Alce e Alice | Crítica – 1ª Temporada

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Alce e Alice é um “produto diferenciado”, ou é uma “tosqueira”? A nova produção nacional que chega ao catálogo da Netflix quer se destacar justamente pela linha tênue que separa as duas classificações, e deve agradar os espectadores menos casuais da plataforma que já estiverem acostumados às convenções e clichês de séries americanas.

Existe um ditado entre escritores e roteiristas: escreva sobre o que você entende, sobre o que você vive. É uma diretriz eficaz para produzir histórias que possuam um maior nível de identificação e autenticidade, mas também pode gerar uma contradição incômoda para qualquer autor. Afinal, roteiristas vivem de escrever roteiros, logo, a tentação de se escrever uma obra sobre o processo de produção em si sempre surgirá, de um jeito ou de outro.

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Alce e Alice não resiste à essa tentação, e parte em direção a este perigoso mundo da metalinguagem sem muitos receios. Metalinguagem é, basicamente, falar sobre uma linguagem dentro da própria linguagem, aproveitando a quebra da quarta parede para brincar com formatos e abordagens comuns a um determinado gênero. Na comédia, a metalinguagem sempre encontrou formas produtivas de engajar o espectador em uma forma de “piada interna”, assumindo esta relação obra/espectador como um aspecto evidente para a trama (O filme “Deadpool” ressaltou essa ideia para o público geral, recentemente).

Os perigos dessa abordagem incluem a possibilidade da obra se perder em meio à isenção, onde a produção buscaria retrucar e questionar os próprios efeitos em um ciclo sem fim. Alce e Alice dança em volta desse perigo sem muito compromisso, e o resultado é, majoritariamente, interessante de se acompanhar, particularmente se o espectador possuir as referências necessárias para saber o quê a série está se propondo a fazer. Essa restrição do público, no entanto, é justamente o motivo pelo qual roteiristas costumam precisar resistir às tentações da metalinguagem, e de se comunicar com membros da própria comunidade, ao invés do espectador comum.

Produções nacionais entusiasmadas costumam trazer dois problemas recorrentes. Primeiro, a enorme influência de obras americanas em uma produção que não poderia soar natural e particular com tais convenções e expressões. O próprio idioma inglês acaba influenciando negativamente diversas falas em produções nacionais, que não condizem com a realidade do espectador brasileiro. O outro problema comum, é a falta de referências próprias do público, que não tem o mesmo contato com formas de ficção nacionais, e portanto, se incomoda com a falta de familiaridade, muitas vezes chamando uma obra de ruim, quando na verdade só está enxergando-a com uma perspectiva equivocada.

Somos condicionados a associar diversos meios de ficção com as convenções e características da cultura americana, e Alce e Alice tira os melhores proveitos de sua proposta quando demonstra estar totalmente consciente deste estado do público. William (Thiago Prade), o personagem autor da websérie em questão, é apresentado com ambições artificiais, sempre em busca de reproduzir aquilo que admira em produções americanas, mas sem uma expressão própria que valha a pena ser trabalhada.

O próprio “Alce” de sua série também evidencia essa ideia de importação cultural, afinal, Alces não são animais típicos do Brasil. Outros elementos como a bandeira americana com cores brasileiras em uma propaganda eleitoral e o constante uso de expressões em inglês também são exemplos de como a série procura discutir este tópico, com a ironia destes apontamentos trazendo pontos altos da comédia.

Quem fica com o papel de questionar estas execuções é Alice (Kaya Rodrigues), a personagem que, ironicamente, é utilizada de forma superficial dentro da websérie, mas é quem mais tem o que dizer fora da ficção. O trio se completa com Stive (Gabriel Faccini), um ator presunçoso que serve para retratar os clichês da profissão e evidenciar o extremo dessa perda de noção entre a realidade e a ficção, que a metalinguagem busca equilibrar. Todos os três personagens são expostos de forma caricata em diversos momentos, mas representam diferentes receios e aspirações comuns à qualquer jovem roteirista ou escritor.

Alce e Alice decide enfrentar os perigos da metalinguagem através do excesso, do absurdo. Se é para borrar as linhas entre a ficção e a realidade, e produzir um diálogo paradoxal, então que seja sem limites. A proposta com certeza gera momentos cômicos divertidos o suficiente para agradar, até mesmo, espectadores casuais que estejam apenas aproveitando a série por conta da disparidade, mas inevitavelmente também acaba gerando uma dispersão menos engajante para suas tramas contínuas.

As várias referências de cultura pop, e as utilizações de clichês comuns ao cinema e a televisão com certeza irão agradar os espectadores já acostumados à este meio. Estudantes de cinema, por exemplo, podem entender a graça por trás dos colegas de quarto de Alice assistindo Tarkovsky, enquanto fãs de House of Cards irão se divertir com as sequências do segundo episódio em que o executivo do canal quebra a quarta parede para falar com o espectador.

No entanto, o que realmente pode tornar Alce e Alice, uma série muito mais abrangente do que esta parece estar disposta a ser, é justamente o questionamento descarado da importação cultural que citei anteriormente. Depois de matarem o personagem Stevie na websérie, os protagonistas procuram uma maneira de revivê-lo, e William naturalmente se volta para o clichê americano do corpo que é levado pela correnteza para o méxico. O problema, claro, é que o Brasil não faz fronteira com o México, exemplificando perfeitamente essa incompatibilidade de uma forma acessível para qualquer espectador.

Ao terminar o episódio com o dublê assassinado surgindo justamente no México, e abraçando o absurdo da trama, Alce e Alice demonstra que embora esteja plenamente disposta a discutir estes empecilhos da criatividade de produções nacionais, a vontade de se brincar com o formato e a linguagem sempre fala mais alto. A maneira como a crítica e o público reagem a web-série, e o final da trama, também evidenciam estas intenções de se trabalhar tudo com exagero e sarcasmo. Perde-se a coerência, mas não perde-se a piada.

Com fala dentro de fala dentro de fala, Alce e Alice com certeza vale a pena ser assistida por qualquer um que encontrá-la no acervo da Netflix, e sua curta duração deve torná-la ainda mais atraente para um público amplo, ainda que suas piadas e abordagens nem sempre soem tão bem refinadas ou propriamente direcionadas. Há um entusiasmo revigorante, com certeza, e a ambição dos roteiristas pode gerar caminhos interessantes em uma segunda temporada, caso estes consigam conter os próprios impulsos de colocar em tela, tudo que naturalmente lhes convém.

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