Mais um dia, mais uma série de fantasia jovem-adulta que estreia na Netflix. E embora A Ordem tenha intenções válidas para se encaixar neste saturado acervo, sua execução nunca deixa de ser apenas mediana.

A premissa de A Ordem já não soa tão original. Depois de ganhar uma bolsa de estudos para uma faculdade de prestígio, o jovem Jack Morton (Jake Manley) almeja ser escolhido para participar de uma sociedade secreta. Inicialmente, o misterioso grupo parece não ser muito diferente dos típicos clichês que permeiam o mundo universitário americano, mas logo é revelado que esta sociedade secreta, conhecida como “A Ordem”, trata de assuntos nem um pouco mundanos, e o lado fantasioso da série começa a vir à tona sem contenções.

Jack logo se interessa pelos segredos do grupo (com intenções mais profundas que não demoram a serem melhor exploradas), e começa a se afeiçoar por Alyssa (Sarah Grey), sua eventual tutora dentro da Ordem. Com o espectador já tendo visto várias (e falo sério, várias) outras versões destes mesmos personagens em outras séries, o casal principal ilustra uma boa parte dos defeitos desta nova produção como um todo, seguindo arquétipos já utilizados a esmo pela televisão. Os outros personagens da série, salvos por um ou outro momento, não ficam muito atrás.


A Ordem aproveita um dos melhores recursos de se construir uma história nos formatos facilitados pela Netflix, e divide seus (normalmente, considerados excessivos) dez episódios em cinco arcos bem definidos, nomeados de acordo com períodos comuns da época universitária dos americanos. A proposta é boa, e ajuda a manter um ritmo imprescindível para a série, mas os desenvolvimentos destes arcos apresentam poucos momentos onde os ápices climáticos da narrativa conseguem alcançar todo o seu potencial. Em geral, serve mais como uma maneira de distribuir a roteirização da série de forma menos desgastante, e abre espaço para sub-tramas contidas que, pelo menos, engajam o espectador com mais objetividade.

Logo no primeiro arco, surge a primeira grande reviravolta da série. Não satisfeitos em precisar construir o universo de uma sociedade secreta de feiticeiros, a série ainda se dispõe a contrastar esse grupo com outra “ordem” sobrenatural composta por lobisomens idealistas (galantemente batizada de “Cavaleiros de São Cristóvão”). Como disse, a intenção é válida, e poderia gerar uma mitologia rica para ser explorada por várias temporadas. Este primeiro ano, no entanto, apresenta poucos detalhes realmente inventivos (ou, ao menos, revigorantes) sobre o funcionamento e as peculiaridades de ambos os grupos sobrenaturais.

A série se limita a encaixar ideias funcionais para a construção de sua mitologia, e nunca demonstra ter a inspiração (ou a aptidão) para elevar seu universo além de progressões comuns ao gênero. Com isso, quero dizer que seria muito difícil para um espectador já acostumado com este tipo de produção, não conseguir prever os rumos desta história, ou realmente se deslumbrar com algum detalhe.

Salvo aqui, dois elementos que me chamaram a atenção neste universo: A dinâmica peculiar dos lobisomens que precisam “equipar” as peles de guerreiros consagrados (além de distinguível, também possibilita conflitos mais diversificados). E o companheiro de quarto de Jack, que aparece logo no começo da série, e está sempre atormentado por reflexões existenciais que parecem ser apenas divagações de um típico universitário, até ser revelado que ele é, na verdade, um Golem.

Essa brincadeira com o conceito de um Golem (uma representação da vida artificial), serve como um ótimo exemplo do que A Ordem poderia ser, caso conseguisse retratar melhor o seu humor específico com mais consistência. O Golem é uma ótima mistura entre o ambiente universitário da série e os aspectos sobrenaturais, tirando um efeito cômico dessa junção que, infelizmente, nunca consegue ser reproduzido com a mesma eficiência nos episódios seguintes.

Em parte (uma boa parte, na verdade), essa falta de eficiência no equilíbrio tonal da série é culpa de uma direção equivocada que, em vários momentos, não parece compreender perfeitamente as intenções de um roteiro já mal equilibrado por si só. Várias situações procuram mesclar a tensão da trama com alívios cômicos pouco sutis, no que me soa como uma proposta de tratar este universo macabro com descontração. O resultado, no entanto, está longe de ser a “montanha-russa emocional” que poderia se esperar, contradizendo-se muito mais do que complementando-se.

A direção também não apresenta o compasso necessário em diversas cenas onde o impacto dramático é limitado pela falta de destaque apropriado (certas mortes de personagens poderiam ajudar a ilustrar este ponto), e onde conflitos verbais não trazem uma progressão envolvente (aqui, a montagem de vários diálogos também é a culpada). Novamente, o conteúdo desta cenas soa como boas intenções mal executadas, que não chegam a chamar a atenção por qualquer detalhe inovador, e nem conseguem surtir os efeitos propostos com eficiência. Ao menos, a série consegue trazer um equilíbrio notável em seu orçamento, abraçando visuais mais espalhafatosos com discernimento e aproveitando bem os seus cenários recorrentes.

Também considero que boa parte do que torna A Ordem, uma série incapaz de ir além de sua superficialidade, é aquela velha falha onde a trama apresenta tantas conveniências, que fica difícil assimilar qualquer naturalidade em seu andamento. Ao invés de termos uma sensação onde o roteiro é que está nos guiando por entre os diferentes personagens e relações, é como se estivéssemos assistindo à todos estes elementos sendo jogados de acordo com a função narrativa onde melhor se encaixam, tornando a progressão da trama muito mais artificial do que poderia ser em sua concepção.

E para concluir esta abordagem superficial, eis que A Ordem procura trabalhar suas tramas com constantes reflexões (algumas mais sutis que outras) sobre moralidade e ética, objetivamente introduzidas durante o primeiro arco da série (com o personagem literalmente assistindo aulas sobre o assunto). Tais reflexões nem sempre conseguem ser representadas pelo roteiro da melhor forma possível, e geralmente se limitam à pensamentos simplistas que pouco complementam os conflitos do protagonista. Estão ali para quem se dispor a prestar atenção, mas não sei se chega a ser uma atenção merecida.

A Ordem é uma série com plenos espaços para construir um universo sobrenatural excitante, e suas ideias (por mais simples que possam ser) já demonstram essa vontade de apresentar tramas chamativas que seguem conceitos e dinâmicas interessantes. Para conseguir se tornar relevante, no entanto, a série vai precisar se arriscar muito mais do que foi visto nesta primeira temporada.