Embora a terceira temporada de Frontier continue apostando na imponência de Jason Momoa como sua arma infalível, os erros e incômodos que permearam as duas temporadas anteriores permanecem intocados.

Frontier já começou sua jornada provocando uma certa frustração nos fãs, divulgando a série como se Jason Momoa fosse o protagonista desta história, quando na verdade a proposta da série é compor um extenso cenário com diferentes personagens e dinâmicas que, ocasionalmente, envolvem Daclan Harp (Momoa). Conforme ambas as temporadas anteriores caminhavam, a narrativa que foca em Harp ia ganhando mais destaque nos últimos episódios, e este ano segue o mesmo caminho.

Boa parte da história de Frontier é composta pelas intrigas políticas que giram em torno do comércio de peles no “Novo Mundo”. Diferentes companhias buscam tomar o controle do mercado, que também engloba a coroa britânica e povos indígenas em meio à estas negociações. Harp, por sua vez, deixa de lado sua profissão mercante nesta terceira temporada para sair em busca de vingança contra o maléfico lorde Benton (Alun Armstrong). Aqueles que acompanham a série pela moderada dose de ação que ela costuma apresentar, devem ficar mais do que satisfeitos com diversas sequências em que o personagem finalmente expõe todo o seu empolgante potencial destrutivo (muitas delas, memoravelmente produzidas).


Aspectos visuais e produção técnica são, com certeza, as maiores conquistas de Frontier, que embora se esqueça de construir tramas genuinamente envolventes, sempre as ilustra com composições de quadros ricos e planos gerais estonteantes, que aproveitam bem o orçamento da série para procurar estabelecer a época em questão com fidelidade e esplendor. Os figurinos usados na série também são dignos de nota, gerando caracterizações eficientes para cada personagem e suas devida circunstâncias, e a quantidade de detalhes em cada cenário é muito bem retratada pela fotografia da série, que está acima do padrão televisivo. Meu único incômodo nesta terceira temporada, talvez, tenha sido o excesso de cenas demasiadamente escuras que impediam muitas destas distinções que a série é capaz de gerar.

No que diz respeito à narrativa, no entanto, Frontier permanece sendo uma série arrastada, que mesmo com apenas seis episódios por temporada, raramente produz o engajamento necessário para que possa ser consumida com o entusiasmo que a Netflix costuma gerar no público. Um argumento poderia ser feito dizendo que o real protagonista desta história era MIchael Smyth (Landon Liboiron), mas o personagem foi claramente rebaixado a coadjuvante nesta nova temporada, enquanto toda a “dança” entre os personagens donos de comércios continua a todo o vapor, e igualmente entediante de acompanhar.

Antes, era difícil estabelecer uma linha narrativa com objetivos claros e desenvolvimentos relevantes o suficiente para que o espectador pudesse ser envolvido pelas diferentes tramas que cercariam esta suposta trama central. Com a mudança de foco de Harp nesta terceira temporada, o ânimo do espectador pode até ser melhor atiçado com esta nova leva de episódios, sendo muito mais empolgante acompanhar Momoa em suas demonstrações de força bruta e intimidação pela Escócia, do que qualquer disputa luxuriosa entre os personagens que permaneceram na América.

De início, a temporada parecia ter estabelecido novas dinâmicas interessantes entre seus personagens, com Harp acompanhado por um grupo distinto de personalidades, e a disputa pelo mercado de peles sendo melhor demarcada entre seus participantes. No entanto, não demora muito para que a história sofra reviravoltas relativamente previsíveis, além executadas de maneira apressada, que impedem o espectador de se identificar adequadamente com estes personagens.

São poucos, os personagens que realmente apresentam evoluções significativas e coerentes em sua trajetória até aqui. Michael Smyth continua trilhando o mesmo caminho, no mesmo ritmo, desde que conhecemos o personagem. Harp serve como uma força imparável, sempre divertido de se acompanhar, mas cuja função raramente vai além de fazer a arrastada trama se movimentar alguns passos para frente. E Grace Emberly (Zoe Boyle), em toda a sua assertividade e determinação, fez pouco além de reafirmar estes traços com as situações desta temporada.

A sensação é de que estamos vendo uma história relativamente curta sendo estendida demais. Mesmo com poucos episódios, Frontier não parece ter ideias o suficiente para preencher todo o seu tempo de tela, ou a capacidade de estabelecer as construções de seus vários personagens de maneira inventiva, ou sequer suficientemente diligente. Há pouca complexidade nas atitudes destes personagens, que (em sua maioria) não apresentam reações intrigantes às situações que enfrentam, ou reflexões que pudessem torná-los mais interessantes de se observar reagindo. Todos apenas seguem seus papéis dentro um grande “jogo” que parece pouco orgânico em sua progressão. Vilões são meramente vilões inescrupulosos, e heróis se vêem livres de qualquer questionamento.

(Tal qual Clone Wars) Frontier inicia seus episódios com frases atribuídas à grandes personalidades do mundo atual, e se esforça para representá-las em suas tramas, mas raramente é capaz de estabelecer paralelos claros e orgânicos o suficiente para tornar esta, uma abordagem válida, e não apenas gratuita. Se a terceira temporada buscava algum tipo de contemplação sobre a vingança de Harp ou a movimentação gananciosa deste mundo colonial, estas ficaram perdidas em meio às lutas e batalhas que chamam muito mais a atenção de qualquer espectador.

Nos episódios finais, Jason Momoa volta a ter seus momentos de brilho, com boa parte de sua trama atual sendo encerrada, e novos ganchos sendo deixados para se explorar em uma temporada futura. O personagem possui espaço para um crescimento mais expressivo após esta conclusão, e com Michael assumindo a recorrente taverna que antes era de Grace, pode ser que as tramas da próxima temporada consigam ter oportunidades de serem melhor integradas. Grace por sua vez, também pode tornar-se uma personagem mais interessante agora que está mais próxima da temida Companhia Hudson Bay, com um possível dilema sendo criado entre sua ambição e sua afeição por Harp.

Frontier permanece se renovando com pouca eficiência, e embora seu trabalho visual tenha muito que possa ser aproveitado pelo espectador, a maneira como a série trata sua narrativa ainda é muito superficial para poder conquistar novos públicos que procuram séries de época. Em cada temporada, há um ótimo filme que poderia ser editado em pouco mais de duas horas, redirecionando a atenção do espectador e aproveitando estes valores de produção que a série constantemente apresenta. Mas, como este não é o caso, nos resta esperar que a quarta temporada saiba aproveitar melhor os ganchos que foram estabelecidos por aqui, e consiga tornar-se mais atraente dentro do vasto acervo da Netflix.