Baby | Crítica – 1ª Temporada

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A nova produção italiana da Netflix, Baby, busca explorar o meio termo entre a relevância dramática de Skins e o apelo de séries como Elite e Gossip Girl, mas acaba produzindo resultados bem abaixo das expectativas em ambos os lados desta empreitada.

Baby procura abordar os dilemas da adolescência no mundo atual, focando em um grupo de jovens que moram em um bairro de classe média alta, na itália. Chiara (Benedetta Porcaroli) e Ludo (Alice Pagani) são duas garotas que estudam na mesma escola, mas possuem experiências contrastantes no que diz respeito à maneira como seus colegas as enxergam, e como ambas se adequam à rotina imposta por esta comunidade.

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A trama da série contempla um problema cada vez mais ressaltado em discussões sobre a juventude das novas gerações. Em meio ao imediatismo e a reformulação social em que estes adolescentes se encontram, muitos começam a questionar o sentido de suas vidas, não enxergando propósito em suas existências perante esta imensa perspectiva global que parece pressioná-los a serem sempre mais do que são, ou estarão fadados à irrelevância. Sendo assim, as protagonistas procuram uma maneira de “escapar” de suas realidades frustrantes, e se sentem realizadas com a sensação de controle e empoderamento que encontram na “polêmica” vida noturna de Ludo.

Tal trama parece ter gerado um certo desconforto em grupos mais conservadores, que já pedem o boicote da série, alegando que a trama incentiva o tráfico sexual e “glamouriza” a prostituição de menores. No entanto, embora as personagens possam consideram a prostituição menos condenável do que estes grupos poderiam preferir, a série também deixa bem claro os perigos e inseguranças deste estilo de vida, e do cenário que Ludo e Chiara acabam adentrando. Tal qual já aconteceu com outras séries “polêmicas” da Netflix, o motivo da polêmica em si não é, nem de longe, o pior defeito desta produção, que não parece disposta a produzir nada além de uma familiaridade banal com seu público-alvo.

Se você já assistiu qualquer série adolescente das últimas décadas, muito provavelmente já se deparou com boa parte das abordagens e construções narrativas que Baby utiliza para compor seu universo adolescente. Os romances paralelos à trama principal são rasos e, muitas vezes, completamente descartáveis, adicionando muito pouco, ou quase nada, aos discursos centrais da série, sempre de maneira genérica e pouco engajante. O mesmo pode ser dito dos dramas pessoais de coadjuvantes, tratados com tamanha leviandade que fica difícil para o espectador se importar com qualquer coisa além da trama principal.

De início, é válido ressaltar o quanto a sociedade italiana retratada por aqui ainda parece perpetuar valores e costumes já questionados incessantemente pela mídia ocidental, com os adolescentes ainda mantendo a mesma mentalidade hipócrita que vem sendo desconstruída gradualmente pelas gerações mais recentes. A maneira como várias estudantes não hesitam em classificar algumas ações das protagonistas como sendo atitudes de “vadia” é algo que chega a parecer estranho de se ver na televisão atual, sem que a situação acabe sendo lidada com inquestionável determinação pela narrativa. Por aqui, é evidente que a série procura criticar este tipo de comportamento, mas não o faz com o já costumeiro afinco.

E se a série não retrata a sociedade em questão com o melhor dos olhares, o que dizer da irritante superficialidade apresentada pelos adolescentes desta trama. A mesma falta de distinção e inventividade que apontei alguns parágrafos acima, também se aplica (talvez com ainda mais peso) à construção destes personagens, que mais parecem recortes dos estereótipos comuns à tantas outras séries e filmes que abordam a adolescência. Essencialmente, são personagens medíocres e desinteressantes, cuja futilidade nunca consegue ser devidamente reinterpretada por um roteiro equivocado em suas visões dos dilemas da juventude.

É claro que personagens adolescentes de classe média alta, em um país de primeiro mundo, não apresentariam reflexões profundas sobre a própria existência, mas não é por que são jovens, que precisam ser retratados de maneira tão trivial. Boa parte da temporada acompanha a “complicada” atração de Chiara por Damiano, apresentando um romance entre os personagens que é construído de maneira pobre, onde as personalidades não parecem importar tanto quanto os vários momentos alongados em que ambos encaram um ou outro com olhar de paixão.

Poderia se argumentar que a construção das protagonistas adota uma perspectiva feminista, condizente com o empoderamento que estas almejam. No entanto, a sensação que fica após estes seis episódios não é de que estas personagens conquistaram algum tipo de resolução pessoal ou gratificação. Mais do que qualquer controle ou determinação, o que estas personagem mais demonstram ter, é frustração.

Skins conquistou seu público por conta da maneira como seus personagens ressoavam com o espectador, produzindo diversos momentos que o público era perfeitamente capaz de se relacionar com os pensamentos e obstáculos apresentados pela série. Elite, por outro lado, busca retratar um ambiente admirável por seu público-alvo, repleto de luxúria e emoção, com personagens carismáticos e reconhecíveis. Baby, por sua vez, não consegue (nem de longe) trazer o mesmo apego emocional da primeira comparação, enquanto evita abraçar a descontração e a espontaneidade da segunda. Sendo assim, acaba ficando em um meio do caminho enfadonho, incapaz de agradar o espectador já acostumado com o gênero.

E se, até agora, tentei ilustrar os entediantes motivos pelos quais considero Baby uma série indistinta, acabo considerando-a ainda menos relevante para qualquer espectador, por conta das interpretações sofríveis que boa parte do elenco acaba produzindo em momentos que chegam a ser incômodos de assistir. Os vários diálogos plásticos, que buscam emular características como o desconforto ou a naturalidade dos adolescentes, acabam tornando cenas ainda menos envolventes, com os atores entregando pequenas ações de maneira maquinal, e frases de efeito com pouca presença.

Se há necessidade de uma segunda temporada para esta trama, vai depender do quanto o espectador considera válido continuar explorando estas rasas visões de um grupo de adolescentes insatisfeito com o seu lugar no mundo, mas sem o discernimento e a resiliência necessários para mudar qualquer coisa. Uma segunda temporada poderia, então, pender para o lado deslumbrante de acompanhar o “sub-mundo” desses adolescentes, e se aproximar mais dos “guilty-pleasures” que vem inundando a televisão atual. De qualquer forma, já existem várias outras opções que devem valer mais o tempo do público.

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