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Ragnarok | Crítica - 1ª Temporada

Mais um dia, e mais uma série jovem-adulta com elementos sobrenaturais estreando na Netflix. Com a plataforma nos permitindo conferir diferentes produções internacionais, tivemos algumas boas e criativas propostas que se encaixavam dentro deste “gênero” (com seu amplo público-alvo), mas infelizmente, Ragnarok é apenas mais uma entre tantas tentativas pouco inspiradas. 

A proposta da nova série norueguesa envolve elementos da mitologia nórdica (já bem conhecidos do público, por conta de suas várias outras representações) sendo incorporados aos tempos atuais, com o jovem Magne (David Stakston) descobrindo ser a própria “reencarnação” do deus Thor. Olhando para trás, acho que posso dizer que foi lendo Percy Jackson, que minha curiosidade pela ideia de “deuses entre nós” foi entusiasticamente despertada. Lendo “Deuses Americanos” de Neil Gaiman, esta curiosidade atingiu um ápice monumental. Mas agora, devo assumir que Ragnarok marcou oficialmente o meu cansaço com esta proposta… 

A série traz esta mesma abordagem que temos visto, cada vez mais, se espalhando por diferentes histórias, mas sem qualquer elemento realmente intrigante em meio às suas tentativas de aproximar elementos mitológicos da nossa realidade. E quando uma ideia já foi trabalhada muitas vezes dentro um período tão curto de tempo, ela deixa de ter qualquer apelo de originalidade, principalmente para um público-alvo como este, que costuma consumir um número maior de produções. 

Chego a pensar que este é o tipo de série que, dentro das diferentes estratégias da Netflix para expandir e consolidar seu acervo, acaba sendo produzida para preencher “tags” específicas, comprovadamente atraentes dentro da plataforma, sem muito apreço pela memorabilidade ou distinção da obra em si. Os personagens de Ragnarok são meras repetições de arquétipos utilizados por inúmeras outras produções destinadas ao mesmo público-alvo, e talvez o seu maior problema neste aspecto, seja justamente a ineficiência de seu protagonista. 

Magne é um personagem construído para servir como aquele típico protagonista “introvertido”, com uma sensibilidade carismática e uma personalidade nem um pouco ameaçadora, mas com habilidades e/ou capacidades surpreendentes (Você já viu esse cara várias vezes, com certeza. Ele só não estava falando norueguês). No entanto, a tentativa de seguir a construção formulaica do personagem acaba falhando, tanto por conta da performance esquecível do ator, quanto pelos equívocos de um roteiro que confunde “introvertido” com “apático” ou “sem emoção”. 

O começo da série, acompanhando a evolução da relação entre Magne e Isolde, ainda traz o necessário para nos identificarmos com o personagem, mas quando este fica por conta própria para lidar com o resto da história, é difícil torcer por seus esforços, principalmente por conta do ímpeto do personagem não ser tão engajante. Um “herói relutante” pode negar quantos chamados o roteiro quiser impor, mas ainda precisa inspirar emoção quando age, e Magne sempre acaba soando menos interessante de acompanhar do que qualquer outro personagem à sua volta. 

Deve ser por isso que, conforme a série vai caminhando para a conclusão, vamos seguindo a trama com cada vez mais foco na família de antagonistas, dona de uma mega-empresa norueguesa, tipicamente esnobe, e secretamente composta por figuras da mitologia nórdica (óbvio…), escondidas entre os humanos. O ritmo da narrativa não gasta tempo em muitas sequências alongadas, mas mesmo assim, pode acabar entediando o espectador por conta da irrelevância, ou da falta de impacto de diversas cenas, o que torna a divisão do foco, ainda mais dispersante. È importante observar, ainda, que estamos falando de uma série com apenas seis episódios…

É evidente que o valor de produção de Ragnarok não é dos maiores, e não permitiria que a série tentasse retratar grandes conflitos sobrenaturais ou pudesse construir sequências mais elaboradas, visualmente. Mas é preciso apontar que toda a estética da série é meramente pragmática, e não há muito entusiasmo por parte da direção em tentar abordar momentos mais significativos para a proposta geral, com qualquer distinção. Temos alguns toques ocasionais de CGI, um ou outro trabalho de maquiagem, e de resto, ficamos no automático. 

Em partes, cheguei a me perguntar qual seria o tom narrativo proposto pela série. De início, ela parece mais séria, até empolgada pela oportunidade de abordar seus elementos mitológicos com, talvez, mais propriedade e fidelidade do que outras produções. A atmosfera “jovem-adulta” está lá, mas os temas e a sensibilidade da história parecem mirar um patamar mais ambicioso. Conforme a série segue, no entanto, fui me lembrando dos filmes da franquia “Crepúsculo” e afins. Achei que poderia ser por conta da família de seres sobrenaturais eternos, mas a verdade é que boa parte do tom acaba remetendo a dramas mal construídos e à certas construções de universo gratuitas.

E ao mesmo tempo, Ragnarok não parece conseguir surtir os mesmos efeitos que suas principais comparações “jovens-adultas”. Os romances adolescentes não são tão envolventes, os personagens posicionados para serem sedutores ou provocativos, não chegam a tanto, e a empolgação com demonstrações de “poder” ou habilidade não são tão bem retratadas quanto poderiam. “Shadowhunters” é uma série que já sofreu diversas críticas por suas abordagens apelativas, mas convenhamos, se é no apelo que a série está mirando, então não adianta tentar soar mais elaborada do que a proposta realmente é. 

No fim, o que acontece é que a tal ideia de “deuses entre nós” acaba sendo banalizada, e o potencial de uma série norueguesa abordando mitologia nórdica em um cenário como este acaba sendo tristemente desperdiçado, com o resultado final soando como se os produtores estivessem mais interessados no quanto as pessoas reconhecem o Thor da Marvel Studios, do que realmente se empolgam com as passagens mitológicas que encaixam entre os episódios. 

Ragnarok está longe de ser completamente dispensável para aqueles que se sentirem atraídos pela proposta. Mas no meio da temporada, é provável que muitos espectadores se questionem se ainda possuem o interesse em continuar esta história. É evidente que a série apenas preparou o terreno para o que parece ser um plano bem mais longo (envolvendo algumas pontas bem soltas que foram deixadas por esta temporada, além de breves tramas que ainda não evoluíram para lugar nenhum), mas se for para nos interessarmos apenas pelo que foi visto até aqui, acho díficil a série conquistar um público ávido por uma continuação. 

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