Alegações iniciais:

Senhoras e senhores do Observatório do Cinema. Hoje iremos provar, sem a menor margem de dúvidas, que o produtor/diretor/roteirista/ator e comediante Tyler Perry não fez um filme de suspense para a provedora mundial Netflix. Devem estar se perguntando: mas como? Quando colocamos a seta sobre O Limite da Traição que faz parte do catálogo da Netflix, aparecem as palavras ‘suspenses policiais’. Mas nem tudo o que parece é, senhoras e senhores do Observatório do Cinema.

E, como ele não conseguiu fazer de sua obra um ‘thriller’ decente, devem imaginar? Simples. O réu Tyler Perry entregou de mão beijada ao assinante o maior suspeito do caso, logo no começo de sua trama. Ali, claro como a água corrente de um rio. E os métodos que o acusado usou para assassinar esta história? Deliberadamente cruéis, dado que infestou o “mistério” com personagens de intelecto discutível.


Senhoras e senhores, não há espaço para dúvidas aqui, Tyler Perry NÃO fez um longa de suspense para a Netflix.

Agora, vamos iniciar o julgamento.

Todavia, antes devemos dizer que O Limite da Traição trata do caso de Grace Waters (Crystal Fox), mulher bondosa que foi traída por seu ex-marido, e incentivada por sua melhor amiga Sarah (Phylicia Rashad) a recomeçar, e também buscar um novo amor. Ao cruzar caminhos com o jovem e atraente Shannon (Mehcad Brooks), Grace encontra uma segunda chance para si. Contudo, logo após o casamento, Shannon mostra sua verdadeira e aterradora face. Trancada em uma cela, à espera do julgamento pelo assassinato de seu segundo marido, Grace mantém sua esperança atrelada em Jasmine Bryant (Bresha Webb), defensora pública inexperiente designada para o caso.

Se a Netflix quisesse promover uma competição entre a obra mais recente de Tyler Perry e o “suspense psicológico” Obsessão Secreta (2019) de Peter Sullivan para ver quem fica com o título de mistério mais previsível, provavelmente, o longa de Sullivan ganharia já que entrega o vilão da história no prazo de cinco minutos após o início. Porém a produção encabeçada por Perry ficaria com um “honroso” vice-campeonato, chegando atrás por bem pouquinho. Que corrida horrorosa!

Fica difícil se engajar com um enredo que mira a dúvida, mas que não a trabalha nem um pouco. O que sobra disso tudo, então? Nada mais que dramalhões de personagens insípidos que só conseguem lacrimejar por quase toda a duração da história, recriando o pior das telenovelas latino-americanas.

Se o roteiro escrito por Perry soubesse como distribuir melhor alguns de seus elementos, ao menos teríamos algo que nos manteria entretidos, mesmo sabendo o que se encontraria na última curva. Mas o diretor optou por um enorme flashback para mostrar a elevação e a penúria de Grace, explicitando detalhes cotidianos de modo enfadonho. Soma-se a isso uma narração voice-over das memórias sofridas da personagem tornando o material ainda mais expositivo.

Pior: elaborou personagens que mostram um excesso de ingenuidade que não torna nada difícil classificá-los, apenas como tontos. Seja a mocinha, o policial, ou o vilão da história. Tanto faz.

Com um texto como esse em O Limite da Traição, fica até difícil cobrar demais do elenco – a exceção é Mehcad Brooks, caricato mas indubitavelmente charmoso. Ainda mais se levarmos em consideração que Tyler Perry escalou a titânide Cicely Tyson para esta produção Netflix. A atriz de 95 anos de idade, que é um tesouro hollywoodiano, fica aqui reduzida a uma idosa senil ocupante de uma casa ministrada pela personagem interpretada por Phylicia Rashad – dama da televisão americana.

Convenhamos, Tyler Perry nunca foi das figuras mais veneráveis da indústria do cinema e televisão, sendo inclusive alvo de chacotas e paródias feitas por outros artistas e obras do audiovisual. O que indica um paradoxo, uma vez que Perry é um empresário e produtor muito bem sucedido, a despeito de sua falta de tato artístico.

Tyler Perry construiu um pequeno império dentro da indústria. Os estúdios que levam seu nome – localizados na cidade de Atlanta – foram cenário recente de grandes produções que chegarão aos cinemas neste ano, como: Bad Boys Para Sempre, estrelando Will Smith e Martin Lawrence; e a continuação de Um Príncipe em Nova York, com Eddie Murphy e Wesley Snipes, repetindo a parceria do ótimo Meu Nome é Dolemite.

No final de O Limite da Traição, o personagem interpretado por Tyler Perry fez um joinha para a protagonista da trama. Perry também é merecedor de um joinha … como homem de negócios, exclusivamente.