Black Lives Matter

Crítica: Cara Gente Branca – 4ª Temporada

Temporada final de série original Netflix apresenta irregularidade narrativa, mas continua incisiva nas argumentações

Em 2017, o trailer inicial da série produzida pela Netflix atraiu algumas respostas furiosas, com a produção sendo acusada por alguns usuários do Twitter de ser racista com os brancos; eles pediram um boicote à Netflix. O trailer da série no YouTube recebeu mais ‘dislikes’ do que curtidas. O criador da série Justin Simien respondeu positivamente à reação, dizendo que isso reiterou o ponto da série e trouxe mais atenção para o material proposto também.

Bom, se era esta a intenção de Simien e executivos da Netflix: missão mais que cumprida!

Afirma-se tal ideia, pois Cara Gente Branca durou mais quatro anos após este momento de controvérsia, fazendo o que se espera que é colocar o dedo na cara do assinante da plataforma, contestando-o, desafiando-o a mudar de posição e ver por um espectro diferente.

Dois anos depois, retorna para uma temporada final, que certamente ganhou certa potência devido os acontecimentos de maio de 2020, com o assassinato brutal de George Floyd (1973 – 2020) e o levante do movimento social Black Lives Matter.

Baseado no aclamado filme homônimo de 2014, esta série original da Netflix segue um grupo de estudantes negros na Universidade de Winchester, uma faculdade predominantemente branca da Ivy League. Os alunos se deparam com uma paisagem de preconceito cultural, injustiça social, ativismo equivocado e política instável. Através de uma lente absurda, a produção usa ironia, autodepreciação, honestidade crua e humor para destacar questões que ainda atormentam a sociedade “pós-racial” em dias recentes.

De volta para os anos 90

Já virou fator comum olharmos para as notícias atuais e, logo em seguida, resgatarmos momentos do passado para concluirmos se houve alguma evolução positiva, ou se ainda estamos ancorados, nos repetindo com as mesmas lutas que gerações anteriores enfrentaram.

Infelizmente, na maioria dos casos, notamos uma repetição de acontecimentos que, ao mesmo tempo, nos fazem questionar enquanto mantêm nossas cabeças erguidas diante das adversidades que encontramos diariamente.

Cara Gente Branca trabalhou com as ferramentas que normalmente usa, retomando as batalhas vistas em 1992 na revolta em Los Angeles, decorrentes da absolvição de quatro oficiais da polícia que foram acusados de usar força excessiva na prisão e espancamento de Rodney King (1965 – 2012). Este incidente foi gravado em vídeo e amplamente mostrado em programas de televisão. Familiar, não?!

Percebendo que a luta por justiça continua, Justin Simien homenageia a geração que foi às ruas na década de 90 fazendo o improvável nesta quarta temporada: elaborando uma trama musical com hits de sucesso do fim do século passado.

A jukebox soltou pérolas de artistas, como: Tevin Campbell, The Proclaimers, Guy, Des’ree, Johnny Gill, SWV, Salt-N-Pepa, NSYNC, Jamiroquai, Mint Condition, Cake, Mary Mary, Montell Jordan, Color Me Badd, Nas, entre outros.

Mais: Simien conseguiu elaborar números musicais apresentando atraentes coreografias que apostam mais nos movimentos da dança do que efeitos técnicos visuais.

Desta maneira, o criador de Cara Gente Branca transforma a inquietação social e amarguras em arte móvel acolhedora. Que sempre foi uma saída encontrada pela sociedade, uma maneira de lidar com os sofrimentos e injustiças testemunhados ao nosso redor. Transformando dor em força e esperança.

O fenômeno do reality show

Outra sacada interessante vista em Cara Gente Branca da Netflix, veio como uma crítica ao modelo de reality show televisivo, daquele tipo onde temos várias pessoas “trancafiadas” dentro de uma casa tendo que conviver com as diferentes personalidades que ali se encontram.

Algo que nem todos sabem é que os reality shows, assim como as novelas, séries ou filmes, também possuem roteiristas. A diferença é que estes vão moldando o enredo de acordo com as peças e acontecimentos externos influenciadores.

Nesta série original Netflix, assistimos Coco (Antoinette Robertson) dentro de um reality chamado de Big House, onde os produtores manipulavam a narrativa do programa como gostariam. Inclusive, tentando provocar situações constrangedoras entre a popular Coco e uma outra jovem negra, colocando uma contra a outra.

Conhecendo o material, percebe-se que o roteiro buscou mostrar como a mídia aprecia um conflito provocado e, que não sente na consciência o peso disso, mesmo que isso custe lascar a imagem feminina, ou mais especificamente, mulheres negras.

Mesmo a jovem Coco acabou se deixando levar pela onda, usando uma situação traumática de sua vida, na tentativa de conseguir a simpatia dos votantes em questão. Uma celebração baseada em uma dor que assola tantas mulheres pelo mundo.

Martin Luther King Jr. Vs. Malcolm X

Lembram-se quando o diretor Bryan Singer impressionou muitos quando lançou o primeiro filme da franquia X-Men (2000), tornando-se o pilar central para o que viriam a ser filmes de super-heróis no cinema?

Na época, Singer estabeleceu a rivalidade entre Professor X e Magneto, como algo similar aos acontecimentos da primeira metade dos anos 60, onde existiam dois líderes representantes da comunidade negra nos Estados Unidos, respectivamente, Martin Luther King Jr. e Malcolm X.

Bom, Cara Gente Branca quis repetir esse conceito em sua temporada derradeira, oferecendo um contraponto à destemida Samantha White, interpretada pela talentosa Logan Browning. Entra Iesha (Joi Liaye), jovem que não abaixa a cabeça para ninguém, e que vai bater de frente com muitos de seus colegas na Universidade de Winchester, especialmente aqueles que vão participar do show de variedades celebrado anualmente.

Aqui, uma das provas da maturidade no conteúdo, que ousa confrontar ideias dentro da própria classe, praticamente como uma forma de autocrítica, que sempre deveria ser muito bem recebida em qualquer meio na busca pela escalada progressista social.

Conclusão

Se no início, Cara Gente Branca triunfou em cima de supostas polêmicas, hoje, entre acertos e erros que comete de modo natural, até mesmo proposital, nota-se a evolução clara do enredo.

Todos estão buscando aprender aqui, literalmente, todos. A questão identitária tornou-se algo que exige o melhor de nossas capacidades no campo do diálogo. Obviamente, todo processo de ruptura, de mudança, gera um incômodo. Nada mais natural e saudável, pois nos acostumamos com as estruturas que crescemos.

No entanto, sabemos que a repressão de certos elementos não pode ser contida, e nem deveria! Assim, cabe a nós, abrirmos às novas possibilidades que visam um equilíbrio e justiça social que ainda não fazem parte de nossas vidas como uma sociedade.

Como fazer isso?

Os personagens principais deram a dica no último capítulo. Primeiro, é necessário que encaremos de frente a realidade e, enquanto olhamos nos olhos da verdade, possamos nos conscientizar quem está do outro lado, qual história ali se esconde, como que foram os acontecimentos que trouxeram aqueles até ali, e assim por diante.

Sempre lembrando que os despertos, não querem mais voltar a dormir.

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