O Coringa é o maior inimigo do Batman e muito provavelmente o vilão mais conhecido das histórias em quadrinhos – e um dos maiores dos cinemas, também.

Com quase 80 anos, o personagem mudou muito ao longo dos anos, mas uma coisa praticamente sempre permaneceu intacta: ninguém sabe ao certo de onde veio ou para onde vai.

Com tantas décadas de histórias, separamos alguns tópicos interessantes sobre o Coringa para tentarmos analisar como exatamente o vilão se tornou tão doentio e perturbador.


O homem que ri

O Homem que Ri

Aqui não estamos falando de uma versão propriamente dita do Coringa, mas do personagem que o inspirou. Para criar o vilão, Bill Finger e Bob Kane se inspiraram no clássico O Homem que Ri, de 1928, que conta a história de um homem com um sorriso permanente no rosto que tenta se vingar das pessoas que mataram seu pai e o deixaram com a face daquele jeito.

A história do personagem em si não foi usada como base para a criação do Coringa, mas sua aparência impactante e perturbadora claramente serviu de inspiração, com o vilão constantemente aparecendo com um sorriso doentio no rosto.

O piadista

O primeiro Coringa

A primeira edição da revista mensal do Batman estreou em 1940, trazendo ninguém menos que o Coringa como vilão. Com seu sorriso icônico, cabelos verdes e terno roxo, este Palhaço do Crime era surpreendentemente ousado para sua época, matando diversas pessoas ao longo de sua primeira aparição.

A intenção era que o Coringa morresse na última página, mas ficou tão popular que os editores quiseram trazê-lo de volta.

O piadista

Truques e besteiras

O Coringa foi um dos personagens que enfrentaram problemas com censura nos quadrinhos. As crianças viraram o público alvo dos gibis e não havia mais espaço para um vilão tão doentio e perturbador.

Por conta disso, o Coringa não imediatamente desapareceu, mas teve sua personalidade “aliviada”: ele não era mais um grande psicopata, mas um idiota que gostava de aplicar golpes e enganar outras pessoas. Um “troll”, em outras palavras.

Capuz Vermelho

O Capuz Vermelho

Muitas coisas tornam o Coringa interessante, mas a maior delas talvez seja sua origem nebulosa. Ninguém sabe ao certo quem era antes de virar o Palhaço do Crime. Em 1951, a DC resolveu brincar com essa ideia.

Em O Homem Atrás do Capuz Vermelho, o personagem do título claramente era o Coringa, mas a trama nunca nos disse nada realmente importante sobre sua origem. Seu nome e suas intenções eram desconhecidas, mas vemos que estava disposto a pular em um tonel de produtos químicos em vez de ser pego pela polícia.

Foi assim que nasceu o Coringa que conhecíamos, mas realmente conhecíamos o homem que se tornou o Coringa? O conceito era genial: uma origem sem contar uma origem.

O piadista

Desaparecido e esquecido?

Nos anos que se seguiram, o Coringa apareceu cada vez menos nos quadrinhos do Batman. Não era por impopularidade, mas porque o então escritor das mensais do Homem-Morcego, Julius Schwartz, realmente odiava o vilão. Foi aqui que o Coringa da TV se mostrou muito importante.

Interpretado por Cesar Romero na série de TV do Batman dos anos 60, este Coringa ajudou a manter o vilão no coração dos fãs até que os editores da DC decidissem dar mais uma chance ao personagem.

Graças à popularidade que adquiriu na televisão, o Coringa até teve aparições em revistas da Liga da Justiça da época, ainda que continuasse “banido” por Schwartz das mensais do Batman.

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O grande retorno

Em 1973, o Coringa teve um retorno magistral às histórias do Batman com As Cinco Vinganças do Coringa, um dos quadrinhos mais importantes e subestimados de todos os tempos. Os quadrinistas Denny O’Neil e Neal Adams plantaram a semente do “Coringa moderno”.

Inteligentemente, o que estabeleceram era que o Coringa havia desaparecido porque estava preso em um “hospital estadual para criminalmente insanos”. Saindo de lá, o personagem não era mais o idiota dos truques: aqui havia um Palhaço do Crime muito perigoso, louco e manipulador.

O piadista

Os Peixes Risonhos

Vale destacar que o “Coringa moderno” foi sendo moldado aos poucos. Nesse sentido, em 1978, Steve Englehart e Marshall Rogers, que vinham de trabalhos na Marvel, foram muito importantes.

Em Os Peixes Risonhos, o Coringa inicia uma série de assassinatos, mas não aleatoriamente: suas vítimas eram autoridades de Gotham que estavam atrapalhando seus negócios com peixes envenenados com toxina do riso.

É uma motivação muito bizarra, mas é exatamente por conta disso que é tão boa: enquanto outros vilões do Batman tinham suas obsessões, o Coringa simplesmente estava acima da razão.

O piadista

A evolução do vilão

Dos anos 70 aos 90, os quadrinhos em geral passaram por muitas mudanças porque agora podiam comportar elementos mais maduros. A galeria dos vilões do Batman é um exemplo disso.

Antes bandidos com truques surpreendentes, mas um pouco bobos, os antagonistas do Cavaleiro das Trevas foram retrabalhados para refletir uma abordagem psicológica mais profunda.

Duas-Caras, por exemplo, tornou-se uma representação de que podia haver extremos do bem e do mal em uma mesma pessoa. Até o Pinguim, baixinho obeso e ridicularizado, se mostrou um retrato do lado sombrio da riqueza. E o Coringa?

O piadista

A dança eterna das trevas

Enquanto o Batman também passava por mudanças, o Coringa comprovou que era seu antagonista ideal. Ele evoluiu para virar seu maior nêmesis. Enquanto Batman era sobre determinação e ordem, o Coringa era sobre imprevisibilidade e caos.

Não importava quantas vezes o Homem-Morcego o prendia, o Palhaço do Crime voltava e causava ainda mais estrago que antes. Eles estavam destinados a fazer aquilo para sempre. E os quadrinhos atuais mostram que continua sendo assim.

O piadista

Insanidade exponencial

Quando os talentosíssimos Alan Moore e Brian Bolland fizeram a icônica A Piada Mortal, eles deram início a um expoente de loucura no Coringa. Retornando à trama do Capuz Vermelho, os quadrinistas mostraram lampejos do homem trágico que o Coringa era, mas no fim concluíram que ele era tão perturbado que não lembrava direito nem mesmo do seu passado.

Deixando Bárbara Gordon, a Batgirl, paraplégica e tirando fotos dela nua para mostrar que o homem mais decente de Gotham – o Comissário Gordon – também podia enlouquecer (o que não aconteceu), o Coringa provava que era capaz de coisas verdadeiramente doentias. Algum tempo depois, também matou o pobre Jason Todd, o Robin, a sangue frio.

Assim o Coringa moderno estava construído. Coisas impactantes que vieram depois – como o Coringa arrancando seu próprio rosto nos quadrinhos e aparecendo como um assassino psicótico, frio e inteligentíssimo em Batman: O Cavaleiro das Trevas – foram fruto dos esforços de décadas na construção e reconstrução desse vilão, que parece não ter limites de interpretação.