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Crítica | Legítimo Rei

Após o longa Legítimo Rei de David Mackenzie abrir o Festival de Toronto deste ano, onde foi mais exaltado pela cena de nudez frontal de seu astro e protagonista Chris Pine do que por seus valores cinematográficos, chega à Netflix a produção original sobre a batalha sangrenta entre Escócia, que luta por sua liberdade, e a Inglaterra do Rei Edward I. Tristemente, um ponto mais baixo na carreira de Mackenzie, principalmente, depois do merecido sucesso de crítica do ótimo faroeste contemporâneo A Qualquer Custo, também estrelado por Pine.

Legítimo Rei, claramente uma infeliz tradução do original Outlaw King, no traduzido Rei Fora da Lei, rememora uma verdadeira história de Davi contra Golias, assim pois, a Escócia liderada pelo rei foragido Robert the Bruce, lutou por seu território contra a Inglaterra, de exército muito maior, além de melhor equipado, obrigando o rei dos escoceses a usar de elaborada estratégia e grande bravura para libertar seu povo.

Talvez, tal história já seja conhecida do público, pois Coração Valente de 1995, filme vencedor do Oscar na principal categoria, dirigido e estrelado por Mel Gibson, também recorda a grande batalha ocorrida no século XIV, porém, pelo ponto de vista de William Wallace, cavaleiro escocês que foi um dos líderes durante a Primeira Guerra pela Independência da Escócia.

Se a obra de Gibson está abarrotada de imprecisões históricas a respeito do título, interesses amorosos, incluindo até o vestuário do cavaleiro escocês, sem esquecer a mínima semelhança com a Batalha de Stirling Bridge, sem qualquer ponte a vista, ao menos não falta coração no longa de grande sucesso na década de 90. E, é exatamente esta uma das coisas que falta a Legítimo Rei de David Mackenzie, que é um filme muito irregular e morno.

Apesar de acertar ao retratar a Batalha de Bannockburn, marco histórico para a Escócia na guerra de independência do país, que só viria quatorze anos depois, em 1328, o filme de Mackenzie falha especialmente na questão dinâmica, de ritmo. Mesmo já havendo fatores dramáticos, desde o começo, a produção original da Netflix só encontra algum eixo, depois do minuto 40′ de filme. Ainda assim, após obter tal fio narrativo, a obra do cineasta de origem escocesa continua a cambalear, tendo alguns bons momentos, retratando a retomada de castelos de lordes, e em parte, a confiança no povo e em seu rei.

Até lá, a única coisa de real valor dramático em Legítimo Rei é a performance cirúrgica e empática da jovem atriz inglesa Florence Pugh, que interpreta Elizabeth de Burgh, rainha e esposa de Robert the Bruce. Em uma atuação de muito vigor, associada a uma boa presença em cena, incluindo fluente sinergia com Chris Pine, a atriz ajuda a estilhaçar a ideia de que por trás de todo grande rei, existe uma grande rainha, pois aqui no filme da Netflix, é apenas esta grande rainha que existe. Ajuda muito o fato de que a atriz recebe do roteiro, ao menos quatro bons momentos ou falas, para demonstrar seus predicados dramáticos, que por fim, lamentavelmente, o filme escanteia, porque a personagem é deixada de lado, em boa parte da segunda metade do longa.

Outro ponto central, que infelizmente, joga o trabalho de David Mackenzie para baixo é a atuação frouxa, como também é a direção do filme, de Chris Pine. Ao contrário da boa tarefa realizada por ambos em A Qualquer Custo, aqui, o galã hollywoodiano pena para conseguir estabelecer qualquer tremor dramático, exatamente o contrário da performance de outro astro da indústria, Aaron Taylor-Johnson, que é apenas pura fibra em cena, e nada mais.

Tivesse esta performance de Pine à altura e potência, geralmente exigidas em filmes deste tipo, é certo que Legítimo Rei teria se saído um pouco melhor, mesmo que ainda muito aquém do grande material histórico. Até no clímax, a famosa Batalha de Bannockburn, o longa de Mackenzie não consegue nem chegar perto de arrepiar a espinha dorsal do espectador.

Agora, fica a torcida para que David Mackenzie, volte a melhor forma, como apresentada no filme de 2016, que conseguiu quatro indicações ao Oscar. É possível que alguns pensem que o sucesso de A Qualquer Custo, se apoiou no talento do roteirista Taylor Sheridan, mas é bom lembrar que antes houve Starred Up, longa de 2013 dirigido por Mackenzie, que já mostrava promissor trabalho sem a benção de Sheridan.

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