É inegável que La Casa de Papel se tornou um fenômeno internacional nas mãos da Netflix, e os fãs da série se mostram extremamente envolvidos pela trajetória do Professor e sua trupe de ladrões. No entanto, este sucesso não chega a ser tão surpreendente quando paramos para analisar alguns elementos específicos da série.

Certos pontos acabam sendo tão atraentes para a geração atual de espectadores que, uma vez combinados de forma chamativa, podem proporcionar uma experiência estimulante, refletindo muito daquilo que o público gosta de ver na tela.

Folhetim

Como citei na crítica da Parte 3, La Casa de Papel segue um formato conhecido (pelos mais velhos) como “folhetim”. Tal molde consiste de uma história seriada, sempre em constante movimento, cujos arcos narrativos raramente se fecham em episódios isolados e estão sempre gerando ganchos intrigantes. O termo mais apropriado seria “capítulos”, neste caso, compondo uma trama tão dinâmica e envolvente que incita os espectadores à continuar acompanhando-a sem interrupções.


Este formato tem ainda mais evidência no plano original da série, com suas duas primeiras partes. A trama do roubo à Casa da Moeda está sempre tentando manter uma atmosfera de urgência e tensão, mas equilibrando o drama e os apelos emocionais à cada personagem de forma relacionável para o espectador. Considerando a maneira como séries são consumidas na plataforma da Netflix, chega a ser divertido perceber como uma narrativa contemporânea acaba se assemelhando muito às regras e funcionalidades de um formato tão antigo.

Charme e sensualidade

E como se já não bastasse prender a sua atenção com uma história em constante movimento e ganchos irresistíveis, La Casa de Papel ainda agrada seu público integrando uma dose considerável de sensualidade e charme nas relações de seus personagens, bem como a maneira como vários deles flertam entre si constantemente.

Elite, outra série espanhola da Netflix, é um exemplo perfeito para esta abordagem, e percebe-se a semelhança entre como ambas as séries procuram retratar seus personagens de forma mais descontraída, sexualmente. Neste quesito, o elenco também faz sua parte ao serem tão atraentes em suas representações.

Anti-heróis

Em um ponto ainda mais “narrativo”, também é válido notar como a geração atual de espectadores se sente extremamente atraída pela ideia do que se chama de “anti-heroísmo”. Personagens cujas atitudes nem sempre são consideradas moralmente admiráveis, ou que não seguem códigos de conduta tradicionais, encontrando suas redenções em ideais e morais próprios, facilmente relacionáveis para o público, mas que também os colocam em posições desgarradas da sociedade que os cerca. 

Os ladrões de La Casa de Papel são como piratas, sempre impetuosos e até galantes, que se dedicam à uma ação moralmente questionável, mas que apresentam personalidades cativantes, e estão sempre sendo justificados por um “espírito de liberdade” que reflete muitas das histórias sobre os rebeldes navegadores de antigamente.

Reviravoltas e maquinações

Boa parte do que acaba compondo a narrativa de “folhetim” de La Casa de Papel também envolve a constante elaboração de reviravoltas surpreendentes e alterações de dinâmicas impactantes para a trama. Seja no fim do episódio, no começo, ou no meio, a trama pode ser virada de ponta cabeça para algum desenvolvimento, recapturando a atenção do espectador de imediato e fazendo-o torcer pelos personagens novamente.

Os planos do Professor em si também fazem parte deste apelo, atraindo o público para uma representação de estratégias mirabolantes que impressionam por seu absurdo e sua astúcia. Melhor do que assistir a um anti-herói indo contra a maré, é acompanhá-lo fazendo isso com inteligência e capacidade. É aqui que entra a necessidade de roteiristas que consigam ser dinâmicos o suficiente para bolar tais artimanhas de forma plausível, pois caso percam a credibilidade, o espectador rapidamente se sentirá tapeado.

A edição da Netflix

E para complementar todos estes motivos que citei acima, a Netflix ainda foi mais longe, e decidiu exportar a série para o mundo de forma ainda mais chamativa e cativante. Originalmente, os episódios de La Casa de Papel eram exibidos com setenta minutos de duração, cada. Na plataforma de streaming, temos um número maior de episódios, com durações menores.

O motivo por trás da estratégia é óbvio: O público se sente menos intimidado por capítulos mais curtos e estará mais disposto a se deixar levar pelos ganchos narrativos. Mas há de se notar a habilidade desta reedição da série, que consegue manter uma estrutura competente sem prejudicar a evolução original da trama, e que escolhe cuidadosamente as cenas que cortará de propósito para gerar novos ganchos ou re-introduzir o espectador na história durante o capítulo seguinte. Diversas soluções chegam a ser elegantes, de tão simples. E o resultado fala por si só.

A Parte 3 de La Casa de Papel já está disponível na Netflix.