La Casa de Papel traz a história de um grupo de ladrões que (inicialmente) executa um grande roubo à Casa da Moeda, com todo o plano sendo elaborado pelo misterioso Professor.

E durante as duas primeiras partes da série, o intelectual procura se isentar moralmente destas ações, mas será que o personagem realmente conseguiu se manter tão admirável quanto gostaria?

Imprimir dinheiro é roubar?

Um dos aspectos que o Professor procura estabelecer para manter sua moralidade intacta é o fato do plano envolver “imprimir o dinheiro”, ao invés de roubá-lo diretamente. De forma superficial, isso significaria que nenhum dinheiro do povo está sendo levado pelos ladrões, e que apenas o sistema está sendo afetado, como se esta fosse uma solução que ajudaria os ladrões a serem vistos como “Robin Hoods” modernos.


Mas tal assalto realmente afetaria apenas o sistema? Uma vez que se produz um impacto tão forte à economia, não haveriam consequências graves para os impactados que regem tal sistema? E como não é difícil de imaginar, estas figuras políticas provavelmente acabariam tentando manejar a situação, repassando seus prejuízos para a população. Ao mesmo tempo, também deveríamos pensar se um roubo dessa magnitude não teriam consequências danosas para como a sociedade encara sua economia e os riscos do dinheiro impresso. DIzer que o assalto estaria livre de qualquer culpa econômica é um forçar um pouco a barra.

Vazou o diálogo com a polícia

Outra atitude questionável do Professor veio durante suas várias negociações com a polícia, onde Raquel foi claramente a mais afetada. Ao negociar a saída de alguns reféns, o Professor oferece liberar apenas Allison Parker (a valiosa filha do embaixador britânico) e Raquel é levada a aceitar a proposta por pressão de superiores. Neste momento, O líder dos ladrões mostra que não está acima da ideia de jogar sujo, e vaza o diálogo com a polícia para manipular a opinião pública.

É claro que para a narrativa em si, tal desenvolvimento faz sentido dentro dos discursos do professor. Mas com uma perspectiva mais imparcial, a atitude não deixa de ser moralmente questionável.

Incriminou Berlim

Esta foi uma atitude que acabou sendo justificada por outros fatores revelados mais ao fim da Parte 2, mas ainda assim, para muitos que acompanhavam a série, também demonstrou que o Professor colocava seu plano acima de seus cúmplices. Após Berlim ter (supostamente) matado um refém, o Professor decide plantar uma evidência que incrimina seu companheiro diretamente, tanto para servir de distração para a polícia, quanto para punir Berlim.

Com a revelação de que Berlim estaria morrendo por uma lenta doença, a escolha do personagem como bode expiatório se torna mais plausível. Nem de longe admirável, no entanto, como o Professor gostaria de ser enxergado.

Ia envenenar a mãe da Raquel

Esse foi o momento mais baixo do personagem, e os roteiristas sabiam que não teria volta se o Professor realmente tivesse sido frio o bastante para envenenar a mãe de Raquel. O líder da gangue de ladrões percebe que seu plano será arruinado caso a mãe da inspetora revele o conteúdo da ligação de Àngel, e decide colocar veneno no chá da pobre senhora, apenas para ter um lapso de consciência no último segundo, e estapear a xícara.

Felizmente, os roteiristas perceberam que era melhor fazer o personagem ter este lapso antes de descobrir que a mãe de Raquel sofre de Alzheimer, e não lembraria do conteúdo incriminador. Desta forma, a redenção de Professor se torna mais significativa, mas não apaga o fato de que esta foi sua atitude mais questionável.

Isolou Raquel e sua credibilidade

E se tem uma coisa que realmente me incomoda com a trajetória dos personagens de La Casa de Papel, é a maneira como Raquel e o Professor acabam juntos no final da Parte 2, sem qualquer grande consequência pelo que foi visto até agora. Como se não bastasse quase matar a mãe da personagem, o Professor foi impiedoso em suas estratégias de acabar com a opinião pública sobre Raquel, além de ter isolado a inspetora de seus companheiros.

Ambos terminam fugindo juntos, mas em qualquer outro cenário, a vida de Raquel estaria completamente arruinada, e isso não parece afetar a relação do casal atualmente. Duvido que a série ainda pretenda explorar estes problemas no futuro, mas seria interessante acompanhar um confronto onde os crimes do Professor sejam escancarados para sua (agora) fiel parceira.