Apesar de quase se tornar apenas uma versão contemporânea de “Carrie – A Estranha”, I am Not Okay With This traz uma boa performance de Sophia Lillis em uma trama com abordagens produtivas sobre o seu cenário adolescente, mesmo que o impacto de sua proposta sobrenatural não seja muito memorável. 

Lillis foi o destaque de “It – A Coisa”, três anos atrás, e sua performance em Sharp Objects, da HBO, também não não deixou a desejar em nada como a versão mais nova da personagem de Amy Adams. Mas com I am Not Okay With This, a jovem atriz tem o seu devido espaço para demonstrar uma versatilidade que ainda deve lhe render mais oportunidades em sua carreira, e que resulta em uma interpretação carismática da protagonista Syd nesta nova série da Netflix. 

A série acompanha Syd em sua rotina colegial, após um período de luto por seu pai, que cometeu suicídio sem qualquer explicação ou aviso. Em casa, ninguém conversa sobre o assunto, enquanto na escola, a personagem é aconselhada a escrever seus sentimentos em um diário, para tentar lidar com o trauma de um evento que claramente precisaria ser discutido mais a fundo. Com a narração seguindo as confissões da personagem neste diário, vamos descobrindo que os tormentos internos de Syd acabam gerando consequências sobrenaturais incompreensíveis, e a personagem se vê ainda mais isolada do que antes. 


I am Not Okay WIth This tem os mesmos produtores de The End of the Fucking World (além de alguns nomes de Stranger Things), e não demora para se notar que a nova série traz algumas semelhanças tonais com a produção anterior. O tom da narrativa não chega a ser pessimista, mas assim com na comparação, está sempre evidenciando os aspectos menos animadores deste universo, e retratando uma visão adolescente que se sente desconectada do mundo, como se esta atmosfera depressiva a perseguisse especificamente. 

Depressão, inclusive, é um tema que se mantém presente dentro desta história, apesar de não ser diretamente levantado. O próprio título da série nada mais é do que o sentimento que a protagonista parece ter que expressar a todo momento, sem nunca realmente se permitir mostrar tal vulnerabilidade, e como consequência desta internalização (ao menos, aparenta ser uma consequência), a personagem desenvolve um tipo pouco definido de poder telecinético, capaz de quebrar paredes e arrancar árvores do chão. 

Ao longo da trama, fica claro que Syd é uma personagem que carece de suporte. Algo que claramente não consegue receber de sua mãe, cuja maneira de lidar com o luto envolve ignorar o assunto e se esforçar para continuar sustentando a família, enquanto a protagonista passa pelas típicas situações de uma adolescente frustrada. Enquanto isso, a vida no colégio também segue alguns dos clichês da adolescência incompreendida, com Syd escondendo seus interesses amorosos por sua melhor amiga, e passando despercebida por seus colegas de classe. 

É curioso como a série acaba se assemelhando bastante à proposta de “Carrie – A Estranha”, de Stephen King, mas de maneira distintamente contemporânea. Toda esta circunstância envolvendo poderes sobrenaturais e frustração adolescente poderia acabar indo pelo mesmo caminho da obra de King, mas I am Not Okay with This não segue os mesmos clichês envolvendo “bullying” característicos de histórias colegiais dos anos 80, tentando retratar um cenário onde a depressão da personagem, por outro lado, surge como um obstáculo cada vez mais significativo. 

A série vai traçando o paralelo entre Syd e seu pai, denunciando que o destino da personagem pode acabar seguindo o mesmo trágico caminho. Neste ponto, os poderes sobrenaturais tornam-se uma representação deste sofrimento incompreendido e internalizado, e que eventualmente levam uma pessoa ao extremo. No entanto, tenho algumas dúvidas quanto à esta abordagem “metafórica” da trama, onde não ficaram claras as divisões entre o que a série vem encarando como parte do mistério sobrenatural de seu universo, e o que seria puramente ligado ao estado psicológico da personagem e suas representações. 

Esta dúvida acaba sendo parte do que torna esta primeira temporada, como um todo, menos impactante do que poderia. Com apenas sete episódios de curta duração, I am Not Okay With This segue uma estrutura seriada bem definida, com abertura de sobra para suas eventuais continuações, mas que talvez acabe deixando espaços não-preenchidos demais em sua exploração, tanto do universo, quanto da protagonista. Neste ponto, é possível que a série teria tido um resultado mais marcante se tivesse optado por assumir uma estrutura mais semelhante a um filme de duas horas (o que é quase a duração da temporada inteira, de qualquer jeito), com um final mais conclusivo para o que se construiu até aqui. 

Não há muito por aqui que já não tenha sido visto e revisto em outras produções atuais, tanto com o tema de saúde mental abordado, quanto com a dinâmica de superpoderes em um “mundo real” adolescente. Mas felizmente, a protagonista interpretada por Lillis consegue manter o espectador engajado ao longo destes curtos episódios, e suas interações com o personagem de Wyatt Oleff (outro ator mirim saído do aclamado elenco de IT – A Coisa) acabam sendo algumas das partes mais cativantes da temporada, onde a vulnerabilidade da personagem vai sendo vislumbrada em momentos de descontração. 

Há um potencial interessante em manter esta nova série, (que se assemelha a diversas outras produções da própria Netflix) em uma escala menor do que poderia se esperar de uma trama como essa. De início, nota-se a oportunidade de explorar os questionamentos da protagonista em meio ao seu universo colegial contemporâneo, talvez com a mesma frieza que The End of the Fucking World consegue aplicar em seu retrato de personagens que se sentem incompletos, mas por outro lado, o final desta temporada aponta uma provável expansão de universo mais ambiciosa do que se viu até aqui. 

I Am Not Okay With This faz o suficiente para não ser engolida pelo catálogo da Netflix, e proporciona um bom holofote para o seu jovem elenco, mas não chega a conseguir se distanciar o suficiente de suas maiores comparações e referências, a ponto de se tornar uma adição realmente produtiva ao seu gênero “coming of age”, ou ao cenário de “superpoderes”. O  potencial inicial, no entanto, ainda permanece ali para sua próxima temporada tentar aproveitar com mais afinco.