O sucesso inquestionável de 3% com certeza deve ter sido um fator decisivo para que a Netflix decidisse produzir mais uma série brasileira focada em um universo distópico. No entanto, Onisciente nem sempre consegue superar o desgaste de sua proposta principal, e tem poucos destaques que possam diferenciá-la das maiores comparações. 

A proposta de Onisciente segue a onda atual de produções “muito Black Mirror!”, séries e filmes menores que lidam com os terrores sociais e tecnológicos de um geração cercada por redes sociais cheias de ansiedade. Na nova série de Pedro Aguilera (o criador de 3%), São Paulo é uma cidade com taxas de crimes baixíssimas, onde todos são vigiados constantemente por pequenos “drones” que registram e avaliam toda e qualquer ação do dia a dia, imediatamente apontando crimes (pequenos e grandes) sempre que estes são identificados.

A ideia não só se assemelha às outras produções da tal onda que citei, como também carrega o fardo de ser comparada à obras bem conhecidas e veneradas do gênero de ficção científica, a maior e mais óbvia com certeza sendo 1984 de George Orwell. Todo este cenário de vigilância absoluta (e a discussão sobre privacidade e segurança que dele surge) traz conceitos que já foram explorados a esmo pelo gênero, mas que ainda assim, parecem ganhar cada vez mais relevância para a nossa sociedade atual,  sendo fácil compreender o apelo de voltar a explorar estes tópicos. 


Para se manter engajante e distinta, portanto, Onisciente foca em sua atmosfera de tensão e na investigação de sua protagonista, Nina (Carla Salle), que está determinada a descobrir quem matou seu pai sem qualquer consequência, mesmo em meio à tanta vigilância. Da direção dos episódios à trilha sonora, nota-se este trabalho de construção da atmosfera, distanciando a série da escala e do tom “young-adult” que marcava os episódios de 3%. Tal abordagem mais “mundana”, no entanto, acaba tornando a estética da série menos chamativa do que poderia, entregando um futuro distópico que segue a mesma pobreza visual tristemente associada ao gênero, hoje em dia (onde, convenhamos, o culpado costuma ser o valor de produção).

O começo da série é eficiente, empregando várias diretrizes e costumes de roteiro para estabelecer este universo e seus personagens, e seguindo por um caminho seguro em suas construções pragmáticas, completas pelos típicos diálogos expositivos que nos apresentam a dinâmica deste mundo e as principais características de sua mitologia. Admito que, por conta do meu ceticismo com a proposta que descrevi, tal começo pragmático me soava ainda mais desencorajador… 

Felizmente, a série consegue se sustentar em cima de sua protagonista, que traz a típica personalidade determinada e engajante que faz o espectador torcer por ela, além de uma performance emocionalmente envolvente por parte de sua intérprete.  A trajetória da personagem, com sua investigação clandestina tornando-se ainda mais difícil pelo aprofundamento de seus problemas pessoais, também segura a atenção do espectador conforme a temporada avança (algumas das minhas interações favoritas, inclusive, foram entre Nina e sua melhor amiga extrovertida, que traziam uma naturalidade envolvente para nos afeiçoarmos da personagem).

Mas entre encaixar um ou outro aprofundamento interessante sobre este universo (“Se para a maioria das pessoas, já é difícil identificar uma agressão verbal, imagina pros drones?”), ainda parece existir um grande potencial inexplorado pela série, durante a sua primeira temporada. Todo o conceito de moralidade ganha uma nova perspectiva inquietante, quando este precisa ser definido, comprovado e traduzido em algoritmos para ser sumariamente implementado na sociedade. Além disso, ainda temos uma inevitável discussão sobre “imparcialidade”, que a série apenas explora em uma superfície conveniente à trama. 

A mesma superficialidade também pode ser apontada no funcionamento dos drones em si, que ficam responsáveis por identificar os crimes e apontá-los. Poderia-se dedicar um bom tempo à discussão sobre a confiança depositada em cima deste equipamento, mas a maneira como os drones são “driblados” ao longo da série tornam extremamente questionável, a realidade onde todos os recursos de segurança pública de uma metrópole são dedicados à manutenção destes equipamentos evidentemente falíveis.

O universo de Onisciente torna-se ainda mais interessante quando vemos que, fora da cidade, a sociedade ainda continua sem o acompanhamento contínuo destes drones intrusivos, abrindo diversas possibilidades para se comparar os diferentes estilos de vida, dentro e fora da vigilância. Chega a ser um mérito inestimável, o fato de não sentirmos mais qualquer estranhamento ao acompanhar um cenário como este sendo retratado com elementos tão reconhecíveis de quem realmente mora em uma cidade como São Paulo, e as produções nacionais da Netflix merecem o devido crédito por esta dessensibilização do público com tais propostas. 

Mas tornar o público brasileiro mais acostumado a este tipo de produção, também quer dizer que não é qualquer proposta que irá cativar a atenção de vários espectadores carentes por tal empreitada (diferente de quando a primeira versão de 3% foi vista pela internet, e eu mesmo não conseguia conter a emoção de ver algo do tipo). Sendo assim, Onisciente acaba soando como uma série passível. Interessante para quem encontrá-la por acaso dentro do acervo da Netflix, mas pouco inventiva para o seu público-alvo que tem diversas outras opções semelhantes, logo ao lado. 

A conclusão da série traz toda a consistência da atmosfera de tensão que sustenta a jornada da protagonista, e tenta surpreender o espectador desviando a atenção com falsas conclusões. A grande revelação, no entanto, não parece ter o mesmo apreço por diretrizes de roteiro como no começo da série, e entrega uma reviravolta com menos impacto do que poderia, caso tivesse sido melhor preparada (e não simplesmente escondida) ao longo da temporada. 

Onisciente pode agradar aqueles que não estão acostumados a este tipo de história, ou que não estejam cansados de ver produções com universos distópicos superficiais. Em sua maior parte, a série consegue manter um ritmo engajante, ainda que não explore boa parte de seu potencial. O mais estimulante pra mim, no entanto, é que Aguilera fez uma série sobre vestibular com 3%, e agora seguiu com uma nova série sobre “trainees”. Mal posso esperar por quando o autor, em seus cinquenta e poucos anos e várias séries depois, vai contar a história sobre uma CEO de uma mega-empresa, dentro de sua mais aterrorizante distopia.