Quem acha que as séries da CW são a definição de “guilty pleasure”, nunca conheceu a Freeform. Shadowhunters inicia sua última leva de episódios, sem demonstrar grandes ambições para a sua conclusão, mas consistente em sua proposta de agradar, com eficiência, seu aficionado público-alvo.

Mesmo com o cancelamento da série já anunciado, a legião de fãs que Shadowhunters conseguiu conquistar ao longo de suas temporadas com certeza deve estar plenamente investida nestes que serão os últimos episódios da série baseada nas criações de Cassandra Clare, e pouco devem se importar com qualquer crítica que ainda possa surgir. A verdade, é que Shadowhunters sempre foi uma produção com um foco muito específico, e nunca escondeu a superficialidade com que trata suas propostas mirabolantes, deixando seus apelos reconhecíveis sempre em evidência.

Shadowhunters é uma série sobre relacionamentos excitantes, cercados por um universo de fantasia notavelmente empolgante, repleto de elementos que compõem aquilo que poderíamos chamar de “fantasia jovem-adulta definitiva”. O quê Cassandra Clare conseguiu construir em seus livros é digno de nota por qualquer entusiasta de universos mágicos, colocando vampiros, lobisomens, feiticeiros e dinâmicas fantasiosas de “céu e inferno” sob um mesmo sistema não apenas funcional, mas instigante (para transparência, aviso que cheguei a ler os dois primeiros volumes, muitos anos atrás).


E claro, os próprios livros já possuíam claras intenções de apelar para um público cujo interesse pode estar em histórias de fantasia, mas onde o engajamento contínuo inevitavelmente viria da maneira como os relacionamentos entre os personagens criam identificação ou admiração com o leitor (agora, espectador). A série intensifica essa execução, e infelizmente produz banalizações de seu universo fantástico em função de desenvolvimentos diversos que sejam suficientes para manter a longa contagem de episódios, relevante.

Este começo da nova leva de episódios traz, novamente, este mesmo problema ignorado pela série como um todo. Mais uma vez, os personagens precisam enfrentar a noção de que seus poderes podem ser fortes demais para o seu próprio bem e, mais uma vez, temos personagens se culpando pela morte de entes queridos. Chega a ser desconcertante ver o quanto esta história não parece se importar com a ideia de colocar seus personagens em pedestais tão grandiosos, dignos da admiração do público, e nunca se dispor a confrontá-los além de uma zona de conforto. Quase como se a série tivesse medo de desconstruir a imagem idolatrada que foi proposta ao espectador.

No entanto, por mais que a estratégia possa servir para manter os fãs apaixonados pelo arquétipo que mais lhe interessa na série (o herói atormentado, o herói rejeitado, a heroína imponente, os vilões charmosos…), esta falta de disposição do roteiro impede que a trama evolua além de seus efeitos mais imediatos. E o resultado é um universo rico em detalhes que servem apenas como um cenário superficial para o melodrama constante de Shadowhunters.

Embora eu pretenda me aprofundar melhor nestes aspectos quando a temporada acabar, é justo notar que a série apresentou uma melhora considerável na maneira como constrói suas cenas dramáticas. Tanto o roteiro, que deixou de procurar produzir impacto apenas com frases de efeito e posturas imponentes, quanto o elenco que, no começo, interpretava estes momentos artificiais de forma exagerada e desconcertante. O equilíbrio entre as intenções grandiosas da série e a escala de sua produção, finalmente parece estar se encontrando em uma prática mais orgânica.

No entanto, a banalidade com que a série trata suas tramas nunca foi tão evidentemente prejudicial quanto nesta reta final. Fica claro que a série não conseguiria se sustentar por mais temporadas, incapaz de continuar reproduzindo a empolgação deste universo sem tirar seus personagens da zona de conforto que os fãs tanto idolatram. Atraente demais para o seu próprio bem, a série também não consegue lidar com o seu poder (a ironia é gritante).

Agora, Clary (Katherine McNamara) precisa retomar o seu protagonismo com mais intensidade do que nunca, e os relacionamentos de Shadowhunters precisam culminar em uma conclusão que demonstre o por quê de merecerem tamanho enaltecimento. Dificilmente, novos espectadores serão intrigados pelo que a série tem para mostrar até aqui, mas aqueles que continuam se empolgando com Shadowhunters também não possuem muito do que reclamar, afinal, o maior mérito da série talvez seja a consistência com que mantém a sua proposta apelativa, atraente para o seu público cativo.