Bohemian Rhapsody passou por alguns problemas antes de chegar aos cinemas. Primeiro o ator principal, Sacha Baron Cohen (Borat), deixou o projeto em razão de “diferenças criativas” com o Queen. Depois, o diretor Bryan Singer foi demitido após não retornar do feriado de Dia de Ação de Graças.

Isso tudo poderia ocasionar em um filme desastroso, transformando o set em um inferno. Mas, segundo Rami Malek, que substituiu Cohen como Freddie Mercury, a atmosfera no set tornou o elenco mais unido.

“Algo extraordinário aconteceu, todos nos unimos pelo filme”, disse o ator a Alex Bhattacharji, da revista GQ. “Desenvolvemos uma dependência natural uns nos outros para fazer algo incrível e cuidarmos uns dos outros. Criamos amizades que são para a vida toda”.


Foi o próprio Rami Malek quem convenceu Dexter Fletcher a assumir a direção de Bohemian Rhapsody e terminar o filme.

“Ele disse para mim, de forma bem emotiva, ‘olha, você poderia cag*r no meio do set e todos continuariam pensando que você é incrível’. Foi algo engraçado, mas ousado de se dizer”, disse Dexter Fletcher.

“Foi sua compaixão e apoio que fez o restante do elenco se apoiar nele”, continuou o diretor.

Filme artificial

Cinebiografias de musicistas estão em moda em Hollywood. Depois do sucesso de Bohemian Rhapsody, que garantiu o Oscar de Rami Malek, por ter vivido Freddie Mercury, já vimos Rocketman, sobre Elton John e outras obras do gênero estão a caminho. Mas há uma verdade que todas elas compartilham, mesmo que parcialmente.

Bohemian Rhapsody contou com participação dos membros ainda vivos do Queen, Elton John foi consultor em Rocketman, Madonna deve seguir o mesmo caminho na sua vindoura cinebiografia. Isso afeta diretamente o que vemos no produto final.

Não por acaso, o que vemos em Bohemian Rhapsody é um retrato quase que idealizado dos membros do Queen – à exceção do próprio Mercury, que parece ser o único da banda que cometeu erros.

Ele também não está vivo para se defender, ou dizer o que quer e o que não quer ver na obra.

Essa participação dos sujeitos das cinebiografias na produção afeta negativamente o filme, invariavelmente.

Mesmo que a intenção não seja transformar tudo em um grande comercial de margarina, inevitavelmente as pessoas vão querer colocar seus pontos de vista nos longas, o que acaba suplantando a necessária visão externa na elaboração desses filmes.

Essa idealização gera relatos fictícios, mais dependentes da memória pessoal (que é falha) do que efetivamente dos fatos.

Afinal, ninguém vai querer se pintar de forma consideravelmente negativa e justamente por essa razão, as pessoas retratadas nesses filmes não deveriam sequer chegar perto da produção. Elas podem ser consultadas externamente, claro, com alguém apurando os fatos a fim de produzir algo mais próximo da realidade.

No fim, o que ganhamos chegam perto de serem propagandas desses astros e não relatos verossímeis de suas vidas. Trata-se de um enaltecimento, que toma o lugar de um retrato da realidade.

Não por acaso, muitas dessas obras – incluindo Bohemian Rhapsody – soam extremamente artificiais, apesar de todo o esforço de seus atores.

Bohemian Rhapsody está disponível em DVD, Blu-ray e mídias digitais.