Santa Clarita Diet | Crítica – 3ª Temporada

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Santa Clarita Diet pode não ser uma série tão engajante à primeira vista, mas esta terceira temporada comprova que, para aqueles que se dispuserem a acompanhar o seu lento desenvolvimento e se identificarem com seu humor peculiar, a experiência é mais do que recompensadora.

Em seu primeiro ano, Santa Clarita Diet acabou dependendo demais de sua premissa chamativa, e de seu elenco atraente. Drew Barrymore e Timothy Olyphant demonstravam estarem confortáveis em suas performances como o casal de corretores Sheila e Joel, mas os espectadores que fossem com muita sede ao pote poderiam se frustrar com a trama relativamente contida da série.

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Os elementos sobrenaturais tinham os seus devidos destaques, mas serviam apenas como um catalisador para histórias relativamente mundanas, expondo as verdadeiras intenções da produção. Santa Clarita Diet sempre se mostrou mais interessada em ilustrar suas metáforas sobre vidas corriqueiras e espontaneidade, apesar das circunstâncias grotescas e de suas brincadeiras com o sub-gênero de “zumbis”.

Com o decorrer da série, no entanto, a estratégia se provou eficiente, construindo seus personagens de forma envolvente, e abrindo espaço para mais desenvolvimentos que trouxessem, cada vez mais, estes aspectos atraentes à tona. Longe de ser uma série propriamente aterrorizante, Santa Clarita Diet acabou se tornando uma obra interessante sobre a evolução de seus personagens em meio à um universo sobrenatural em constante expansão, e seu terceiro ano chega carregado de elementos que devem empolgar os fãs mais pacientes.

Esta terceira temporada revitalizou boa parte de seus núcleos narrativos com novas dinâmicas, incluindo a obsessão de Anne por Sheila (encarando-a como uma “enviada de Deus”), as repercussões do ato “terrorista” de Abby (Liv Hewson) e Eric (Skyler Gisondo) com a chegada do FBI, e até mesmo uma nova versão do simpático Gary (justificando a saída de Nathan Fillion de forma descarada).

O lado cômico da série continua ganhando novas situações onde os personagens se encontram constantemente sobre perigo, e até mesmo a entrada dos sérvios misteriosos, logo no primeiro episódio, ajuda a manter um sentimento de urgência vital para o andamento da temporada.

Em uma visão mais ampla, o universo da série também continua a ser expandido, desta vez com mais entusiasmo do que nos anos anteriores. Em comparação com o primeiro ano, onde a exposição deste universo era feita “de dentro para fora” (onde vamos descobrindo novos elementos com o mesmo ritmo do casal), a série já se dispõe a revelar outros lados de sua mitologia com mais abrangência, mas nunca deixando de prezar a integração de suas excentricidades nas interações mundanas de seus personagens.

Os fãs de “zumbis” que não se empolgaram com o começo de Santa Clarita Diet com certeza deveriam dar uma nova chance à produção, que agora conta com toda uma ordem de cavaleiros/caçadores de “zumbis” em meio ao seu ambiente de subúrbio americano, além de peculiaridades como as intrigantes “bolas com pernas” que surgem durante a transformação dos mortos-vivos.

A série continua mantendo seus desenvolvimentos contidos (apenas um mês se passou desde o começo da trama), mas não há como negar que este universo soa muito mais estabelecido nesta nova temporada, e com potencial de sobra para futuras explorações, o que deve incentivar as especulações dos fãs.

O foco nas relações de seus personagens continua sendo gratificante, tanto por conta da atuação do elenco principal, quanto por suas construções orgânicas. Sheila e Joel protagonizam diversos diálogos interessantes, onde discutem a realidade de suas situações com argumentos atraentes para qualquer aficionado por “zumbis”, enquanto Abby continua sendo uma personagem cativante e divertida de acompanhar, mantendo suas desventuras ao lado de Eric, um ponto alto de vários episódios da série. O carisma dos atores, com certeza, também ajuda a manter este engajamento.

E embora a evolução da trama possa ser lenta, principalmente por conta da maneira como os episódios são estruturados, há momentos de sobra onde a ação cômica e o “gore” mantém o espectador descontraidamente atento. O orçamento da série não parece permitir as grandes demonstrações caóticas que “zumbis” costumam protagonizar, mas o choque de certas cenas mais grotescas é mais do que suficiente para manter a proposta coerente e excitante ao mesmo tempo, em um equilíbrio que vem melhorando a cada temporada de Santa Clarita Diet.

Tal equilíbrio é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o maior perigo da série. Seu lado cômico pode não ser tão impactante, principalmente se o espectador não tiver uma certa disposição para as piadas mórbidas e visuais desconcertantes, mantendo-se apenas como uma fonte de descontração para as tramas. E do outro lado, a série dificilmente prenderia fãs mais ansiosos por grandes embates, mas juntando todos os esforços nesta mistura de gêneros, a série acaba gerando uma experiência, no mínimo, revigorante para um acervo como o da Netflix.

É tudo uma questão do quanto o espectador consegue se identificar com a proposta de Santa Clarita Diet, que continua preferindo focar muito mais em suas reflexões existenciais do que nas brincadeiras e referências com o gênero de terror. Os mortos-vivos estão sempre nos lembrando que não são nada além de uma representação da “quebra” da monotonia, encontrando vigor e disposição em suas “pós-vidas”.

Este terceiro ano apresentou um novo questionamento interessante para tal tópico, evidenciando a seguinte questão para o casal protagonista: O abandono das inibições e o conceito da vida eterna podem torná-los mais “vivos”, mas não seria justamente o fato de sermos finitos que nos traz propósito, e nos faz apreciar cada momento de nossas trajetórias? Em meio à cabeças decepadas e armas improvisadas, a série consegue integrar estas perguntas de forma relevante, mas sem perder a diversão e o tom descontraído de seu universo.

E com a temporada acabando em um gancho, torço para que a audiência da série seja suficiente para que Sheila e Joel possam continuar desbravando este mundo cada vez mais interessante de Santa Clarita Diet. Abby finalmente terá mais liberdade para se tornar a “guerreira badass” que tanto quer ser desde o começo, e sua relação com Eric (que está começando a se tornar um tanto cansativa, com a típica dinâmica de “vão ou não vão”) pode, enfim, evoluir para dramas tão relevantes quanto as questões encaradas por seus pais.

Um típico exemplo de como uma série pode se tornar mais atrativa, tanto para a crítica, quanto para o público, com o decorrer das temporadas, Santa Clarita Diet vai se tornando uma produção que merece cada vez mais atenção.

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