F is For Family | Crítica – 3ª Temporada

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Bill Burr e Laura Dern continuam sendo os grandes destaques nesta terceira temporada de F is for Family, que mantém o humor ácido característico da série em novas tramas tão desconfortavelmente cômicas quanto nas temporadas anteriores.

F is for Family se propõe a retratar a década de 70 de maneira familiar para boa parte do público americano atual. Muitos espectadores dos EUA tiveram uma infância similar à de Bill (Haley Reinhart), Kevin (Justin Long) e Maureen (Debi Derryberry), com seus pais sendo fortemente influenciados pela cultura militar da época, e normas sociais que chegam a soar absurdas para muitos jovens de hoje. É nesta mistura de nostalgia e estranhamento que a série encontra seus melhores momentos, enaltecendo a simplicidade desta sociedade, mas sem o menor receio de tirar sarro de uma dinâmica familiar antiquada.

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Esta terceira temporada deu mais espaço às suas tramas mais abrangentes, em uma abordagem menos episódica (animações dificilmente podem ir por esse lado, mas esta é uma das vantagens de se estar na Netflix). Nas temporadas anteriores, tínhamos mais situações propriamente familiares, onde os personagens estavam juntos por mais tempo e boa parte das piadas vinha da maneira como esta família dos anos 70 interagia entre si. Desta vez, cada membro da família teve um destaque maior em sua própria narrativa, com Frank (Burr) e Sue (Dern) comandando a maior parte da atração.

Após ter sua invenção roubada, Sue tenta criar um novo produto que tenha tanto apelo ao público quanto o “secador de saladas” da última temporada. A frustração de uma típica dona de casa com seu propósito de vida não é um tema incomum à produções que retratam o século passado, e Sue acaba encapsulando boa parte das características que este estereótipo apresenta, mas com a determinação e convicção que produções atuais buscam integrar. Com a temporada inteira se passando durante a gravidez da personagem, surgem ainda mais momentos para se ter dramas exacerbados, e Laura Dern não perde a chance de interpretar a personagem com expressividade.

Bill Burr, por sua vez, continua dando a Frank Murphy um ar de deboche e cinismo que o ator provavelmente enxergava nos adultos da época, durante sua infância. Quem acompanha os stand-ups de Burr já sabe o quanto o humor do comediante é, como muitos diriam, “cru”, sem restrições temáticas, apoiado na casualidade com que ilustra seus comentários sociais. Em F is for Family, percebe-se o mesmo apelo irônico característico de Burr, com a série tratando diversos costumes dos anos 70 com uma inquietante naturalidade (crianças precisam esperar um segundo antes de pularem na piscina que acaba de ser “limpa” com produtos químicos).

E para dar continuidade à este retrato sem escrúpulos da época, esta terceira temporada introduz um novo vizinho para Frank interagir, Chet (Vince Vaughn, que também assina como produtor executivo da série), o piloto veterano de guerra que é casado com a vietnamita Nguyen-Nguyen (aparentemente, pronuncia-se “win-win”). A difícil reintegração de veteranos na sociedade, e a mentalidade destrutiva com que muitos destes soldados retornam da guerra, são temas comuns às produções americanas, e sempre abordados com seriedade. Chet acaba sendo o antagonista de boa parte da temporada, com Sue se incomodando com o jeito que ele trata sua esposa oriental, mas a série nunca deixa de ressaltar o quão problemático é o psicológico do personagem (sempre muito bem protegida por sua abordagem irônica).

Frank passa vários episódios tentando ganhar o reconhecimento de Chet, e admirando o “status” do vizinho apesar de qualquer traço pessoal desprezível. Embora a temporada não esteja necessariamente tentando dialogar com as polêmicas que assolaram Hollywood no último ano, a trama de Chet mostra o quanto uma boa parte das situações condenáveis que estão sendo abertamente criticadas nos dias de hoje, eram apenas ignoradas pela geração anterior. Qualquer afronta ao “status” seria taxada pela sociedade como um mero descontrole emocional (normalmente atribuído às mulheres), prezando a preservação da “boa vizinhança”.

E enquanto os adultos ficam com essa parte mais representativa dos problemas da época, as crianças seguem trazendo a ingenuidade que muitos dos adultos de hoje em dia adoram relembrar. Pouco supervisionados por seus pais, os filhos acabam entrando em situações comuns antigamente que chocam o espectador atual, como Kevin brincando de colocar objetos na linha do trem, ou as várias experiências traumáticas de Bill que são completamente ignoradas pelos adultos (Considerando que Bill Burr também é escritor por trás de vários episódios, talvez o comediante esteja precisando de um abraço).

O choque e a irreverência continuam sendo os grandes objetivos de F is For Family. Não é difícil imaginar Bill Burr e Vince Vaughn discutindo suas infâncias descontraidamente e imaginando o quão cômico seria exibir suas experiências para o público atual. É o mesmo apelo de quando nossos pais contam rotinas antigas que hoje soam absurdas, e o modelo familiar da série reforça este apelo, abrangendo um público ainda mais amplo. A violência explícita e o descaso constante dos personagens pode soar ofensivo para parte do público, mas convenhamos, este é claramente o objetivo.

Porém, mesmo com a devida expansão dos arcos narrativos de cada membro da família, e a introdução de novos temas à serem explorados pelo retrato cínico da série, é difícil colocar F is For Family acima de tantas outras produções que possuem propostas semelhantes. Simplesmente, não há nada de muito inovador por aqui. Ainda que a escrita continue não deixando a desejar na maioria dos episódios, boa parte do humor continua sendo muito derivativo de referências melhor estabelecidas para o público americano, e a abordagem nunca se distancia muito dos discursos comuns sobre estes temas.

A terceira temporada termina em um gancho explícito, com o pai de Frank (que foi descrito de maneira pouco lisonjeira pelo filho) vindo visitar a família. Sue ainda não deu a luz ao seu quarto filho, o que também promete gerar várias novas situações para o casal em temporadas futuras. Uma quarta temporada é mais do que bem vinda, e possui muito o que explorar, sem precisar fugir da dinâmica familiar que caracteriza a série. Com um elenco competente, e uma visão descompromissada da época em questão, F is For Family ainda consegue entreter sem grandes pretensões.

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