Cada vez mais o cinema brasileiro tem se destacado mundo afora. Desde o renascimento da produção cinematográfica nacional, marcado pela indicação ao Oscar do filme ‘Central do Brasil’, o país tem sido um celeiro produtivo e efervescente de novos filmes.

No entanto, um dos elementos fundamentais para o sucesso de qualquer produção cinematográfica vai além do visual, daquilo que está relacionado a edição de imagens e efeitos visuais. Estamos obviamente falando da sonoplastia e da trilha sonora.

O músico e produtor musical brasileiro Hebert Neri tem feito diversos trabalhos para TV, rádio e cinema neste sentido. Uma de suas produções mais recentes foi a música tema, intitulada ‘Forte Sou’, do filme Nada a Perder 2, que estreou em todo o Brasil e também nos Estados Unidos, Europa e parte da África e Ásia.


Neri foi responsável pela gravação e edição do instrumental da música, além da mixagem do tema musical, tratamento das vozes e masterização para o cinema e para as plataformas digitais como o Spotify.

Ao Observatório do Cinema, o produtor revelou um pouco dos bastidores de produzir trilhas sonoras para grandes projetos e do seu processo criativo e de produção. Confira:

Que qualidades foram mais úteis para você como produtor de trilhas sonoras para o cinema?

Criar ou produzir uma trilha sonora para o cinema exige entender uma linguagem um pouco diferente. No cinema tudo tende às vezes a ser grandioso demais. É preciso entender o conceito daquele filme, daquele personagem, daquela obra em específico e não se perder em meio a tantas ideias. Uma habilidade importante é ser capaz de orquestrar e arranjar música, e pensar no que os outros músicos são capazes de fazer.

Quando estou produzindo, costumo gravar demos com o uso de instrumentos de software, VST, que me dão a ideia de como aquilo vai soar com músicos de verdade em estúdio, e assim também ser capaz de expressar, para além da partitura, a todos os outros músicos o que eu preciso e espero deles. No entanto, pensar fora da caixa da música clássica e experimentar vários gêneros diferentes de música me levou a ser um compositor e um produtor mais versátil. E versatilidade, além de agilidade para atender a prazos curtos, são das maiores habilidades para quem quer enveredar neste ramo, pois é preciso conseguir entregar um bom trabalho no espaço mais curto de tempo, além de conseguir navegar por diversos gêneros musicais.

Então compor para cinema ou orquestrar trilhas é, na verdade, um trabalho desafiador, já que cada cineasta e cada filme te coloca um desafio diferente?

Sim, bastante. E muitas vezes, como compositor ou produtor musical para filmes, você escreve ou produz algo que você normalmente não teria escrito em composições ou produções mais pessoais. Você precisa ser capaz de fundir sua intuição com as necessidades do projeto, além de levar a sua música a outro nível, até mesmo se reinventar, usar sons e recursos que tenham conexão com aquilo que está sendo transmitido pela personagem ou pela obra em geral. O bom produtor musical e o bom compositor sabem quando e como fazer uso dos elementos, sejam instrumentos, tecnologias ou sons específicos.

Quais são as suas referências para compor trilhas sonoras?

Primeira coisa que faço é imergir totalmente no estilo de música que acho mais adequado para o projeto. Pesquisa, muita pesquisa. No entanto, como produtor e na questão da criação, tenho como referência os trabalhos de nomes consagrados como Vangelis, Hans Zimmer, John Williams e tantos outros que me emocionam e inspiram com seus excelentes trabalhos.

Como foi o processo de gravação de ‘Forte Sou’?

Recebi um briefing com a ideia de como seria a música, uma linha melódica inicial e parte do conceito de que emoções e sentimentos a música faria menção além de um escopo do que seria o filme. A partir dali, baseado nisto, comecei a gravar o piano em minha casa mesmo, aqui em Portugal, e depois usando instrumentos virtuais gravei o cello e o baixo. Pensei em um conceito minimalista, onde três instrumentistas estariam sentados em uma pequena sala, tocando bem próximos, com a cantora no meio deles.

A ideia da música era transmitir uma certa tristeza, angústia, a princípio, pois o tema fala de perseguição, de sofrimento, incompreensão e calúnia. Fala de uma alma amargurada, sofrida, injustiçada. Logo o tema musical precisava ser triste e trazer consigo forte carga emocional. No entanto, em um determinado momento, a energia e a intenção precisava ser outra, que é quando a letra da canção confessa que aquela pessoa é forte, apesar de tudo que passou.

Então é um tema que tem dois momentos, que começa tímido e retraído, com o piano em evidência, em tom menor, a fazer arpejos. Depois a interpretação se torna maior, mais ousada, a atingir mais oitavas, regiões distintas e com maior expressão.

Tanto o piano como os instrumentos de cordas que se ouvem na produção eu gravei utilizando instrumentos virtuais, samples (VST). Isto surpreende algumas pessoas, que ouviram a produção e pensaram se tratar de instrumentos reais.

Todo o processo de desenvolvimento criativo, gravação, mixagem e produção foram feitos usando o Logic Pro X, da Apple, em menos de dois dias. Foi um grande desafio, tanto por estarmos com prazos apertados, como porque sabíamos que seria um trabalho de grande repercussão internacional.

Felizmente pudemos atender às expectativas e sinto-me muito feliz com o resultado final.

Quais são as ferramentas que mais usa para gravar e compor trilhas sonoras?

A tecnologia é minha melhor amiga. Hoje uso muito softwares para dar vida a sons que antes só existiam na minha imaginação, na minha cabeça. Uso dezenas de ferramentas, mas posso citar algumas que são mais relevantes, como o Omnisphere, o Kontakt e bibliotecas como a Spitfire BBC Orchestra, Red Pianos Black Knob, Sustain Pads (IBN Samples), Alchemy e RetroSyn (Apple), Vienna Orchestra, Philarmonik e softwares como o Sylenth1 e o Serum.