Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 2

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Após o primeiro episódio de Guardiões da Galáxia é difícil imaginar aonde uma sequência poderia chegar. O mais fácil de pensar seria uma padronização daquilo que havia dado certo no primeiro – algo considerado até mesmo ousado diante dos outros filmes da Marvel. Guardiões da Galáxia Vol. 2 chega aos cinemas nesse misto entre a euforia de continuar na companhia de personagens que renderam um bom filme e a suspeita de que aquele impulso criativo poderia se perder numa sequência.

A questão em dúvida é justamente como manter a originalidade em algo que pressupõe a fundamentação em um primeiro filme. Felizmente, o que há em Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um mergulho naquilo que havia de mais arriscado na obra inaugural. Como se naquele outro filme, o realizador James Gunn negociasse suas (ousadas) ideias para adequação de um padrão maior, algo como uma subversão dentro do sistema, contida e milimetricamente calculada. Após o sucesso da primeira aventura dos Guardiões, o volume dois claramente assume uma liberdade maior, explora quase em sua totalidade aquilo que há poucos anos atrás surgia como ideias, seja na forma como abordava aquela história, o visual daquele longa e os temas que despretensiosamente se conectavam com o restante do universo Marvel.

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Em primeiro lugar, e talvez o mais interessante, Guardiões da Galáxia Vol. 2 abraça de vez sua verve cômica, se nos outros filmes do universo expandido parece haver uma obrigação com as tiradas humorísticas – que muitas vezes fazem as obras perderem seus impactos -, aqui há realmente a construção de um filme de comédia, acima de qualquer outra coisa. James Gunn, que dessa vez, além de dirigir, assina sozinho o roteiro do longa, faz com que Guardiões da Galáxia seja um filme coerente do início ao fim, onde a comédia dá o tom total desta obra, abrangendo os momentos de ação e de drama, onde todos estão sempre a serviço dessa veia cômica própria que rege o universo de Guardiões da Galáxia.

Escrachado, Guardiões da Galáxia Vol 2 faz graça a partir de tudo, piadas em que os personagens parecem estar tirando sarro um do outro, um humor longe de ser leve ou inteligente, mas totalmente divertido. Essa comédia atua muito numa consciência daquilo que retrata, utilizando os filmes de super-herói como uma bagagem a ser “descanonizada”, ou seja, em que seus códigos e clichês possam muito bem ser subvertidos e satirizados. Guardiões da Galáxia Vol. 2, dessa forma, é um filme que assume esse seu caráter irônico, quase canastrão, um longa que a sua seriedade está à beira de seu senso de humor. Não é casual a escolha de figuras como Silvester Stallone ou Kurt Russel no elenco do filme, atores que transbordam essa certa canastrice, em que sua persona transmite um falso senso de sisudez, gerando um imediato senso de humor.

O filme transpira essa imagem, um proposital falso sério, como aquela raça alienígena que abre o filme, uma espécie de seres dourados, com um visual absurdamente brega, que nunca ri de si próprio, mas faz com que seu espectador pense a respeito da credibilidade das figuras que habitam aquele mundo. Um humor sério e sempre presente, que deixa a comédia em evidência durante todo o tempo, habitando seu visual camp e exagerado que conversa imensamente com seu texto irônico e escrachado.

O mais curioso é como todo esse tom não faz de Guardiões da Galáxia Vol. 2 um filme despreocupado com o que se fala. Pelo contrário, assim como o primeiro longa, a projeção talvez seja a obra da Marvel que mais se preocupe com os personagens. Isso ocorre justamente porque o humor intrínseco à Guardiões da Galáxia é honesto, parece realmente ser a forma como seus protagonistas tratam o mundo a seu redor, seus problemas e suas missões, algo que imediatamente faz com que a audiência identifique-se com aqueles heróis, tornando-os extremamente humanos.

Se a comédia muitas vezes pode parecer adolescente, juvenil, conseguindo fazer de uma mínima frase uma piada, isso reflete no comportamento dos seus protagonistas. Os heróis de Guardiões da Galáxia são de fato adolescentes, seres com grandes responsabilidades, mas com dramas juvenis nunca solucionados. O filme é justamente sobre isso e a comédia de Guardiões da Galáxia Vol. 2 está alinhada com seus temas. Quando finalmente o pai de Peter Quill se revela, o personagem interpretado pelo despojado Chriss Pratt traz à tona toda uma adolescência que ele não teve – como o momento em que ele brinca de jogar bola de energia cósmica para seu pai, como se estivessem jogando futebol. Os outros dramas são justamente os da puberdade, o problema de Gomorra com sua irmã, a auto-aceitação de Rocket e o crescimento de Baby Groot, a materialização simbólica dos significados do longa, mesmo que isto ocorra na chave cômica.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 é como esses problemas juvenis não solucionados são resolvidos com ajuda de uma nova família. Como praticamente todos filmes da Marvel a questão familiar é o cerne narrativo – Thor e Loki, Capitão América e Bucky, Capitão América e Homem de Ferro na dissolução dos Vingadores, todos motes familiares -, em Guardiões da Galáxia Vol. 2 isso fica ainda mais evidente, para o bem e para o mal. No bom sentido porque realmente consegue organizar o longa como um todo a partir dessa temática, a trama de todos os personagens gira em torno da questão familiar, é o tema que move o filme e todas as ações vistas na tela. Algo que torna Guardiões da Galáxia Vol. 2 um filme extremamente conciso, sem precisar abrir pontas para um crossover ou uma sequência.

O lado negativo é que Guardiões da Galáxia Vol. 2 faz questão de, a todo momento, deixar tudo que cerca essa temática extremamente evidente. Escancarando em diálogos tudo aquilo que já ficou entendido pelo subtexto da narrativa. Perde-se a conta de quantas vezes os protagonistas dizem se sentir parte de uma família dentro dos guardiões. Essa obviedade assume uma desatenção de seu espectador, que pode até ser verdade, mas torna um filme bastante singular em algo totalmente didático, reafirmando coisas já colocadas desde o início. Esse sentimento faz com que haja no longa uma das poucas irregularidades, o excessivo tempo do último ato, estendido ao máximo, em que cada cena (que sempre parece a última) surge para reforçar a mensagem já sabida, não confiando na compreensão de seu público.

Este último ponto não deve apagar toda a diversão, concisão e coerência presente em Guardiões da Galáxia Vol. 2. Ao abraçar as ideias presentes no primeiro filme, explorando-as em sua totalidade, James Gunn faz um filme memorável dentro da Marvel e de sua estrutura que já vem demonstrando cansaço. Ao compreender muito bem todas suas possibilidades, brincar com seu próprio gênero e organizar a temática que movimenta esse universo partilhado de heróis, Gunn e Guardiões da Galáxia consolidam-se como os nomes mais interessantes do estúdio Marvel.

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