Monstro

Crítica – Espíritos Obscuros

Longa-metragem de Scott Cooper mostra dificuldades para se diferenciar dentro do gênero terror, apesar de importante mensagem sobre traumas e vícios

Desde 2009, temos o nome de Scott Cooper presente no mapa hollywoodiano. Foi Jeff Bridges quem ajudou a colocar o jovem diretor em evidência, pois juntos desenvolveram o drama Coração Louco, indicado a três Oscars, levando duas estatuetas douradas, sendo uma destas na categoria Melhor Ator para o veterano Bridges.

De lá para cá, Cooper criou outras produções dramáticas, como: Tudo por Justiça (2013), Aliança do Crime (2015) e Hostis (2017).

Até o momento, suas duas últimas empreitadas cinematográficas eram consideradas como as obras mais qualificadas da carreira do (ainda) jovem cineasta. Óbvio que Coração Louco, que foi sua estreia na função, permanece ainda como seu trabalho mais conhecido e reverenciado, porém, o tempo mostrou que foi mais uma boa plataforma para que seu protagonista brilhasse do que um exemplar modelo fílmico.

Agora, após a aventura em Hostis, quando produziu um faroeste revisionista, Scott Cooper tenta algo diferente novamente com Espíritos Obscuros, obra de terror sobrenatural. Pena que o talentoso diretor não conseguiu escapar dos elementos mais burocráticos do gênero, mesmo tratando temáticas complexas e extremamente relevantes.

Baseado no conto The Quiet Boy de Nick Antosca. Espíritos Obscuros nos transporta para uma cidade isolada do estado de Oregon, onde uma professora do ensino fundamental (Keri Russell) e seu irmão xerife (Jesse Plemons) se envolvem com um aluno enigmático (Jeremy T. Thomas), cujos segredos sombrios levam a encontros aterrorizantes com uma criatura ancestral lendária que veio para trazer sofrimento e morte para as vidas de seus habitantes.

Traumas que devastam

Em tempos onde se comenta bastante sobre a importância da saúde mental, nada mais natural que percebermos que com isso vêm à tona alguns traumas que costumam entorpecer e ancorar tantos de nós pela vida.

Com Espíritos Obscuros adentramos profundamente na temática sobre traumas, que na obra de Scott Cooper atingem todos os personagens centrais do enredo, cada um à sua maneira.

Em especial, observamos a narrativa focar nas figuras da professora, interpretada de modo competente por Keri Russell, além do garoto Lucas, papel do novato Jeremy T. Thomas, outro que também apresentou um trabalho elogiável nesta produção de terror.

E, ambos os casos traumáticos estão diretamente relacionados com a figura paterna, cada um por motivos e situações diferentes. Talvez, o maior mérito de Cooper, apesar de suas complicações para conseguir escapar de alguns dos elementos mais básicos do gênero, seja em explorar o peso destes acontecimentos, e quais são os tipos diferentes de reações que podemos apresentar neste processo de tentar lidar com aquilo que nos machucou, ou ainda fere profundamente nossos íntimos.

Mais interessante é a perspectiva do menino Lucas, que desenvolveu um senso de proteção zelosa daqueles que, agora, encarnam a crueldade dentro de seus corpos, literalmente. Na realidade, a compaixão dele é superior ao medo, assim como seu anseio de ser amado por aqueles que um dia o abandonaram, ou o reprimiram por um bom tempo. Inclusive, podemos notar isso fisicamente no garoto, que está visivelmente malnutrido, principalmente de amor e carinho.

América e a crise dos opioides

Como boa parte das obras de terror atuais, observamos que existe um comentário social relevante impregnado no fio narrativo. Em Espíritos Obscuros, assim como outras tantas obras dramáticas, testemunhamos a crise dos opioides que assola os Estados Unidos, especialmente a chamada ‘América profunda’, das pequenas cidades pelo país que sofrem com o subdesenvolvimento econômico.

É um fato que overdose é a maior causa de mortes na terra do Tio Sam, entre habitantes que têm menos de 50 anos de idade. Estes números assustadores representam o principal horror na obra de Scott Cooper.

O roteiro escrito a seis mãos por C. Henry Chaisson, Nick Antosca e o mandachuva Cooper demonstrou habilidades ao associar a monstruosidade do vício que só aspira deglutir aquilo que tanto deseja, sempre com a intenção de suprir algo que lhe faltou no passado, com a materialização do demônio que aterroriza os cidadãos em Espíritos Obscuros.

Também muito honorável pela parte de Scott Cooper em afirmar que existe, sim, uma maneira de conseguir lidar com estes demônios que vivem dentro de nós. Dependendo do ponto que nos encontramos, iremos inexoravelmente nos render à dor e sofrimento, resultantes das faltas cometidas para conosco; ou aprender a encarar a realidade de frente, mesmo que esta se apresente com uma aparência das mais repugnantes.

No fim, a verdade liberta. Horrível, como ela pode ser.

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