Shadowhunters | Crítica – Temporada 3B

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Apesar de todas as críticas ferrenhas que foram feita à Shadowhunters durante suas três temporadas, ao menos a série se encerra plenamente consciente de onde estão seus maiores apelos, e busca agradar aqueles que permaneceram envolvidos por estes relacionamentos de forma gratificante.

Shadowhunters é um caso interessante de se observar na televisão atual. Em partes, a série traz uma produção que dificilmente poderia ter sido construída fora deste cenário televisivo onde o “público cativo” é um fator extremamente relevante, e valores de produção se tornam cada vez mais chamativos. O universo de Cassandra Clare exige um construção visual elaborada que possa enaltecer seus aspectos sobrenaturais de forma “descolada”, além de sequências de luta que sejam empolgantes o suficiente para servirem como culminações à altura destas intrigas místicas.

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Ao mesmo tempo, a série nunca se mostrou disposta a ir além de um modelo consideravelmente antiquado, prezando as reviravoltas dramáticas muito mais do que a construção ou as consequências destas, além de sempre redirecionar o seu foco para os relacionamentos melosos entre seus personagens incrivelmente atraentes. E mesmo agora, em sua conclusão, Shadowhunters não parece se importar tanto com as resoluções de sua trama geral, quanto se importa com retratar os desfechos destas relações, deixando claras as posições de cada casal da série com muito mais destaque do que qualquer embate sobrenatural que foi preparado até aqui.

Essa estratégia sempre foi o maior atrativo de Shadowhunters para o público que a acompanha com entusiasmo, mas ao mesmo tempo, também sempre foi o que impediu a série de almejar construções mais ambiciosas e expandir o seu universo de forma relevante, ao invés de simplesmente utilizar seus elementos mais deslumbrantes como um mero pano de fundo para as tramas românticas perfeitamente reconhecíveis e identificáveis. A ideia sempre foi ganhar o espectador pela emoção de amores não correspondidos ou paixões impulsivas, e acabou sacrificando a escala épica de sua história neste processo sem muitos receios.

O grande problema, no entanto, é que apesar dos relacionamentos estimulantes, estes personagens possuem evoluções artificiais demais para que se possa construir qualquer memorabilidade em suas trajetórias. Tal qual em tantas outras produções, os protagonistas se despedem de forma agradável, tendo sido alterados apenas superficialmente, com a convencionalidade da narrativa se tornando evidente em intenções de se confrontar o espectador apenas confortavelmente, e proporcionar os desfechos que os fãs cativos mais gostariam de ver.

Esse conforto de Shadowhunters é o que mais incomodou durante toda a trajetória da série, que sempre procurou chamar atenção pelo rico universo em que se baseia, mas que nunca se permitiu proporcionar discussões válidas sobre o papel de seus personagens dentro dele. Limita-se, então, a apenas repetir discursos já batidos dentro dos gêneros em que se encaixa, satisfeita em entregar aquilo que o seu público espera à primeira vista.

Um poderia dizer, então, que Shadowhunters é uma série pensada para as redes sociais, mas basta observar o cenário televisivo atual para concluir que esta abordagem não é exclusivamente depreciativa, e que “séries-eventos” também pode cumprir o seu papel de forma marcante, proporcionando uma experiência coletiva digna de ser lembrada por seus fãs. A questão, no entanto, é que tal abordagem também costuma prender a produção em seu tempo, impossibilitando que espectadores futuros possam redescobrir a série e enxergar algum valor atemporal.

Clairy (Katherine Mcnamara) continuou sofrendo com o desgaste de seu protagonismo, embora sua trama com o irmão Jonathan (Luke Baines) tenha tido momentos interessantes para a personagem, ainda não foi o suficiente para re-conquistar o espectador que estivesse muito mais cativado pelos outros personagens e seus respectivos dilemas amorosos. Magnus e Alec são o casal mais envolvente por aqui, e a série está completamente ciente deste estado, resolvendo encerrar sua trajetória não com o esperado duelo do bem contra o mal, mas sim com o casamento deste carismático par.

Em uma questão técnica, deve-se notar a eficiência de diversas sequências de ação que permearam esta temporada, com altos e baixos. Algumas destas cenas de luta trazem uma montagem apelativa, repleta de cortes rápidos quase indiscerníveis que pouco aproveitam as coreografias empolgantes e as poses impositivas dos personagens. Outras cenas, no entanto, se permitem admirar o bom trabalho dos coreógrafos com enquadramentos mais enaltecedores e montagens mais marcantes. Neste quesito, a série apresentou uma evolução consistente e digna dos tempos atuais.

Mas mesmo que a ação e a abordagem visual “descolada” de Shadowhunters possa atrair espectadores interessados por mundos fantásticos, a banalização deste universo em função dos relacionamentos construídos a partir de cartilhas e convenções, impede que a série possa agradar qualquer espectador fora de sua limitada ambição. E com esta terceira temporada apostando em novos vilões que não possuem a mesma imposição de Valentine, o sentimento de ameaça nunca chega a atingir os níveis necessários para nos importarmos com o destino destes personagens. Sabemos que sairão ilesos de qualquer conflito, pois suas resoluções os esperam em seus núcleos amorosos.

Ainda assim, o melodrama de Shadowhunters encontrou uma prática mais funcional, tanto no roteiro (que controla melhor seus impulsos do que no começo da série), quanto pela atuação do elenco principal, muito mais consistente e equilibrada do que era visto na primeira temporada. Se o texto da série nunca parece disposto a se aprofundar nestes dramas, ao menos esta última temporada trouxe interpretações mais confortáveis, ainda que poucas zonas de conforto tenham sido quebradas.

Com apenas três temporadas, este universo já soa exaurido, e embora poderia-se criar novas tramas para serem exploradas no futuro, não é possível perceber a criatividade necessária para que se pudesse manter o espectador empolgado. O mais decepcionante, no entanto, é ver como os livros de Cassandra Clare parecem estar repletos de elementos exploráveis empolgantes, que Shadowhunters não está apta a adaptar, ou não considera tão essenciais quanto as reviravoltas melodramáticas. Outras séries já abraçaram suas categorizações como “guilty-pleasures” antes de Shadowhunters, e outras ainda virão, com certeza. Mas a bola da vez se perdeu em sua relação com os fãs, limitando-se a procurar gerar reações emotivas gratuitas e capitalizar em cima da atraente lógica interna deste universo.

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