Vampiros turcos esbanjam estilo na nova série da Netflix, Immortals, que traz personagens interessantes o suficiente para manterem o espectador afeiçoado, enquanto constrói um universo digno de maiores explorações.

Observando a enorme quantidade de produções que abordam a mitologia dos vampiros na última década, é possível perceber, acima de tudo, o esforço que é aplicado em tentar retratar estes antigos monstros com estéticas atraentes, personalidades intrigantes e eternos dilemas morais, explorados apenas o suficiente para torná-los mais interessantes e identificáveis para o público. Immortals não busca reinventar ou contestar qualquer parte desta “fórmula”, mas executa suas propostas com apelos bem discernidos, e permite que seu ritmo adquira ares mais contemplativos do que em comparações imediatas.

Se então, a intenção era esta mesma de sempre (tornar os vampiros, sedutores e “legais”), pode-se dizer que a série atinge seus objetivos com sucesso. No entanto, Immortals também serve como um ótimo exemplo de como seria o resultado, caso as críticas sobre as longas contagens de episódios de outras séries sobrenaturais fossem levadas em consideração. A trama segue a vampira Mia (Elçin Sangu), que no melhor estilo “forasteiro misterioso”, chega à cidade de Istambul para executar sua vingança contra o vampiro que a transformou: o imponente Dmitry (Kerem Bürsin). Sem muita originalidade, o submundo de Istambul é comandado por Dmitry, que está cansado de precisar se esconder nas sombras, e almeja poder libertar sua raça da supremacia humana.


Enquanto acompanhamos o desenrolar desta trama de vingança, a série intercala alguns “flashbacks” do século XIX que nos mostram o desenvolvimento da relação entre Mia, e o típico “mocinho recluso”, Numel (Birkan Sokullu), momentos antes de Mia ser transformada contra a sua vontade. Presentes em boa parte dos episódios, os flashbacks ajudam a substanciar os avanços e reviravoltas da trama principal, mas a repetição de cenas e re-contextualizações (pensadas para manter os episódios auto-suficientes), é um recurso equivocado dentro de um serviço como a Netflix.

Produzida pelo mesmo estúdio responsável por “O Último Guardião” (a outra série turca da Netflix), Immortals foi originalmente lançada no youtube, onde com certeza o seu formato episódico tinha um impacto ainda maior. Ainda assim, não é difícil compreender os motivos pelos quais a produção deve ter chamado a atenção do serviço de streaming, uma vez que seu universo sobrenatural é perfeitamente atraente para o público internacional que vem sendo cada vez melhor definido, na televisão.

Os vampiros da série possuem dinâmicas bem estabelecidas e trazem todo o apelo que o público-alvo já esperaria de uma produção com essa. A divisão do tempo de tela com a gangue de humanos que os opõe, no entanto, traz alguns diferenciais importantes, impedindo que o universo da série caia na banalização da sobrenaturalidade que tantas outras séries não conseguem evitar com o seu entusiasmo, e suas execuções chamativas. Coadjuvantes de ambos os lados acabam tendo a relevância necessária para que a abrangência da trama continue engajante, mas sem as gratuidades que o apelo destes temas costuma gerar.

E embora a narrativa desta temporada busque manter sua urgência intacta através de um típico objeto ameaçador que carrega todos os poderes que o antagonista poderia querer, o real foco da trama está na evolução de Mia, conforme a personagem lida com sua sede de vingança, e o ambiente que a cerca, cego pela violência. Estas linhas narrativas nem sempre conseguem se complementar (ou sequer, se equilibrar) durante a temporada, e parte de seus desenvolvimentos soam um tanto mecânicos demais. Ainda assim, o espectador (familiar com o gênero ou não) não deve se pegar entediado durante cada episódio.

Mesmo com um ritmo ponderado, Immortals constrói suas cenas com o devido empenho na relevância de cada situação, e no trabalho de ilustrá-las com uma fotografia envolvente. É bom saber que séries turcas seguem o mesmo padrão das séries europeias em geral, com uma maior atenção à distinção do trabalho fotográfico do que a maioria das séries americanas padronizadas. O uso do velho contraste “azul/laranja” se sobressai negativamente, às vezes, mas considerando que esta era uma produção destinada ao youtube, o trabalho visual e a montagem da série são definitivamente dignos de nota, ainda que fiquem menos admiráveis em uma plataforma mais prestigiosa como a Netflix.

O orçamento de Immortals fica mais evidente no design de produção da série, e permite alguns espaços para cenas de ação que devem agradar ao público sem problemas, variando entre funcionais e boas, e que complementam bem as sequências de imposição dos personagens. Nesta construção visual da série, meu único incômodo talvez seja a presença de algumas inconsistências na maneira como este universo busca um tom mais realista do que excêntrico, onde as armas improvisadas da gangue humana, por exemplo, destoam do resto da atmosfera, assim como a utilização (quase caricata) de sangue em algumas caracterizações momentâneas.

Immortals acelera o ritmo da trama durante a sua segunda metade, construindo as expectativas para um grande embate entre os humanos e vampiros, enquanto os principais personagens ainda contestam suas posições dentro do conflito. A conclusão da série traz dois pontos que chamam mais atenção: Primeiro, uma grande reviravolta que, embora traga o impacto proposto, não soa tão orgânica ou bem sedimentada quanto a série procura evidenciar.

E segundo, um simples adiamento do grande conflito, mantendo seus embates finais contidos e preparando o terreno para uma eventual segunda temporada ainda mais excitante, com escalas e riscos bem maiores. A estratégia com certeza aumenta o entusiasmo para uma continuação, mas também diminui a memorabilidade deste primeiro ano ( convenhamos, no entanto, que o orçamento deve ter sido um ponto bem relevante por aqui).

Immortals pode não ser uma série incrivelmente atraente ou impressionante em suas realizações, mas tem o devido cuidado ao construir e desenvolver seus personagens através de obstáculos válidos e realizações palpáveis, além de introduzir um universo consistente que poderia muito bem ser expandido por outras temporadas. Por enquanto, nos resta esperar o segundo ano que, baseado neste episódio final, precisará corresponder à expectativas bem mais altas. Elevando naturalmente o trabalho visto por aqui, pelo menos, não vejo porque imaginar o contrário.