A saga da “Guerra às Drogas” continua nesta segunda temporada de Narcos: México, que retorna com novos focos e dinâmicas para acompanhar esta nova fase do Cartel de Guadalajara, comprovando novamente que a maior força da franquia está em sua flexibilidade e seu desapego.

A primeira temporada de Narcos: México conseguiu revigorar este expansivo retrato sobre a evolução do tráfico de drogas nas Américas durante o final do século XX, não só fazendo um bom uso das fórmulas estabelecidas por Narcos para adaptar os eventos reais à uma narrativa televisiva coerente e engajante, como também elevando a atmosfera de tensão em um cenário ainda mais controverso e chocante. O contraste entre Diego Luna e Michael Peña manteve a temporada fluindo com boas evoluções para os personagens, mas após o final desta primeira fase, com a morte do agente Kiki Camarena, a série passa a dedicar mais espaço a este cenário como um todo, tendo menos interesse na evolução de seu protagonista, agora que seu “nêmesis” já foi derrotado. 

Os primeiros episódios deste segundo ano já deixam clara esta reformulação do foco da série. Primeiro, acompanhamos a equipe americana de agentes “secretos” que serviu de gancho para o final da primeira temporada, vendo que os perseguidores do cartel estão dispostos a ir bem mais além do que Kiki e seu grupo do DEA se permitiam, dentro da típica burocracia policial. Motivados pelo sentimento de vingança, os novos agentes já revigoram a trama por apresentarem-se como antagonistas mais perigosos às empreitadas de Miguel Ángel, que por sua vez, também retorna com mais disposição a assumir o papel de “chefe temido” dentro do cartel. 


Mas a nova temporada também dedica um espaço considerável às tramas individuais dos outros líderes da “Federação”, em suas respectivas praças. Esta divisão do tempo de tela acaba soando um tanto cansativa, no começo, com os longos episódios interrompendo o que se chamaria de “trama principal” para desenvolver as intrigas da família de Tijuana e do grupo de Sinaloa,por exemplo. Com o tempo, vai se notando que a temporada está gradualmente colocando o cenário como um todo, à frente de seu protagonista, e preparando o terreno para que a história continue de uma forma orgânica que respeite os eventos em que é baseada. 

Ao mesmo tempo, esta abrangência e este apego à construção de uma naturalidade para como a história evolui ao longo das temporadas é um dos aspectos mais cativantes desta franquia. Narcos: México não está contando a história de Miguel Ángel tanto quanto está contando a história deste cenário sendo dramaticamente alterado por novas circunstâncias, o que me faz lembrar de como The Wire também colocava a cidade de Baltimore e suas dinâmicas em constante mudança, acima de qualquer um de seus personagens. O resultado acaba sendo menos envolvente do que as trajetórias pessoais que marcaram o primeiro ano, mas nunca deixa de ser, pelo menos, ainda mais interessante de se observar a progressão. 

E é curioso, ainda, como a série consegue resistir a tentação de capitalizar em cima de elementos conhecidos do público, preferindo manter seu universo se desenvolvendo dentro do próprio ritmo. Joaquin “El Chapo” Guzmán é com certeza o maior exemplo desta contenção dos roteiristas, que poderiam estar apostando bem mais no personagem, uma vez que a figura real foi o centro de diversas manchetes durante as últimas décadas. Ao invés disso, o personagem continua tendo uma evolução bem compassada, onde eventualmente chegará ao famoso posto. Mas para quem não conhece nada da história real, seria difícil acreditar no destino desta versão do “El Chapo”, o que só comprova a eficiência da perspectiva dos produtores, que conseguem enxergar essas tramas com mais apreço pela construção, do que por qualquer resultado.

Mas quando a temporada retoma o foco na trajetória de Miguel Ángel, Diego Luna continua entregando uma performance digna de nota pelas premiações, evocando as referências mais sublimes que temos dentro do gênero de “thrillers de máfia”, e construindo seu personagem com conflitos palpáveis e mundanos, mas nunca deixando-o longe da escala em que o líder do cartel se estabeleceu, ao longo desta história. A queda do protagonista precisava ser tão épica quanto sua ascensão, e assim, sedimenta-se o legado para que a trama do tráfico no México possa se desenvolver com ainda mais peso para o espectador. 

Este segundo ano continua trabalhando um equilíbrio produtivo com sua violência chocante, mantendo estes momentos em destaque para que possam gerar o devido impacto, mas sem deixá-los cair na gratuidade que poderia descaracterizar as propostas temáticas da série. Afinal, esta é uma história sobre uma guerra sem lados realmente admiráveis, onde os participantes que tentam seguir um caminho mais honroso sempre acabam sendo penalizados por isso, e onde o poder para gerar qualquer mudança real está nas mãos de quem nunca sofrerá as consequências diretas. 

Ao abordar o crescimento do impacto internacional do Cartel de Guadalajara, a segunda temporada ganha uma escala ainda maior, com riscos ainda mais empolgantes, e com resultados que continuam exibindo os piores traços das conturbadas políticas entre o México e os Estados Unidos em sua artificial guerra contra as drogas. A cocaína de Escobar e Miguel Ángel nunca deixa de ser apenas mais um produto (ainda que um produto extremamente rentável), e o tráfico em si torna-se apenas mais um aspecto econômico de um cenário político repleto de ações meramente representativas e maquinações egocêntricas. Narcos: México, assim como a série original, está sempre consciente de sua posição como produção contemporânea, e permanece tentando construir um caminho plausível para responder “como chegamos até aqui”. 

E com final de mais uma fase da “Guerra às Drogas”, a terceira temporada da série pode ser a mais impactante de todas, até então. A divisão dos cartéis e a inevitável ascensão de “El Chapo” trarão a oportunidade para que Narcos: México aborde algumas das manchetes mais gritantes sobre o tráfico de drogas durante a década de 90, e a violência deste cenário será um tópico de discussão ainda mais relevante. Meu único receio, no entanto, é que o Walt de Scott McNairy não consiga alcançar o nível de engajamento necessário para guiar o espectador por entre os vindouros conflitos, onde será difícil torcer por qualquer um dos lados.