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Segurança em Jogo | Crítica - 1ª Temporada

Mais uma produção da BBC que encontra seu caminho para o resto do mundo através da Netflix, Segurança em Jogo tem romance, ação e intriga de sobra para entreter qualquer espectador casual, e ainda impressionar aqueles acostumados com séries do gênero.

Estrelada por Richard Madden, o Robb Stark de Game of Thrones, Segurança em Jogo traz a história do veterano do exército britânico, David Budd. Atormentado por seu stress pós traumático, que lhe custou parte de sua relação com sua esposa e filhos, o personagem segue sua vida na terra natal como segurança particular de figuras importantes do governo. Tal profissão acaba sendo ainda mais interessante de se acompanhar nos tempos atuais, onde o Reino Unido se encontra em um constante estado de medo e aflição, por conta de súbitos atentados terroristas.

Segurança em Jogo aproveita este contexto contemporâneo de maneira eficiente, ainda que nem sempre tão responsável quanto passamos a esperar de produções que abordam o terrorismo e a xenofobia, atualmente. Por conta da imigração de pessoas do oriente médio, e da participação do exército britânico em conflitos da região, o cenário da série é composto por uma atmosfera de insegurança e paranóia, devido ao extremismo de terroristas que condenam as ações do governo em questão.

Tal atmosfera é muito bem construída, não só pelo roteiro da série (que produz boas contextualizações, sem cair na repetição de elementos americanos), mas também pela montagem cadenciada da série, que preza uma progressão construtiva de diversas cenas mais extensas, geralmente retratando momentos de tensão e suspense com resultados engajantes. Logo no primeiro episódio, temos uma dessas longas sequências em que David precisa evitar que terroristas explodam um trem cheio de passageiros civis. O espaço onde ocorre a ação é bem trabalhado pela edição, exibindo os principais pontos de interesse para o espectador de maneira dinâmica, em um ritmo lento, porém benéfico à atmosfera proposta.

Várias outras cenas (geralmente, uma por episódio) também apresentam este mesmo trabalho eficiente do espaço e da dinâmica entre os personagens envolvidos, todos posicionados de maneira clara, para o espectador se envolver com a situação, sem qualquer desvio de atenção. Essencialmente, quando sequências de mais de vinte minutos, que se passam no mesmo cenário, com os mesmo personagens, não entediam o espectador casual, pode-se dizer que a direção da cena conseguiu atingir seus principais objetivos. É tudo uma questão do quanto as cenas em questão conseguem engajar este espectador, e Segurança em Jogo apresenta ótimos exemplos de como construí-las.

A construção do protagonista também é digna de elogios, inicialmente apresentando sua contradição entre os impulsos de suas convicções, e seu porte impecável como um agente extremamente disciplinado. Com o decorrer da série, os debates internos do personagem vão sendo cada vez mais relevantes para o andar da trama, e chegam a compor uma certa imprevisibilidade que revigora a narrativa, em sua segunda metade. A série também acerta ao escolher esconder algumas perspectivas do espectador, deixando dúvidas sobre o comportamento de David, e aderindo a paranóia dos personagens à sua volta. Outra abordagem interessante, alguns momentos em que David precisa lidar com seu stress pós traumático são retratados visualmente para o público (câmera desfocada e dispersa), tornando a experiência de acompanhá-lo, ainda mais rica.

O título original de Segurança em Jogo é The Bodyguard, o mesmo do aclamado filme estrelado por Kevin Costner, em que um segurança se apaixona pela personagem de Whitney Houston, a qual foi designado para proteger. Embora a série não tenha nenhuma relação com o filme citado, fãs deste clássico relacionamento que toparem com a produção podem ter parte de suas expectativas, recompensadas, encontrando um romance semelhante bem construído, que não soa meramente conveniente ao roteiro, mas sim, essencial para a evolução iminente de David. A trama romântica também ajuda a manter a identificação com o espectador, que pode se pegar entediado em meio aos aspectos políticos que a série precisa contextualizar durante seus primeiros episódios.

O bom equilíbrio entre as convicções, a personalidade, e o apego ao dever do protagonista, é estilhaçado, conforme caminhamos para a conclusão da história, com David agindo cada vez mais impulsivamente, e com mais determinação. Igualmente, os riscos para suas ações também se elevam, e a série vai adotando um ar mais semelhante à produções de ação, que com certeza foi responsável por fazer os produtores da franquia 007 considerarem Madden para, possivelmente, assumir o icônico papel principal. Charme e carisma, o ator já demonstra ter de sobra, mas acaba, também, surpreendendo com sua imposição em tela, e sua aptidão para tais sequências de ação mais elaboradas.

Sendo progressivamente desconstruído, o personagem vai se tornando menos calculista, menos assertivo, e mais sensível, até mesmo emocional, conquistando ainda mais a empatia do espectador conforme a grande conspiração da série vai se revelando. Segurança em Jogo aposta em reviravoltas moderadamente audaciosas, sem medo de acabar alienando o espectador, ou de sacrificar suas propostas iniciais. Muito pelo contrário, a série consegue construir sua narrativa sem deixar que suas tramas secundárias caiam na redundância, e aproveita seus vários personagens com coerência, para criar dinâmicas intrigantes que se sustentam até a conclusão. .

Com apenas seis episódios, Segurança em Jogo consegue produzir um universo consideravelmente denso, com aspectos políticos menos superficiais do que poderia se esperar, ainda que nem sempre mantenha o discurso conscientizante que ocasionalmente se propõe a apresentar. Sua trama principal poderia ser, talvez, melhor aprofundada com mais episódios, e digo isso devido à quantidade de personagens coadjuvantes envolvidos nas dinâmicas de ação dos últimos episódios, que nem sempre possuem funções muito memoráveis ou distintas entre si.

No entanto, Segurança em Jogo é uma série perfeitamente suficiente dentro do que se propõe a ser, e finaliza sua narrativa com espaço para futuros desenvolvimentos, mas sem deixar a desejar em suas conclusões. David é um personagem que com certeza poderia carregar novas histórias, caso estas respeitassem a evolução do personagem neste (possível) primeiro ano. E o aprofundamento dos debates sociais, que assolam o Reino Unido atualmente, poderia ser muito bem vindo à qualquer sequência.

Com Segurança em Jogo sendo tão proveitosa, comprova-se, mais uma vez: Sempre que estiver em dúvida sobre o que assistir na televisão, aposte nos britânicos, e dificilmente se arrependerá.

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