Por Giovanni Rizzo

Antes de qualquer coisa, é interessante entender o contexto em que A Grande Muralha foi produzido. Há mais ou menos um ano antes do desenvolvimento do filme, a produtora Legendary Pictures, responsável pela trilogia do Cavaleiro das Trevas, foi comprada por um conglomerado chinês, e essa informação leva a duas conclusões: a ambição dos chineses em entrar com tudo no mercado audiovisual, e também os interesse dos americanos para adentrar nas restritas salas de exibição chinesa. A Grande Muralha é claramente fruto desse processo.

Os astros Matt Damon, Pedro Pascal e o veterano Willem Dafoe dividem as telas com grandes nomes do cinema oriental como Tian Jing e Andy Lau, num filme que mescla o épico histórico com filme de ação. A história de A Grande Muralha supõe que o monumento que batiza o filme tenha sido construído para conter a invasão de criaturas monstruosas que se alimentam de carne humana. A trama gira em torno de dois mercenários ocidentais que chegam à China, a fim de roubar pólvora para revender, mas acabam entrando na luta dos chineses.


A proposta de A Grande Muralha é ser um blockbuster chinês, num projeto que claramente anseia mostrar essa força comercial do cinema de lá, utilizando grande parte do conhecimento americano nesse estilo de filme. Assim, essa ambição é notada nessa mescla entre um elenco global e o elenco chinês, na língua do filme predominantemente chinesa, no roteiro que visa o dinamismo em detrimento a qualquer outra coisa, nos efeitos especiais e até mesmo na lição de moral contida no longa.

Esse pensamento está contido, até mesmo na escolha de Zhang Yimou para a direção do longa. Ele é um dos mais respeitados e significantes cineastas da chamada Quinta Geração do cinema chinês, momento que significou a retomada do cinema no país, lançando na década de 1980 grandes nomes como o de Yimou, Wong Kar-Wai e Chen Kaige.

A aderência de um nome de peso num projeto como A Grande Muralha é uma prova que os grandes cineastas estão alinhados com essa causa chinesa de ocupar os cinemas de todo o mundo com um grande projeto comercial. E de certa forma o estilo de Yimou encontra-se ali, mas é como se o filme se utiliza apenas da superfície do que se caracterizou como o cinema do diretor. O visual está presente, mas esqueça do peso contido em filmes como Lanternas Vermelhas (1991) ou até mesmo o épico de kung-fu, O Clã das Adagas Voadoras (2004).

Carnaval chinês

Assim, se o estilo operístico e todo rebuscado de Yimou encontra-se em A Grande Muralha, ele divide espaço com práticas bem conhecidas dos grandes blockbusters que apequenam a todo momento esse longa-metragem. Basta reparar em momentos como quando um personagem relativamente importante morre e o cineasta constrói uma sequência visualmente interessante, realizando um funeral em que lanternas chinesas pintam o céu noturno à beira da Grande Muralha; todavia esse instante é praticamente arruinado por uma música incidental extremamente comum, sem nenhuma assinatura, usada como se o filme tivesse que atender a certas demandas de um pretenso blockbuster.

O mesmo ocorre em uma grande sequência de ação em que os personagens encontram-se num edifício repleto de vitrais, e toda a cena ganha uma paleta extremamente colorida, no entanto, esse momento é recheado de um exagero quanto as lutas mostradas ali, a câmera se move desenfreadamente como em um filme de ação comum, uma série de monstros tentam invadir o local, resultando num momento que beira o nonsense, além do baixo nível do CGI que as criaturas possuem. Esse esteticismo cercado de uma narrativa frágil e de processos que colocam A Grande Muralha no senso comum dos blockbusters faz com que o estilo de Yimou pareça uma simples fantasia de carnaval.

Esse carnaval chinês muito se deve ao fato do roteiro escrito por três pessoas – Tony Gilroy, Carlo Bernard e Doug Miro – colocar A Grande Muralha bem próximo ao pastiche. Se já soa absurda a ideia desses monstros estrangeiros que desejam entrar num país específico em busca de comida, algo que nunca fica bem explicado, há toda uma construção em torno do exército que habita a grande muralha que é extremamente exagerada e totalmente questionável.

Nesse aspecto, o filme parece ter saído de um desenho oriental de algum tempo atrás, com os comandantes da muralha possuindo suas próprias cores, habilidades e armaduras que remetem a um animal específico. Se esses elementos são condizentes em algo como Cavaleiros do Zodíaco, aqui só ganha um tom totalmente exagerado, principalmente quando isso é colocado ao lado do visual dos dois mercenários ocidentais, que parecem ter saído de um épico que realmente se importa com certa verossimilhança histórica.

Roteiro forçado

Esses exageros levam a narrativa ao absurdo, colocando em xeque a atmosfera séria que o longa tenta criar, mas ao mesmo tempo também fazendo com que A Grande Muralha construa sequências criativas para tornar aquelas inúmeras batalhas no mínimo interessantes. No entanto, se uma luta na neblina, ou algumas sequências de kung-fu podem divertir, tudo parece muito sem peso, como se essas sequências fossem realmente só para animar sua plateia juvenil, sem que estes momentos levem a narrativa adiante com alguma eficiência.

Além de tudo, o roteiro força inúmeras situações para que possa transmitir sua lição de moral, no pensamento fílmico, os dois mercenários vão aprender com aquelas batalhas o que é ter uma função em busca de um bem maior, é ensinado o poder dessa doação a um grande objetivo mesmo que isso faça com que aquele herói abra mão de alguns de seus desejos. Lições que parecem uma espécie de demonstração do espírito chinês em formato de filme, algo que tem tudo a ver com desejo em realizar um grande projeto comercial para o exterior. O problema não é conter a lição de moral, mas sim colocá-la de forma tão escancarada e banalizada, fazendo com que ela pareça uma simples forçação de ideias.

Assim, todos esses exageros contribuem para um filme que preza por buscar tudo que há de mais comum num pretenso blockbuster. Basta ver como essas escolhas do longa constrangem seu próprio elenco; se Matt Damon ainda se sai bem como astro de ação, Dafoe por exemplo, parece apenas no piloto automático perdido num filme que pouco compreende suas próprias estruturas.

Se uma ou outra cena podem divertir, isso é muito pouco para um filme do tamanho da ambição de A Grande Muralha, um longa que se esforça para perder qualquer resquício de identidade em prol de se tornar um grande blockbuster.