Desde que a Disney comprou a LucasFilm no final de 2012, a empresa de Mickey Mouse vem apostando em diferentes mídias e abordagens para lidar com a galinha dos ovos de ouro de George Lucas: Star Wars. Antes que o público pudesse descobrir novas aventuras da família Skywalker com Star Wars: O Despertar da Força, a Disney apostou em livros que preenchem lacunas de história, quadrinhos e, principalmente, a série de animação Star Wars Rebels, ambientada no período que antecede Uma Nova Esperança.

Quando J.J. Abrams enfim lançou o aguardado Episódio VII em 2015, uma grande porção de tempo havia se passado. Com 30 anos separando O Despertar da Força de O Retorno de Jedi, uma das falhas do longa-metragem foi justamente a falta de um contexto melhor estabelecido, que falhou ao aprofundar-se na origem do conflito entre a Resistência, derivada da Nova República, e a maléfica Primeira Ordem, organização que se ergueu das cinzas do Império e que traz motivações nebulosas.

Essa longa lacuna entre a trilogia clássica e as sequências começa a ganha mais camadas agora, com Star Wars: Resistance sendo a segunda série de animação produzida pelo estúdio para o Disney XD. Ao contrário de Rebels e até mesmo Clone Wars, que durou 4 temporadas e já tem a ordem de um revival para o próximo ano, o novo projeto tocado por Dave Filoni (mesmo criador de Rebels) é uma obra assumidamente infantil, e justamente aí reside sua maior complicação.


Ambientada aproximadamente seis meses antes dos eventos de O Despertar da Força, somos apresentados ao piloto Kazuda Xiono (voz de Christopher Sean), que acaba demonstrando eficiência e agilidade durante uma missão de reconhecimento para a República, e consequentemente fazendo-o chamar a atenção de Poe Dameron (dublado por Oscar Isaac), que acaba recrutando o jovem para fazer parte da Resistência, enviando-o em uma missão de espionagem para descobrir um informante da Primeira Ordem na plataforma espacial de Colossus, que também serve como posto de pilotos e apostadores.

É uma premissa que definitivamente agrada pelo desvio de algo mais profundo ou grandiloquente, trazendo aquela característica forte na escrita de George Lucas sobre enxergar o “submundo” similar ao que encontramos em nosso mundo em versões alienígenas e fantasiosas, quase como se todo o universo de Resistance fosse ambientado dentro da cantina de Mos Esley. Também não é difícil encontrar ecos de A Ameaça Fantasma e suas corridas de pods, visto que Kazuda precisa encarar corridas para construir uma reputação e ganhar a confiança de outros aliados de Poe.

É uma história simples e sem grandes aspirações, o que mostra-se um tanto limitada quando recorre a um senso de humor exageradamente infantil, com pouco a acrescentar a fãs mais maduros se não uma expansão temática da galáxia de Star Wars. Todos os conflitos emergentes ao longo do roteiro de Brandon Auman, como o reparo de uma espaçonave, brigas de bar e outras muletas narrativas, são resolvidos com uma facilidade assombrosa, cuja explicação acaba voltando à mente simplesmente como “é uma animação para crianças˜.

A animação, ainda que empolgante em algumas sequências de corrida, acaba soando inexpressiva, mesmo que a mistura de CGI e o troço levemente puxado para o anime sejam interessantes no papel. Sempre que temos interações fortes ou diálogos mais intimistas, a técnica acaba desapontando. Dito isso, vale apontar a direção em sequências chave, como a corrida climática entre Kazuda e . Por mais que a animação realmente não seja excepcional, a variação de planos que Steward Lee e Saul Ruiz jogam é digna da mise en scene que passamos a conhecer nos novos filmes, especialmente na câmera “acoplada” aos motores das naves.

Quanto aos personagens, Kazuda faz o típico protagonista idealista, mas que acaba sendo atrapalhado demais para gerar uma empatia forte, e mais, falta uma motivação mais inspirada do que ser um mero “f㘠de Dameron e da Resistência como um todo. Quem mais chama a atenção, além de Poe e o sempre carismático BB-8, é o alienígena Neeku Vozo, que rende interações inspiradas graças à sua incapacidade de compreender metáforas e levar frases ao pé da letra (como o Drax de Guardiões da Galáxia), rendendo bons momentos de humor e uma performance vocal notável do comediante Josh Brener.

Por mais que seja um piloto prejudicado por suas limitações técnicas, narrativas e o público-alvo em geral, há um bom potencial em Star Wars Resistance. É possível imaginar a nova criação de Dave Filoni tornando-se algo como um Top Gun – Ases Indomáveis ou Velozes e Furiosos no espaço, com as lacunas entre a nova trilogia ganhando expansões interessantes. A Força não é forte ainda, mas é um projeto cuja carreira possamos acompanhar com interesse.

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