Doctor Who | Crítica – 11ª Temporada

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Doctor Who retornou com novos ares para sua décima primeira temporada, mantendo o espírito e os valores intrínsecos da série, mas esquecendo-se de muitas das características que mantiveram sua proposta relevante nesta última década de televisão.

Jodie Whittaker assumiu o icônico papel principal, gerando polêmicas desde seu anúncio como a nova “Doctor”, uma vez que muitos fãs da série não estavam confortáveis com a ideia do personagem mudar de sexo nesta regeneração. Já adianto que personalidade que Whittaker traz ao papel não é, nem de longe, um dos empecilhos desta temporada. Na verdade, sua interpretação acaba sendo consideravelmente minada pelo texto superficial e a abordagem equivocada que Chris Chibnall trouxe à esta nova fase de Doctor Who.

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Chibnall assumiu a série após a saída de Steven Moffat, um showrunner que foi (talvez, igualmente) amado e odiado pela base de fãs da série, por conta de suas tramas mirabolantes, reviravoltas extravagantes e um entusiasmo desmedido com a liberdade que Doctor Who proporciona à qualquer roteirista. Mas se as últimas temporadas acabavam confundindo ou frustrando o espectador mais casuai, menos interessado em longos e complexos arcos narrativos, este novo ano seguiu com força total pelo caminho contrário, alterando a dinâmica da série de maneira brusca demais para o seu próprio bem.

Onde antes, Moffat encarava Doctor Who como um enorme “playground” onde poderia se testar diversos temas e propostas de ficção científica, Chibnall parece mais interessado no aspecto “juvenil” da série, buscando agradar os espectadores mais jovens, prezando a acessibilidade de suas tramas para um ambiente familiar. Acaba sacrificando, no entanto, boa parte da peculiaridade que as temporadas de Russell T Davies traziam, ou da inventividade característica de Moffat.

A Doctor de Whittaker inicia esta temporada com o mesmo ar de deslumbre que várias outras encarnações apresentavam em seus primeiros episódios. Embora demonstre ser o mesmo personagem de sempre, tudo parece muito novo, sob uma nova perspectiva que incita a exploração e o espírito aventureiro que mantém a série funcionando. Enxergo o equívoco, no entanto, na maneira como Chibnall coloca a personagem em posição de identificação, propondo que o espectador se relacione com a Doctor em primeiro lugar, ao invés de apostar na simples e eficiente tática que fez a série se reinventar, com sucesso, ao longo das décadas: Focar nos “companions”.

Os “companions” (como são chamados os assistentes/amigos/parceiros de viagem que o Doctor sempre leva em sua Tardis) sempre foram a melhor maneira de garantir que este personagem nunca estaria distante demais do espectador. Os “companions” são humanos, com problemas e atributos humanos, e é através deles que nós, meros espectadores, conseguimos adentrar toda a anormalidade de Doctor Who sem nos sentirmos (com o perdão da piada) alienados.

“Companions” fazem perguntas que nós, o público, gostaríamos de fazer em determinadas situações. Já tornou-se um costume ter estes coadjuvantes se impressionando com o tamanho da TARDIS, uma vez que percebem o quanto ela é “maior pelo lado de dentro”. É o deslumbre destes companheiros de viagem que nos traz os melhores momentos de Doctor Who, colocando o protagonista em uma posição de admiração, ao invés de tentar apresentá-lo como familiar demais, e arriscando torná-lo, por consequência, mundano demais.

Esta temporada buscou revitalizar a série para um público moderno, que se importa com a representatividade e os aspectos sociais que uma ficção científica é capaz de abordar. Apesar das boas intenções, porém, Chibnall não percebeu o quão difícil seria esta tarefa sem o apoio de elementos característicos da série, muitos deles estabelecidos nesta última década, com o público que a consome nos tempos atuais. A TARDIS foi deixada de lado, surgindo apenas para levar e trazer os personagens entre os diferentes planetas, sem nunca apresentar os momentos de diálogo que tornam a relação entre o Doctor e seus companheiros tão orgânica e envolvente quanto já foi no passado.

Os valores de produção para esta décima primeira temporada estão visivelmente maiores, com a fotografia da série dispondo de recursos claramente mais abrangentes do que nos anos anteriores, e um uso equilibrado de efeitos práticos com ambientes menos extravagantes, que acabaram compondo atmosferas cujo tom era explícito e eficiente. Mas, procurando se distanciar das referências que vários fãs prezam acima de tudo, esta temporada não trouxe de volta nenhum inimigo clássico do protagonista, e nem todo o orçamento do mundo seria capaz de compensar a falta de criatividade apresentada por alguns dos novos monstros que tentaram estabelecer como grandes ameaças neste novo ano.

Em seus primeiros momentos, as novas encarnações do Doctor sempre parecem um tanto dispersas, confusas sobre suas novas personalidades e nem sempre transparecem (de primeira) a admirável capacidade e resiliência que acaba definindo-as em suas jornadas. Porém, é válido notar como a chegada de inimigos clássicos sempre é capaz de re-situar o personagem como alguém à ser seguido, por conta de sua vasta experiência, para o espectador.

Basta reparar em como Christopher Eccleston interpretava um Doctor relativamente “noviço” na primeira temporada, até que se depara com um Dalek pela primeira vez, e enxergamos o quão complexo e misterioso este personagem pode realmente ser. Whittaker, infelizmente, ainda não pôde aproveitar um momento como este, e encerra esta primeira temporada transpondo a mesma inexperiência com que começou. O Doctor é um personagem para se ver debaixo, para que possamos almejar ter a mesma capacidade empática e a mesma resolução de um ser tão vivido e sábio quanto este querido “Timelord”, e dificilmente a série conseguiria manter o mesmo encanto tentando conter o personagem em moldes reconhecivelmente identificáveis ao público (repito, humano).

Quanto aos atores que interpretam os “companions” da vez, Mandip Gill, Tosin Cole e Bradley Walsh, não há muito do que se reclamar. Todos são carismáticos, possuem personalidades distintas e servem suas funções perfeitamente bem para abranger um público diverso de espectadores. Destaco o personagem de Walsh, Graham, que teve o arco narrativo mais relevante desta temporada (mais, até mesmo, do que a própria protagonista), proporcionando os momentos de maior potencial para o ator.

A décima segunda temporada da série já está confirmada, e só deve chegar à televisão em 2020, com o retorno de Whittaker e Chibnall incertos, além disso. Mas antes, ainda teremos o especial de ano novo que promete trazer de volta os famigerados Daleks e, quem sabe, proporcionar o espaço para a evolução e o estabelecimento desta nova encarnação do Doctor, aproveitando todo o potencial que Whittaker aparenta dispor em sua interpretação.

Depois de mais de cinquenta anos, Doctor Who continua sendo única, e estará sempre em constante mudança, do jeito que deve ser. Esperemos que as próximas temporadas possam, pelo menos, se lembrar do que fez a série se destacar por tantos anos, e retome a atenção de um público moderno pouco aficionado por dramas procedurais, e muito mais interessado na criatividade que a define.

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