Longa demais para o seu próprio bem e com um ritmo penoso, Chambers chega ao Netflix chamando atenção pela presença de Uma Thurman em seu elenco e uma premissa sobrenatural atrativa, mas acaba soando como um experimento falho, derivado do algoritmo da plataforma.

Chambers acompanha Sasha (Sivan Alyra), uma jovem que é assombrada por visões atormentadoras após receber um transplante de coração. Se envolvendo cada vez mais com a família da doadora, a protagonista começa a desvendar os mistérios por trás da morte que, coincidentemente, lhe salvou a vida. Séries focadas em jovens protagonistas tem apelo comprovado dentro do acervo da Netflix, mas Sasha acaba fugindo de diversos padrões que permeiam outras produções. Não é excêntrica, cínica, ou timidamente charmosa, nem possui respostas rápidas e sarcásticas há todo momento para cativar o espectador.

Essa fuga dos estereótipos que marcam várias séries “jovem-adultas” é digna de se notar, mas estas convenções são justamente o que tornam diversos protagonistas, atraentes para o público-alvo. Ignorá-las, portanto, requer um trabalho notável por parte do roteiro, que precisa construir sua personagem principal de forma engajante o suficiente para que o público possa segui-la e admirá-la sem questionar o seu protagonismo. Chambers acredita estar conquistando a atenção do espectador apenas por suas propostas e temas, mas deixa a desejar nas execuções e no ritmo da trama, tornando a experiência cansativa e esquecível.


Dez episódios estendem a narrativa da série muito além do que a premissa inicial parece ter potencial para preencher, e em meio a personagens que variam entre intrigantes e genéricos, acompanhamos o desenrolar dos mistérios principais com uma lentidão notavelmente desencorajadora. O universo da série possui diversos elementos que poderiam torná-la mais empolgante, mas a proposta de manter esta história sob uma perspectiva mundana, gradualmente revelando os aspectos mais fantásticos ao espectador, é mal executada por uma estrutura narrativa fraca que mantém os episódios enfadonhos durante a maior parte do tempo, apenas para entregar um gancho no final, esperando que isto seja o suficiente para atiçar o público.

Consumir Chambers em uma única maratona é uma tarefa árdua. Assistir a episódios separados, no entanto, dificilmente tornará a experiência marcante para o espectador, devido à falta de evoluções e conclusões realmente relevantes durante a primeira metade da temporada. Pelo menos, se a construção da protagonista realmente não for capaz de manter o espectador engajado, as intrigas que cercam os pais de Becky (Lillya Reid), a doadora, podem ser suficientes para que não se resista a mais um episódio.

Claramente, o maior mérito da série vem por conta da interpretação de Uma Thurman e Tony Goldwyn como estes pais atormentados pela perda da filha, que precisam lidar com o fato de Sasha estar com o coração de Becky batendo em seu peito, buscando alguma espécie de superação. Thurman (como esperado) entrega o trabalho mais consistente e impactante, muitas vezes parecendo que está em uma produção separada, focada nos pesares desta mãe que não consegue superar seu luto. Mas ao seu lado, Goldwyn também merece destaque, mantendo seu personagem intrigante, ao mesmo tempo em que permanece agradável. Em alguns episódios, o bom trabalho do casal pode, até mesmo, ofuscar a protagonista da série, redirecionando o foco da trama de maneira pouco benéfica para a proposta inicial.

Evidentemente, Chambers é uma série construída a partir de fórmulas provenientes do algoritmo da Netflix, pensada para preencher o espaço das recomendações de quem assistir às outras produções que também abordam temas sobrenaturais e possuem protagonistas jovens-adultos. Alguns rumos da direção e certas escolhas narrativas (como a construção de Sasha), no entanto, não condizem com esta abordagem formuláica, e acabam criando uma dispersão incômoda durante os episódios.

A direção e a fotografia, de forma geral, são eficientes ao comporem uma atmosfera consistente e permitirem momentos com o devido impacto visual para o espectador. Alguns destes momentos, inclusive, são realmente marcantes, e seriam muito mais elogiados em qualquer outra produção semelhante que cativasse o seu público ao ponto de ser amplamente comentada. O problema é que, diferente de “A Maldição da Residência HIll”, a proposta de manter estes choques visuais contidos acaba mais isolando do que enaltecendo o seu impacto. Certos elementos de horror permeiam a temporada, mas a série, como um todo, não se limita a um único gênero, ainda que esta diversidade nunca alcance o equilíbrio necessário para tirar o melhor proveito de sua proposta abrangente.

O roteiro de Chambers é repleto de extremos. Ambiciosa com os tópicos que procura abordar, a série nunca chega a explorá-los de forma memorável, permitindo-se apenas a expor certas ideias e questões conforme lhe é mais conveniente, e sem nunca aprofundar seus debates além da superficialidade. São vários temas que parecem interessar aos roteiristas, desde mentalidades religiosas até questões de identidade. Além, é claro, do drama do luto. No entanto, a série que parece querer falar sobre tanta coisa, acaba dizendo muito pouco em sua longa duração. Por sua vez, o mistério da série, com seu lento desenvolvimento, tem poucas reviravoltas realmente cativantes, e a expansão deste universo é tão desprovida de excitação que chega a ser frustrante teorizar seus caminhos.

Porém, eis que, no último episódio, a série encerra sua primeira temporada com grandes aspirações para continuar sua história, apresentando novos elementos de seu universo com todo o entusiasmo que faltava nos episódios anteriores. Novamente, frustração é a palavra certa para esta análise, já que percebe-se a empolgação dos roteiristas em levar esta história para novos contextos, com escalas ainda maiores e personagens mais interessantes. Quem dera tivessem trabalhado estas ideias durante temporada, ao invés de tentarem construir um mistério tão presunçoso, que acredita estar com o espectador plenamente motivado e disposto ao seu ritmo.

Chambers não é, nem de longe, uma série tecnicamente “mal-feita”. O contraste entre seus aspectos mais genéricos e suas escolhas mais ambiciosas é desconcertante e, infelizmente, muito do que a série faz de melhor é minado pela estrutura da narrativa e pelos focos equivocados. Talvez seja possível torná-la menos esquecível com uma edição alternativa mais enxuta, e assim, quem sabe, propiciar uma segunda temporada realmente convidativa. Por enquanto, a série permanece sendo, apenas, esquecível demais para justificar sua duração.