The Walking Dead | 9ª temporada – Primeiras impressões

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The Walking Dead passou por uma séria perda de credibilidade nos últimos anos. Apostando em uma longa guerra entre Rick Grimes (Andrew Lincoln) e Negan (Jeffrey Dean Morgan), o que deveria ser um momento explosivo para a série, se transformou na mais pura enrolação, que durou três temporadas de eterno vai e vem, com o vilão sempre parecendo levar a melhor. Vimos uma extrapolação dos problemas de ritmo existente nas três primeiras temporadas – especialmente a segunda (a infame fazenda do Hershel). Ironicamente, esse passado mais distante da série acaba sendo visto com olhos saudosos agora e, se nos apoiarmos em declarações realizadas pela equipe e elenco em relação a essa nona temporada, é o que podemos esperar do novo ano.

A New Beginning, primeiro episódio dessa 9ª temporada, contudo, não entrega exatamente esse retorno à forma. Aliás, nem seria possível, visto que a nova showrunner, Angela Kang, precisa ainda lidar com as consequências da guerra – finalizada ao término do ano anterior. A intenção de se distanciar do que vimos nas três temporadas anteriores, felizmente, já se apresenta logo nos minutos iniciais. Dezoito meses se passaram desde o finale da anterior e o que vemos nessa première é um cenário completamente diferente, uma aparente utopia distópica, que mostra Rick, Michonne e Judith felizes logo na primeira sequência, enquanto curtos planos nos levam a outros sobreviventes, nos lembrando quais são as peças no tabuleiro deste ano.

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Essa até ingênua felicidade, no entanto, dura pouco e os problemas que tais sobreviventes costumam enfrentar retornam. Somos levados para uma missão em Washington, para adquirir ferramentas que irão ajudar na agricultura dos quatro centros de sobrevives, que fazem parte dessa rede: Alexandria, Hilltop, o Reino e, claro, o Santuário (agora fora do controle de Negan). Logo podemos notar que a ênfase está na relação entre os personagens. O foco se divide, mostrando diálogos entre cada um deles naquele museu da antiga capital americana, preparando para o que virá a seguir. Há uma linearidade muito bem-vinda , que não nos tira desse local, transmitindo uma fluidez maior – ao menos nesse trecho.

O perigo, no entanto, sempre está à espreita e Greg Nicotero, grande veterano da série, nos entrega uma ótima sequência repleta de tensão. Aliado da montagem, jamais temos uma visão completa do ambiente, o que faz com que nos perguntemos o tempo todo: quando tudo vai dar errado? A sequência, sim, se estende por mais tempo que deveria, mas não o suficiente para anular o suspense e a tensão. Acima de tudo, a cena deixa bem claro: os zumbis são um grande risco novamente – o que pode ser um tiro no pé se não conduzido com cuidado no futuro. Essa sensação de risco permanece e alcança sua plenitude no caminho de volta. Vemos primeira perda da temporada, mas nada grandioso. A perda considerável fica para o fim do capítulo.

Mais importante é que o roteiro de Angela Kang utiliza esse ponto para desenvolver o restante do episódio, que notadamente traz atos explicitamente divididos. Isso acaba gerando um problema de ritmo mais amplo no episódio como um todo, que parece mais longo do que efetivamente é. A montagem paralela é quase inexistente nessa première, mas pela estrutura do texto de Kang, isso é inevitável, tendo em vista os personagens que ocupam o palco central em cada um dos atos. Rick, por exemplo, é central em praticamente todos eles, o que impede uma agilidade narrativa maior.

Por outro lado, isso funciona muito bem para exemplificar o papel que Rick desempenha em cada uma das comunidades. Considerando que em alguns episódios veremos sua despedida da série, é de se esperar que sua importância para os sobreviventes seja trabalhada ao longo dessa primeira metade da temporada. Aliás, é preciso notar como uma espécie de cerco parece se formar à sua volta, com indícios de que veremos uma guerra civil em breve – especialmente após um quadro da Guerra Civil americana ter ganhado foco nos trechos do museus – com Michonne olhando bem atentamente para ele. Um foreshadowing bastante óbvio e que cumpre sua função no episódio.

As próprias palavras que vemos escritas na parede do Santuário dão indício de uma rebelião, mas através de outra fonte, os Salvadores que ainda defendem Negan – atualmente preso em Alexandria. Assim sendo, toda aquela utopia que vemos nos minutos iniciais parece estar prestes a desmoronar, como um novo apocalipse (ainda que em menor escala) dentro da série.

Mas nem tudo são trevas. Como já disse antes, Kang demonstra uma nítida preocupação com o desenvolvimento pessoal de cada personagem. Bons exemplos disso são as conversas entre Carol e Ezekiel, Carol e Daryl, além de Rick e Michone – sem esquecer, é claro, do dilema em que se encontra Maggie. Tudo isso nos permite nos aproximar mais desses personagens, tirando o escopo mais épico intencionado nos anos anteriores, voltando para histórias mais intimistas.

Intimismo esse que se nota no final de A New Beginning, que traz uma reviravolta impressionante, que mostra que a nova showrunner realmente não pretende enrolar. A democracia de Hilltop foi abalada, no que parece ser um flerte com a tirania, que deixa bem clara a diferença ideológica de Rick e Maggie. Nicotero não poupa em sua direção, estabelecendo um mórbido pêndulo, que acompanha os cortes para cada um dos personagens presentes na cena. É algo visceral e assustador, que deixa uma ótima ponta para a semana que vem, sem precisar de truques baratos para estabelecer o suspense, o cliffhanger.

Com isso, The Walking Dead não retorna espetacular – longe disso – mas exibe uma première promissora, que indica que os ares da mudança, de fato, chegaram à série da AMC. Angela Kang ainda precisa lidar com o que foi feito nas temporadas anteriores, mas ela parece não querer perder tempo em mudar a direção do seriado. Um adeus ao épico e um reencontro com o intimismo, que marcava as temporadas iniciais. Quem sabe agora, The Walking Dead recupera sua credibilidade. Resta aguardar.

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