Os últimos dez anos foram decisivos para a história da televisão. Depois dos anos 2000 terem mostrado que o público havia amadurecido o suficiente para que as narrativas televisivas fossem além do que era aceito dentro dos formatos “enlatados” da TV aberta americana, a nova década buscou explorar ao máximo o potencial desta transformação. 

Mas além do público, também tivemos grandes mudanças na maneira como consumimos séries. Afinal, a Netflix só entrou neste cenário com House of Cards em 2011, e desde então, assistir séries por streaming foi se tornando, cada vez mais, a norma para o público que acompanha, comenta e promove estas produções.

E com tantas boas séries buscando se estabelecer em um mercado que, incrivelmente, não para de crescer, fazer uma lista das “melhores séries da década” é uma tarefa complicada, que com certeza nunca forneceria um resultado absoluto e inquestionável. Sendo assim, tentei reunir algumas das melhores, mais influentes e mais marcantes produções que devem continuar sendo revisitadas, muitos anos depois. Além disso, também tentei ser eclético o bastante para que, se o mundo acabasse amanhã e só tivéssemos estas séries à nossa disposição, ainda estaríamos bem servidos para assistir televisão depois do apocalipse. 


(Um detalhe. As séries não estão seguindo nenhum tipo de ordem. Classifiquem como quiserem). 

Fargo

O filme dos irmãos Coen teve sua boa cota de elogios, mas ninguém poderia imaginar que Noah Hawley conseguiria pegar o conceito de Fargo e expandi-lo em uma das séries mais deslumbrantes da década. O roteiro da série é talvez o melhor exemplo de como se trabalha uma antologia de temporadas em um mesmo universo, e a direção dos episódios chega ser mais estimulante do que uma boa (enorme) parte das produções cinematográficas que serviriam de comparação. Com três temporadas, Fargo é um exemplo de como várias produções televisivas irão lidar com seus formatos narrativos, daqui para frente.

Watchmen

Eu sei que é incrivelmente cedo para chamar uma série que se encerrou algumas semanas atrás, de uma das “melhores da década”. Mas convenhamos, quando se compara tudo que Damon Lindelof conseguiu construir com sua memorável expansão do material original, é difícil encontrar séries tão atraentes para o grande público que conseguem, ao mesmo tempo, se equiparar à substância de algumas das séries mais prestigiosas dos últimos dez anos.

Veep

Além de um elenco sensacional, Veep conseguiu explorar, com louvor, o potencial de seu formato, e entregou temporada após temporada com perspectivas interessantes sobre a política americana, de forma consistentemente impactante. A série trata de política com uma leveza primordial, e mesmo assim nunca deixou de ser extremamente relevante para os tópicos que abordava. Tudo isso, liderado pela performance de Julie-Louis Dreyfus, que consagrou-se como uma das maiores atrizes de comédia da televisão com este papel principal.  

The Americans

Um dos maiores problemas em séries é sempre a “consistência”, quanto a produção alcança um número alto de temporadas. The Americans foi se tornando cada vez mais venerada dentro da crítica, justamente por conta de sua qualidade consistente, tanto na parte visual da série (que recebeu inúmeros elogios por sua complexidade) quanto pela narrativa envolvente e repleta de tensão, estrelada por Matthew Rhys e Keri Russell. A série se encerrou como um dos melhores dramas da televisão, ao lado de nomes mais famosos e conhecidos do grande público, mas nem por isso mais dignos de atenção do que esta história sobre espiões russos disfarçados em meio à guerra fria. 

A Maldição da Residência Hill

Esta é a única série de terror nessa lista (e provavelmente em quase todas as outras listas de “melhores da década” que forem feitas). Só isso já deveria ser motivo suficiente para você conferir esta produção do diretor Mike Flanagan, que estreou na Netflix como uma minissérie, mas que agora contará com mais temporadas em um formato antológico. A Maldição da Residência Hill tem performances memoráveis de um elenco que dispõe de um material repleto de emoção e expressão, contando uma história de terror que entende algo já esquecido por vários outras produções do gênero: No centro de tudo, você tem alguém com medo.

Community

Uma das maiores decepções desta década, é que Community não terá tido seu filme para completar sua peculiar, porém memorável trajetória. A série de Dan Harmon teve altos e baixos, além de polêmicas de sobra que a tornaram consideravelmente desfigurada, temporada após temporada. Mas mesmo assim, Community entregou alguns dos melhores episódios da televisão, construiu personagens e tramas absurdas que servirão de exemplo para inúmeras séries de comédia, e nunca deixará de ser uma produção perfeita para se analisar o estado da cultura pop em sua época. 

Game of Thrones

Ame ou odeie o final, não Importa. A televisão nunca mais será a mesma por causa de Game of Thrones. Na verdade, quando as pessoas lembrarem desta década e falarem sobre televisão, duas coisas estarão em destaque, indiscutivelmente: Netflix e Game of Thrones. A série começou como uma produção chamativa por seus visuais medievais, e logo se tornou um fenômeno televisivo que marcava o grande último suspiro de uma geração que não terá mais tantas produções para acompanhar coletivamente, semana após semana, em um ambiente onde todos parecem ter assistido a mesma coisa, e todos querem falar sobre isso. Eu e você vamos estar bem abaixo do chão, mas alguém ainda vai estar dizendo “Dracarys” em algum lugar. 

Hannibal

Já parece um tempo distante, mas no começo da década, lista nenhuma deixaria de incluir Hannibal. A série da NBC trazia todas as melhores qualidades de Bryan Fuller, um dos mais interessantes showrunners de todos os tempos (basta assistir qualquer série dele). Por estar na TV aberta, a série teve um fim prematuro e estava sempre em perigo de cancelamento. Mas com certeza, se fosse lançada hoje em dia por uma plataforma como a Netflix, Hannibal seria um dos assuntos mais presentes em qualquer roda de discussão, e a performance de Mads Mikkelsen estará sempre lá para impressionar qualquer novo espectador. 

Westworld

A primeira temporada de Westworld elevou a série ao posto de grande substituta de “Game of Thrones para a HBO, enquanto a segunda foi bem mais divisiva. Mas uma coisa é inegável: Westworld é o melhor exemplo de uma série ambiciosa, que aproveita todo o valor de produção característico da HBO para entregar episódios que possam tentar conquistar o mesmo nível de “evento” que vem se tornando cada vez mais raro, hoje em dia. Suas tramas podem ser bem complexas, às vezes até demais, mas é justamente esta ambição que torna a série tão importante para ser lembrada, quando analisamos os rumos da TV nesta década. 

Black Mirror

Quando estreou em 2011, Black Mirror era apenas uma série estranha. Muito bem feita, com seus roteiros provocativos e direções dignas de nota, mas foi com a evolução da série que o seu impacto foi sendo cada vez mais reconhecido. A série é uma produção que consegue atiçar o espectador a pensar sobre o mundo, sobre o futuro e sobre si mesmo, sem tornar-se pedante, e sempre aspirando manter uma variedade em suas histórias. Definitivamente, é uma produção que merece destaque, pois é por causa de Black Mirror que a televisão ainda vai ceder cada vez mais espaço à antologias como esta, e os possíveis resultados são bem animadores.

Master of None

Seguindo a tradição de grandes comediantes que recorreram ao autorretrato, como Jerry Seinfeld e Larry David, Aziz Ansari dramatiza eventos diversos de sua vida em Master of None. Ainda que tenha apenas duas temporadas, a comédia com toques dramáticos e românticos (especialmente em seu primoroso segundo ano) é uma das apostas mais certeiras da Netflix, triunfando em seu misto de humor de comportamento, cultura e amor na era moderna. – Lucas Nascimento

The Good Place

Uma série de comédia da TV aberta americana que fala sobre conceitos filosóficos de moralidade a cada episódio, mergulhando de cabeça em perguntas absurdamente complexas e entregando respostas acessíveis, além de descontraídas. The Good Place é uma série que encontra diversos obstáculos a cada nova etapa de sua história, e a criatividade dos roteiristas merece todos os elogios que a série vem recebendo, desde sua primeira temporada. Entre as comédias da década, nenhuma consegue ser tão distinta, e com soluções tão sólidas para os seus problemas, quanto The Good Place. 

Gravity Falls

Se a lista precisa ser eclética, não poderia faltar alguma série inteiramente produzida para o público infantil. E entre produções que alcançaram grandes reconhecimentos como Hora da Aventura e Steven Universo, Gravity Falls ainda se mantém como uma série memorável, que traz desde nostalgia, até um universo realmente estimulante, repleto de reviravoltas e pequenos detalhes que tornam as únicas duas temporadas, uma história digna de atenção, tanto para as crianças, quanto para qualquer adulto que se dispor a mergulhar nos mistérios de um verão perfeito. 

Fleabag

Apesar da produção televisiva eclética de Phoebe Waller-Bridge, a criação responsável pela fama recém-adquirida da atriz, roteirista e produtora é Fleabag, série original da Amazon que abocanhou Emmys neste ano, incluindo o de Melhor Série de Comédia. A vitória é mais do que merecida, já que a série tem o trunfo raro de ser específica, até mesmo peculiar, e ao mesmo tempo manter-se abrangente para espectadores diversos. Além disso, é um dos melhores exemplos imagináveis de como usar metalinguagem, de forma que sirva à história e seus personagens, e de boa economia narrativa. Waller-Bridge não deseja continuar o enxuto seriado com uma terceira temporada, e tudo bem: não só a trama fica perfeitamente amarrada no final, como nunca corre o risco de deixar a peteca cair, assim garantindo o carinho e a saudade duradoura dos fãs – ah, e também muitas risadas. – Caio Lopes

Sherlock

Por toda a sua duração, Sherlock foi uma série que manteve os fãs aflitos por sua continuação. Steven Moffat é um dos escritores britânicos mais interessantes, atualmente, e embora sua passagem por Doctor Who também mereça atenção, Sherlock sempre será o destaque de seu portfólio. A série ainda serviu de plataforma para que o mundo notasse o talento de Benedict Cumberbatch no papel principal, além de demonstrar como construir tramas cheias de reviravoltas de uma forma diferente do que a televisão procedural sempre empregou.

The Marvelous Mrs. Maisel

A primeira temporada de The Marvelous Mrs Maisel é impecável. O elenco inteiro merece elogios por suas performances, a direção dos episódios eleva a série muito além do que a televisão ainda está acostumada em séries de época formulaicas, e o roteiro consegue equilibrar o drama da trajetória de sua protagonista com o tom cômico deste universo de uma forma engajante, alcançando qualquer espectador que não seja necessariamente atraído por este tipo de série. The Marvelous Mrs Maisel é uma dramédia que exibe algumas das melhores explorações de seu formato, e felizmente, continua sendo lembrada em qualquer premiação.

Breaking Bad

A série que inicia a era de ouro da televisão? Ao longo de seis temporadas extremamente bem segmentadas e escritas, Vince Gillian contou uma das histórias mais sombrias, complexas e desafiadoras com Breaking Bad. Com a ajuda de um elenco perfeito, um time de roteiristas audaciosos e uma direção que ajudou a remodelar como a direção de fotografia é aplicada em dramaturgia televisiva, a tragédia de Walter White não é apenas uma das melhores séries da década – mas de todos os tempos. – Lucas Nascimento (Vale ressaltar, Breaking Bad entrou na lista por fazer mais parte desta década do que da anterior.)

Rick and Morty

Dan Harmon retornou para a televisão com uma animação para adultos que brincava com diversos conceitos de ficção científica sem qualquer restrição. O resultado foi uma série que conquistou uma base de fãs absurda, e que continua impressionando novos espectadores por conta de sua criatividade e abrangência, aproveitando sua liberdade para entregar episódios contidos que subvertem ou aprofundam diversos clichês do gênero com uma empolgação contagiante. As temporadas com longos hiatos ainda contribuíram para a expansão de público da série, e com sua grande renovação para dezenas de episódios, ainda teremos muito o que ver pela frente.

The Crown

A série da Netflix é possivelmente o exemplo supremo de como se faz uma típica “série de prestígio”. Ao tratar de uma figura que, não só ainda está viva, como é extremamente importante para uma das nações mais poderosas do planeta, a série mantém-se dedicada ao retrato impecável de uma trajetória que só se torna ainda mais mesmerizante de acompanhar, por conta de performances singulares de seu elenco. Os elogios são incontáveis, com todas as áreas da série (trilha sonora, fotografia, direção, figurino, montagem e por aí vai…) sendo dignas de nota por si só.

Atlanta

Entre todas as produções da década, você vai ter muita dificuldade em encontrar uma série parecida com Atlanta. Donald Glover está utilizando a série para mostrar todo o seu talento como um storyteller, indo muito além de sua atuação e talento musical. A direção dos episódios beira o experimental em certos pontos, chegando a ser revigorante assistir Atlanta depois de tantas séries parecidas, uma do lado da outra, e é justamente a disposição de Glover de aproveitar esta liberdade narrativa que faz esta produção ser tão marcante.