Atenção! A matéria abaixo contém descrições de violência sexual.

Baseada na série de livros de E.L. James, 50 Tons de Cinza se tornou uma bem sucedida franquia no cinema, com o primeiro filme lançado em 2015 e protagonizado por Jamie Dornan e Dakota Johnson.

50 Tons de Cinza conta a história de Anastasia Steele, uma jovem e inocente jornalista que é introduzida ao mundo do sadomasoquismo pelo bilionário sexy Christian Grey, vivido por Dornan.

A franquia foi envolvida em polêmicas desde sua estreia. Alguns acusaram o filme de não retratar as relações de BDSM de maneira realista. Outros, questionaram a falta de química entre os protagonistas.


A maior polêmica envolvendo 50 Tons de Cinza, no entanto, aconteceu longe das telas de cinema. Confira abaixo!

A jovem Grace Millane.

A defesa “50 Tons”

Em fevereiro deste ano, um neozelandês de 28 anos foi condenado à pena de morte pelo assassinato de Grace Millane, uma mochileira de 21 anos morta após ser estrangulada durante uma relação sexual.

Em sua defesa, o assassino afirmou que a morte foi um acidente: Millane teria iniciado um “sexo pesado, ao estilo de 50 Tons de Cinza”. Como não era familiarizado esse universo, o criminoso não teria percebido “que foi longe demais” até encontrar o corpo inerte da jovem na manhã seguinte.

De acordo com uma análise da CNN, esse tipo de defesa tem se tornado cada vez mais comuns em casos fatais de violência sexual.

Quem opta por justificar um assassinato usando a “defesa 50 Tons” costuma afirmar que tudo começou como uma relação consensual, e que algum aspecto do sadomasoquismo ou “jogo sexual” deu errado e foi longe demais.

Neste caso, ao eliminar o elemento “intenção” desta equação, o réu pode reduzir as acusações de homicídio doloso para homicídio culposo, conseguindo assim uma pena menor.

Esse tipo de defesa também transfere parte da responsabilidade do assassino para a própria vítima, cujo histórico sexual costuma ser exibido em detalhes nos tribunais e divulgado pela mídia.

No caso de Millane, o assassino – que não teve o nome divulgado – conheceu a jovem no Tinder, e afirmou às autoridades que a jovem “pediu para ser amarrada, e quando ele se negou, ela insistiu”.

Em seguida, Millane teria pedido para ser enforcada com uma intensidade cada vez mais porte. Supostamente, o assassino desmaiou no banheiro após o término do ato sexual, tendo descoberto o cadáver da jovem apenas na manhã seguinte.

Para piorar ainda mais a situação, ao invés de chamar a polícia, o criminoso comprou produtos de limpeza e uma maleta. Após se livrar das evidências no quarto de hotel, ele colocou o corpo de Millane na mala e o desovou em uma floresta. Além disso, segundo os promotores do caso, ele também tirou fotos explícitas do corpo, sexualizando o assassinato.

Os promotores conseguiram provar que o assassino estava mentindo ao dizer que não conhecia o mundo do BDSM. De acordo com o depoimento de pelo menos duas outras mulheres, ele gostava de dominar suas parceiras de maneiras violentas nas relações sexuais, com o objetivo de “se sentir superior e em controle”.

A Corte da Nova Zelândia deu ao assassino uma pena de prisão perpétua, com o mínimo de 17 anos servidos antes da possibilidade de liberdade condicional. No entanto, em outros casos a “defesa 50 Tons” acabou funcionando perfeitamente.

Na Inglaterra, membros do Parlamento querem banir essa linha de defesa dos tribunais. Desde os anos 70, pelo menos 60 mulheres foram mortas por “violência sexual consensual” no país.

18 destes casos aconteceram nos últimos 5 anos, e em 45% dos julgamentos, a morte foi considerada acidental, o que gerou penas menores e até mesmo absolvições.

“Mulheres são culpadas por seu comportamento. Suas vidas sexuais sempre são questionadas: se elas são sexualmente ativas, de que tipo de sexo elas gostam, se elas estavam bebendo, mesmo quando essas coisas não tem nenhuma relação com o caso em questão”, afirmou Toni Van Pelt, presidente da National Organization for Women (NOW).

De acordo com a especialista, a utilização da “defesa 50 Tons” serve apenas para culpabilizar as vítimas.

“Não existe ênfase nos homens, e no comportamento masculino. Ninguém se pergunta sobre o histórico sexual deles, o histórico de violências contra as mulheres ou se eles estravam bebendo. A ênfase sempre é que a mulher mereceu o que aconteceu, já que sentiu prazer pela relação sexual”, afirmou Van Pelt.