Mostra SP | Crítica: Babylon Berlin

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Babylon Berlin marca um tipo de exibição especial interessante dentro Mostra Internacional, a exibição de episódios em salas de cinema de famosas séries internacionais ainda inéditas por aqui. Ano passado o festival trouxe a exibição de dois episódios de O Jovem Papa, realizado por Paolo Sorrentino (A Grande Beleza), agora é a vez da Alemanha ter uma grande produção audiovisual em destaque. Babylon Berlin reúne três famosos nomes da recente produção alemã, a série é criada e dirigida por Tom Tykwer (Corra Lola, Corra), Henk Handloegten e Achim von Borries (ambos responsáveis pelo roteiro do popular Adeus, Lenin!).

A sessão na mostra exibe 90 minutos dos 16 episódios que compõem a série alemã. A exibição demonstra uma grande afeição do festival por explorar as fronteiras do cinema, dedicando um espaço aquilo que dialoga com a experiência do cinema, ainda que esteja colocado numa série televisiva ou numa experiência de realidade virtual – algo presente na 41º Mostra. Assim, como disse um dos criadores de Babylon Berlin antes da sessão, Handloegten afirma que considera seu trabalho como um longuíssimo filme, que pôde ter a oportunidade de passar num cinema aqui em São Paulo.

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Já é até senso comum falar das características cinematográficas das grandes séries televisivas, talvez o que fique claro aqui é que esse patamar alcançado não está restrito as produções americanas, aquelas que chegam com mais facilidade ao mercado brasileiro. Dessa forma, Babylon Berlin demonstra valor, para evidenciar ideias cinematográficas dentro de sua longa narrativa. Evidentemente, uma experiência como essa torna-se incompleta pelo simples fato de não ser possível colocar todos os episódios numa só sessão.

Esse fato compromete de alguma forma a análise, algo como um objeto incompleto no meio de uma extensa seleção de filme, o interessante está em consumir essa narrativa no ambiente do cinema, algo que parece totalmente ligado a essa experiência da mais recente dramaturgia televisiva. Dentro dessa limitação, nota-se alguns pontos interessantes em Babylon Berlin, uma série que sobretudo aguça uma curiosidade imensa por seus longos minutos restantes, o que prova certa eficiência narrativa da produção.

Óbvio que Babylon Berlin deseja parecer grandiosa, realmente almeja se equiparar com a grande safra de séries internacionais. A produção alemã faz questão de mostrar todo seu valor de produção na grande reconstrução dos 1920 na Alemanha, mostrando seus enormes cenários, grandes planos, uma infinidade de ações que demonstram o grande aparato técnico da série. Vale lembrar que a Alemanha é conhecida por seu grande investimento televisivo, pintando algumas séries para exportação que rodam a televisão à cabo, mas também contando com um marco autoral nesse tipo de produção, a série Berlin Alexanderplatz, dirigida e desenvolvida por Rainer Werner Fassbinder.

Babylon Berlin é um tanto quanto mais conservadora que a série de Fassbinder, nota-se o interesse na construção de algo que envolva o público de imediato, que consolide a narrativa com um conflito gigante que deve ser solucionado, com pontas e mais pontas soltas, caindo em algumas armadilhas para segurar o espectador, algo que fica visível logo de cara, sem saber se isso segue até o fim da produção. Babylon Berlin é uma trama de investigação, ponto onde surge essa forma de querer envolver o espectador, deixando fatos evidentemente suspeitos para que haja a necessidade de descobrir quem fez coisa A ou B, uma fórmula que pode acabar caindo no clichê.

Por outro lado, é interessante ver grandes questões sendo colocadas dentro da narrativa da série. Em primeiro lugar, a reconstituição histórica ocorre nos meandros dos anos 1920 na Alemanha, distante do já conhecido período da ascensão do Nazismo. A série foca nos anos da República de Weimar, momento de instabilidade, mas de efervescência cultural e política, algo que resultaria na ascensão de Hitler. Ainda que haja uma conexão forte entre a série e o período que marcou os germanos (talvez o período histórico mais retratado pelo audiovisual), Babylon Berlin dá um interessante panorama dos momentos anteriores à Guerra, mostrando uma Berlin fascinante e interessante, ainda que extremamente caótica.

A série tenta justamente entrar nos caminhos mais obscuros desse momento, a investigação que dá o tom da série reside em ambientes de perversões sexuais, pornografia, sadomasoquismo, além de tramas políticas como a perseguição de um grupo trotskista. Babylon Berlin faz com que esse mundo radiante de Berlin esteja conectado por caminhos extremamente mal iluminados, reservando uma onda de dualidade para aquele mundo.

O mais interessante na série é como essa reconstituição de época se dá por uma construção totalmente modernizante. Como se aquele universo da década de 20 fosse apenas uma fantasia para desenvolver uma trama com elementos contemporâneos. Há um modo de falar dos personagens, um modo de agir que parece totalmente atual. Algo que fica muito claro na sequência de um show numa casa noturna, em que há uma performance de uma mulher com estilo andrógino, uma dança expressiva na plateia, uma batida que remete ao eletrônico. E se realmente aquilo pudesse existir em 1920, o modo como isso é mostrado é totalmente atual, a iluminação frenética, os cortes rápidos, o colorido das paredes, o rebuscamento de cada plano, a evidência de um lugar grandioso que remete às grandes baladas europeias atuais e assim por diante. Fica claro que Babylon Berlin fala muito mais sobre o presente, e sobre a Berlin atual, do que sobre o passado, e antiga capital alemã, cidades muito parecidas, vivendo os mesmos sentimentos, separadas por quase 100 anos.

Babylon Berlin tem esses seus noventa minutos iniciais encerrados por uma sequência incrível, uma montagem paralela que acompanha três grupos de personagem diferentes, enquanto a música e os números de dança continuam no salão daquela casa noturna. Se vê a violência política, os escândalos de uma investigação criminosa e a verdadeira faceta de uma personagem importante, tudo crescendo no ritmo daquilo que se ouve, uma música arrojada para o próprio tempo. O ápice revela três informações importantes de uma só vez, um gancho bem realizado, que com certeza fará o público da Mostra procurar pela série.

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