limitado entre camarim, palco e bastidores na maior parte do tempo, existem aqui passagens que destoam desse formato e nada acrescentam ao motivo principal da trama, mesmo que executadas de forma apenas correta.

Além do foco dado a Mickey Dean (Finn Wittrock) em curtos trechos que seriam infinitamente mais fascinantes caso vistos do ponto de vista de Judy ou omitidos – a tentativa de fechar acordo com uma produtora -, a decisão de mostrar e não apenas sugerir acaba atenuando o impacto de alguns dos mais dramáticos momentos do longa. Sentiríamos bem mais a solidão de Judy e a angústia em retornar aos filhos durante seu período em Londres caso não os víssemos em tela nas cenas dos telefonemas, por exemplo.

Até mesmo as competentes e bem orquestradas apresentações, que vez ou outra contam com uma dose de melancolia e volatilidade – as brigas com o público, o nervosismo de subir ao palco -, acabam sendo tão espetaculares e glamorosas que entram em uma espécie de conflito com a tônica que o roteiro de Tom Edge procura passar: a de que aquilo é apenas mais uma tentativa de Judy de ganhar seu pão enquanto resolve um conturbado processo de divórcio e é deixada às traças.

No centro disso tudo, no entanto, está Renée Zellweger, e a atriz se prova como a principal parceira dos temas inseridos na trama. Apenas ela nos transmite o cansaço, a instabilidade, a solidão e a ansiedade que Judy carrega consigo, em uma interpretação que sabe se equilibrar entre tintas mais melodramáticas e espalhafatosas, numa composição mais clássica, e instantes de uma sobriedade inesperada, como na última discussão com o ex-marido Sid. Concorde ou discorde de sua vitória em prêmios, Zellweger certamente suou por eles.

Judy: Muito Além do Arco-Íris sabe quais sentimentos quer propor ao público, mas sem Zellweger para carregar o peso de seus objetivos, talvez o longa resultaria em completa apatia, mesmo diante do trágico fim de uma lenda. Do jeito que está, o filme de Goold se perde entre ser a expressão artística desses sentimentos e apenas mais uma biografia à Wikipedia, como se a quantidade de detalhes retratados influenciasse no impacto dramático – novamente, mesmo com o recorte entre 1968 e 1969.

Resta um filme menor que a soma de suas partes, mesmo que existam partes de um grande filme aqui. Assim como gostaríamos de pensar sobre o que seria da própria Judy caso as procedências fossem outras, esta obra conta com a inclinação de seus fãs e o público no geral em lembrar-se de seus lados mais belos sobre outros menos louváveis, como os artificiais flashbacks. O saldo deve depender do quão habituado o espectador está a ver cinebiografias e de sua admiração por Garland, tanto para o sucesso quanto para o fracasso da obra.