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Os Cavaleiros do Zodíaco | Crítica - 1ª temporada

Em uma tentativa de aproximar o público americano da franquia Cavaleiros do Zodíaco, a Netflix nos traz esta nova adaptação em CGI do clássico anime que conquistou vários fãs apaixonados. A aposta tem seus méritos, mas o resultado é, na melhor das hipóteses, meramente esquecível. 

Tal qual deixei claro na crítica de Ultraman algum tempo atrás (outra conhecida franquia japonesa que recebeu o tratamento da Netflix em uma nova versão), meu contato com Cavaleiros do Zodíaco nunca foi muito intenso. Episódios esporádicos sempre deixaram claros os apelos do anime, e grande legião de fãs brasileiros sempre foi expressiva o suficiente para que qualquer novo produto da marca não passasse despercebido. Mas com esta nova encarnação de Seiya e seus companheiros, imagino que os fãs de longa data devem estar um tanto frustrados com a banalidade que acaba sendo sentida por aqui. 

A animação já causa um estranhamento visual logo de cara. O “design” é evidentemente simples, pouco detalhado, se atendo a vários aspectos da franquia originalmente pensados para páginas de mangá (Os olhos. Sempre os olhos…). No entanto, a movimentação dos personagens e a alta definição que retrata estes visuais simplistas é tão mais chamativa que chega a ser discrepante. Não demora muito para associar a animação com sequências de videogame, e ainda poderia-se apontar que não estamos falando de jogos da geração mais recente. 

Ao analisar esta nova versão de Cavaleiros do Zodíaco, é válido notar as óbvias intenções por trás de sua produção. Como disse antes, o público americano é um dos alvos claros por aqui, e é estranho perceber como a série parece ser escrita por japoneses, mas produzida por americanos. Muitos dos diálogos e (principalmente) a exposição são típicos do que se costuma ver em animes, mas muitos dos elementos de cada episódio soam como derivações, esforços para emular aquilo que se reconhece nesta outra mídia tão consumida por fãs.

 Não seria justo dizer que estamos diante de um exemplo de “anime americano”. Outras empreitadas já conseguiram borrar as linhas entre as duas mídias e aproveitar elementos de cada uma sem que isso soasse apenas como referencial. Mas a tentativa de adequar as características do anime para um público ocidental casual sempre corre o risco de acabar desfigurando-o. Um dos exemplos que poderia ilustrar esta diferenciação de público já pode ser percebido logo na dublagem, com os nomes dos personagens e de seus ataques sendo alterados na versão em inglês (a dublagem brasileira, por sua vez, não liga nem um pouco para estas “ocidentalizações” modernas).  

Mas a outra clara intenção desta versão também é importante de se ressaltar. A produção é pensada para um público infantil, e possui poucos atrativos para outras faixas etárias, além da possível nostalgia e reconhecimento dos fãs da franquia. Sendo assim, poderia-se justificar o ritmo apressado e a construção pouco substancial que temos ao longos destes curtos seis episódios, mas enquanto a série parece estar interessada em se adequar às crianças, ela também não se permite deixar de lado muitas das convenções de anime que são direcionadas ao público um pouco mais velho. A mistura acaba gerando um produto estranho, cujo apelo nem sempre é tão claro quanto poderia. 

O primeiro episódio já corre como se estivesse riscando items de uma lista. Somos apresentados ao protagonista e suas motivações, sem grandes contextualizações. Seguimos então para uma sequência de exposição que procura estabelecer a mitologia da série, repleta de elementos grandiosos, mas cujo impacto é consideravelmente reduzido à algumas poucas palavras de diálogo. O antagonista é apresentado durante a exposição, os objetivos para a trama se tornam explícitos, e logo em seguida, o tal vilão já aparece para criar conflito.

 Tudo se move muito rápido, do jeito que crianças talvez gostem de acompanhar suas produções, mas sem qualquer aprofundamento, até um universo como este, que aborda elementos da mitologia grega e armaduras super-poderosas, pode tornar-se enfadonho bem rápido. Ao longo dos episódios, algumas pausas são feitas na trama principal para dar espaço à sequências que preenchem as histórias passadas dos coadjuvantes, mas o ritmo apressado também acaba deixando-as tão banais quanto o desenvolvimento da série em si. 

Mas seja para o público mais velho, ou para as crianças que possivelmente encontrem esta produção no acervo da Netflix, o grande e mais fácil apelo da animação estaria em suas sequências de ação. Se este aspecto conseguisse gerar empolgação, já seria bem mais fácil consumir a nova versão de Cavaleiros do Zodíaco, ainda que do jeito mais descontraidamente possível. No entanto, a maneira como procuram se ater ao modelo de cenas de ação dos animes acaba soando simples demais dentro dessa roupagem de CGI, e as lutas perdem toda a mirabolância que costuma ser atribuída às produções japonesas. 

Fãs do anime, fiquem a vontade para me explicar o quanto estes curtos seis episódios chegaram a adaptar da história original, mas a impressão que fica depois desta temporada é de que este parece ser um arco danosamente resumido. Os diferentes grupos de cavaleiros não são tão distinguíveis quanto a série parece acreditar que eles obviamente são, e a urgência desta história nem sempre fica clara o suficiente para engajar o espectador. E em meio a estes desenvolvimentos acelerados, os episódios ainda encontram tempo para comentários engraçados pontuais (com “timings” cômicos desconfortáveis”), além de uma discussão entre Seiya e uma porta de segurança. 

Animações americanas nem sempre conseguiram trazer o mesmo impacto empolgante que os fãs de animes encontravam nas produções do outro lado do mundo. Mas exemplos como “Avatar: A Lenda de Aang” e “O Príncipe Dragão” vem mostrando que é perfeitamente viável aproveitar elementos incomuns para criar histórias memoráveis e atrativas para diversos públicos. Até mesmo em uma abordagem mais infantil e descontraída, as animações de Guillermo Del Toro para seu universo “Tales of Arcadia” também demonstram o potencial de universos mirabolantes, quando bem expostos e executados. 

Mas esta Cavaleiros do Zodíaco da Netflix não encontrou as melhores soluções para mesclar suas diferentes propostas, e acabou sendo confusa demais para poder aproveitar o melhor do rico universo em que se baseia. Mais alguns episódios ainda devem vir por aí, e quem sabe, conforme os desenvolvimentos comecem a fazer mais sentido, poderia-se explorar a franquia de forma mais empolgante. Mas baseando-me nesta primeira leva, acho difícil que a animação conquiste tanto fãs novos, quanto os antigos. 

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