Em meio a esta febre atual de remakes, reboots e reformulações, é difícil definir se as ideias encaminhadas por Dolittle são apenas genéricas ou, pelo contrário, audaciosas. Dentro do campo das aventuras que bebem do cada vez mais sumido estilo swashbuckling no rastro da franquia Piratas do Caribe, talvez este filme se encaixe no primeiro caso, porém frente ao que havia sido apresentado em versões anteriores, a leitura de Stephen Gaghan navega em uma direção muito distinta, quase aleatória.

Ao menos, audacioso é o que se pensa em relação ao ponto de partida da obra, que imagina o dom do doutor Dolittle (Robert Downey Jr.) de falar com animais através de uma ótica mais racionalizada, desenvolvendo aqui uma habilidade incomum do protagonista com linguísticas que o permite comunicar-se com as outras espécies. Além disso, a proposta permite realçar o bizarro da situação: há um extenso trecho no qual ouvimos apenas grunhidos e ruídos do doutor e os animais antes que possamos escutar os diálogos em “humanês”, como define a arara Polly (Emma Thompson), criando um choque inicial interessante.

Mas a partir deste ponto, Gaghan não sabe desenvolver sua versão do personagem para além do genérico neste cenário atual “Disneyficado”. Um plano para salvar a rainha misteriosamente envenenada? Checado. A busca por uma ilha misteriosa que guarda o item que salvará o dia? Idem. Resoluções óbvias para todos estes conflitos acima? É claro. Não fossem as conclusões destes arcos – se é que podemos chamá-los disso – tão previsíveis, talvez a jornada pudesse ser mais proveitosa, porém tudo começa e acaba inerte apesar do deslocamento dos personagens por diferentes terras.


Além da falta de engajamento, alterna-se aparentemente entre tramas e ideias pertencentes a produções diferentes, algo que é sentido na passagem pelo castelo onde vive o antagonista interpretado por Antonio Banderas. Não bastassem os desvios, a condução de Gaghan para as cenas, sempre contendo mais de três animais no mínimo, é inquietante, com uma quantidade desnecessária de planos-detalhe e um curto tempo de quadro na montagem. Cria-se a sensação – involuntária? – de um frenesi cartunesco, algo que funciona mais facilmente em uma animação do Cartoon Network do que um filme live-action. A curta duração então torna-se exaustiva.

Em meio aos esforços infelizes dos quatro roteiristas creditados e de direção, devemos dar crédito extra aos animadores de efeitos visuais, geralmente os bodes expiatórios de produções que já estavam fadadas ao fracasso desde a concepção – Tom Hooper e o elenco de Cats insistem em culpar o CGI. Animar criaturas tão detalhadas e realistas em planos decupados de forma tão frenética e desleixada soa como um pesadelo, e muito provavelmente o é. Portanto, se o último dos problemas percebidos são os animais, é seguro livrá-los de qualquer culpabilidade pela bagunça.

O mesmo vale para o esforçado elenco de voz, ou ao menos ao casting despojado que, subvertendo a escolha de certas vozes – Rami Malek como um gorila com ataques de ansiedade – e apostando nos tipos exatos de outros intérpretes – Kumail Nanjiani, que costuma irritar em papéis do gênero, está bem encaixado no papel da avestruz atrapalhada -, encontra um ensemble coerente com o tom de livro infantil buscado pelas ideias da direção de arte e ainda uma trilha sonora composta pelo hoje pouco ativo Danny Elfman.

Contudo, por outro lado, Downey Jr. está surpreendentemente péssimo em sua composição do protagonista, tentando um sotaque britânico inconsistente e soando como uma caricatura digna de teatro infantil, ou melhor, Dick Van Dyke em Mary Poppins. Já grandes intérpretes como Michael Sheen, Jim Broadbent e a ótima atriz em ascensão Jessie Buckley pouco têm o que fazer com suas personagens de papelão, e a dupla de jovens Harry Collet e Carmen Laniado pouco apresentam química ou desenvolvimento para justificar os acenos a um romance.

Com uma escolha consternadora para o clímax do longa, inusitado por todos os motivos errados, Dolittle poderia muito bem deixar de fazer sua transição ao humanês que ainda deixaria o espectador igualmente perplexo pela completa indecisão de suas ideias, e uma execução obviamente prejudicada por problemas de produção – Gaghan foi demitido do projeto por “conflitos criativos” e substituído por Jonathan Liebesman. É uma pena, já que há ideias audaciosas que poderiam ter elevado este reboot acima de outras tentativas muito mais seguras.