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Sofrimento Espanhol

Em Feria: Segredos Obscuros, exploramos os extremos do fanatismo religioso

Thriller fantasioso da Netflix capenga pela primeira metade, mas se desenvolve melhor em seguida quando o elemento terror toma à frente

Publicado por Aléxis Perri

30/01/2022 19:05

Não precisa muito para que Feria: Segredos Obscuros deixe uma impressão – boa ou ruim – na mente do assinante Netflix. Logo na primeira cena, somos apresentados por uma tomada aérea à cidade de Feria, que de tão pequena pode ser considerada um vilarejo. Assim, tentem imaginar centenas de casas brancas telhadas, cada uma de tamanho específico, localizadas na parte alta de um monte, que possui uma área mais rochosa com uma torre de castelo na ponta extrema, onde tudo isso encontra-se cercado por natureza verde e rios de água.

Lindo, não?! Nem parece que um lugar assim poderia existir nesse mundo. É como se tivesse pulado das páginas de um livro ficcional de fantasia.

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Talvez seja isso exatamente o que querem os criadores Agustín Martínez e Carlos Montero: mostrar que mesmo o paraíso na Terra é como qualquer outro lugar do planeta, no caso, habitado por seres humanos que têm suas próprias histórias, algumas um tanto mais absurdas, e outras como revela o subtítulo da série, bem mais obscuras.

A ausência de luz propõe duas ideias ao mesmo tempo. Pela primeira, estabelecemos uma ambientação de mistério por tudo aquilo que não somos capazes de ver ou reconhecer, algo estranho a nós; agora, também podemos concluir que a falta de luminosidade pode ser uma benção, uma vez que quando descobrimos a verdade daquilo que está nas sombras, optamos muitas vezes por preferir que tudo que neste instante conhecemos não fosse parte da nossa realidade, geralmente por serem conceitos assustadores demais à nossa compreensão.

Feria: Segredos Obscuros consegue trabalhar ambas propostas relacionadas à luz, enquanto duas irmãs adolescentes, Eva (Ana Tomeno) e Sofía (Carla Campra) descobrem que seus pais que desapareceram, cometeram um crime que matou 23 pessoas em uma aldeia andaluza em meados dos anos 1990. Agora, as duas irmãs devem enfrentar uma nova realidade – e o sobrenatural. Será que Eva e Sofía irão conseguir superar tamanha transformação recente?

Entre tropeços e acertos

Provavelmente enquanto estiverem assistindo a mais nova produção original Netflix, vão perceber que a narrativa delineada pelo duo Martínez/Montero apresenta algumas dificuldades para manter uma harmonia entre o que é real com alguns elementos sobrenaturais que surgem desde o primeiro episódio intitulado ‘O lado vermelho’.

A grande virada em Feria: Segredos Obscuros vem apenas na segunda metade da primeira temporada da série de suspense espanhola. Após o capítulo ‘O templo’, onde regressamos ao passado para contar as origens do tal grupo secreto que agia sem conhecimento de boa parte da população do pequeno vilarejo, que observaremos algo fluir com mais energia e naturalidade.

De repente, o elemento fantástico vai tomar conta, mesmo que de maneira expositiva. A atmosfera de medo e terror vão tomando conta dos personagens principais da trama, que toda vez que podem escolher desviar-se de um rumo desconhecido, sempre caem nas mesmas armadilhas emocionais envolvidas nesse caminho que oferece calmaria e consolo, via rituais transitórios de dor e sofrimento.

Apesar dessa melhora encontrada na metade final da produção espanhola da Netflix, vale dizer que ainda vamos notar alguns probleminhas que atrapalham um maior envolvimento com a história das irmãs Eva e Sofía – interpretadas de maneira competente por Ana Tomeno e Carla Campra, respectivamente. Por vezes, reparamos uma montagem que acelerou demais os acontecimentos, o que acaba dificultando um pouco na imersão emocional do ponto de vista das protagonistas da história.

Reverência

Também constatamos que Feria: Segredos Obscuros faz questão de expressar sua paixão pelas histórias e filmes do gênero thriller, ficção científica e terror. Aqui não encontraremos alusões ou referências como parte da linha narrativa da produção Netflix, porém, notamos um apreço e respeito pelas obras de alguns grandes diretores do cinema, que presentearam o público com materiais qualificados que marcaram o audiovisual, mas principalmente o íntimo de tantos.

O jovem Chisco, papel de Jorge Motos, representa muito bem o tipo de público apaixonado por materiais que exploram o estranho e o inexplicável da vida, muito também porque ele próprio gostaria de ter algumas de suas dúvidas esclarecidas, como a morte de sua mãe ou mesmo porque todos à sua volta, incluindo seu pai, não conseguem compreender sua personalidade, vista como peculiar ou esquisita por muitos habitantes da amaldiçoada cidade espanhola.

Diferentemente da surpreendente Arquivo 81 (também disponível na plataforma Netflix) que expõe algumas dessas homenagens à outras obras de modo visualmente reconhecível, vemos que Feria: Segredos Obscuros prefere mostrar a conexão emocional entre as pessoas e estes materiais em questão, que costumam trazer um senso de aceitação diante dúvidas e pesares que sentimos diariamente.

Cidade de demônios

Existe uma semelhança bem interessante entre este original Netflix e o aclamado O Labirinto do Fauno (2006) de Guillermo del Toro. Ambos projetos exprimem por períodos diferentes, o impacto negativo da era franquista (1939 – 1975) na população espanhola.

O império de terror que tomou conta do país por mais de trinta anos deixou sequelas nos espanhóis que presenciaram tantas mortes e sofrimento. Esses sentimentos não passaram, mesmo após o fim da ditadura franquista. Muitos perderam a esperança de um mundo melhor e mais justo, deixando pairar uma nuvem sombria que ressoava medo e insegurança para as gerações seguintes.

Sabendo que ambos estados afetivos baseados na ansiedade não plantam boas sementes, abriu-se espaço para uma nova “solução”. Algo poderoso e inquestionável que pode dar cabo de tudo errado o que acontece lá fora: um místico salvador onipotente que é capaz de transformar tudo do pior para o melhor em um simples estalar de dedos.

Entretanto, como tudo mais na vida, nada vem de graça.

Isto posto, inicia-se novamente mais uma era de terror, agora liderada por fanáticos religiosos, que como de costume, prometem um futuro sem sofrimento e consolidada paz. Porém, já temos conhecimento pela nossa história que toda vez que um grupo de adeptos religiosos do tipo mais intolerantes – seja da doutrina que for – resolve entrar em ação, acabamos testemunhando ainda mais sangue e desgraça.

Lembrando que eles sempre tentam persuadir aqueles que não conhecem a tal da ‘palavra’ pelo caminho mais fácil. Sanando nossas dores, cessando nossas maiores angústias, prometendo reencontros pós-vida, tudo por uma bagatela que vale o seu corpo, nome, licença da propriedade ou mesmo os poucos trocados que lhe restaram no fim do mês.

Por Feria: Segredos Obscuros da Netflix, vemos que a salvação custa o olho da cara e todo o resto, literalmente.

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